<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352</id><updated>2012-01-31T19:51:25.927+01:00</updated><title type='text'>Restos &amp; Sobras</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>72</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-2796738021806154565</id><published>2011-12-28T17:19:00.002+01:00</published><updated>2011-12-28T17:40:15.384+01:00</updated><title type='text'>Os Sortudos (de Charles Bukowski)</title><content type='html'>&lt;em&gt;[é a primeira vez que me aventuro a traduzir um escritor que admiro. aqui fica.]&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;presos no trânsito, debaixo de chuva, às seis e um quarto da tarde,&lt;br /&gt;estes são os sortudos, estes são&lt;br /&gt;os plenamente empregados, a maior parte com os seus rádios aos berros&lt;br /&gt;enquanto tentam não pensar nem lembrar-se de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é esta a nossa nova civilização: os homens, da mesma maneira que&lt;br /&gt;já viveram em árvores e em cavernas, agora eles vivem&lt;br /&gt;nos seus automóveis e nas auto-estradas e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as notícias locais são ouvidas uma e outra vez.&lt;br /&gt;nós vamos em primeira e metemos a segunda e reduzimos de novo para primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;há um desgraçado empanado na faixa da esquerda,&lt;br /&gt;ele está de pé encostado ao separador da auto-estrada&lt;br /&gt;com um jornal por cima da cabeça, à chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os outros carros têm de se desviar do carro dele, meter-se à força&lt;br /&gt;na faixa do lado, à frente de carros determinados em não os deixar entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na faixa à minha direita um condutor está a ser seguido por um&lt;br /&gt;carro da polícia com as luzes azuis e vermelhas a piscar – ele seguramente&lt;br /&gt;não pode ir em excesso de velocidade já que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de repente cai uma chuvada gigante e todos os&lt;br /&gt;carros param e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mesmo com a minha janela fechada sinto o cheiro a queimado&lt;br /&gt;da embraiagem de alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só espero que não seja a minha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a parede de água diminui e lá vamos nós&lt;br /&gt;metemos a primeira; estamos todos parados&lt;br /&gt;bem longe de casa e eu memorizo&lt;br /&gt;a silhueta do carro à minha frente e a forma da&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cabeça do condutor ou&lt;br /&gt;o que&lt;br /&gt;eu consigo vislumbrar acima do apoio do banco enquanto&lt;br /&gt;o seu autocolante no pára-choques me pergunta&lt;br /&gt;JÁ DESTE UM ABRAÇO AO TEU PUTO HOJE?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de repente eu tenho que gritar&lt;br /&gt;e lá cai mais uma parede de água e o&lt;br /&gt;gajo na rádio diz que há 70 por cento&lt;br /&gt;de possibilidades de aguaceiros amanhã à noite&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2796738021806154565?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2796738021806154565/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2796738021806154565&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2796738021806154565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2796738021806154565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/12/os-sortudos-de-charles-bujowski.html' title='Os Sortudos (de Charles Bukowski)'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7411438353632862760</id><published>2011-10-12T11:07:00.004+02:00</published><updated>2011-12-28T20:09:47.983+01:00</updated><title type='text'>Relato minimalista antigo</title><content type='html'>Eu vinha a descer por entre as pessoas que ficavam para o fim e que ainda enchiam os becos, os passeios e os degraus, de copo na mão, de garrafa na mão, de cigarro na mão, de cabeça nas mãos. Trazia a viola debaixo do braço e houve um rapaz que se chegou perto e meteu conversa. Trazia o seu cigarro e a sua cerveja. "Posso tocar um bocado?" - eu não tinha pressa. Se ia para casa era porque já não tinha amigos. Haviam de estar caídos pelas valetas, sentados no chão encostados a paredes, adormecidos em casas-de-banho ou quase a adormecer em camas casuais ou sofás ao calhas ou esquinas escuras mais à mão. Passei-lhe a guitarra. Eu não estava sóbrio, ele não estava sóbrio. Mas a guitarra estava afinada. Um guitarrista no seu estado normal testa uma guitarra fazendo soar um sol maior ou um mi menor, ou algo do género, antes de fazer qualquer coisa realmente importante com o instrumento. Um pretendente a guitarrista, bêbado, às quatro da manhã da noite de Santo António aborda a guitarra com um dó sustenido menor de sétima, com a nona aumentada. "Hummmmm... isto não me está a soar bem" disse ele com ar desconfiado e eu pensei "opá, fode-te". Começou a mexer na afinação e eu acendi um cigarro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7411438353632862760?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7411438353632862760/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7411438353632862760&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7411438353632862760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7411438353632862760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/10/relato-minimalista-antigo.html' title='Relato minimalista antigo'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-2244304108329628524</id><published>2011-06-03T21:03:00.002+02:00</published><updated>2011-06-03T21:15:22.802+02:00</updated><title type='text'>O Mergulho ou a Arte do Abandono (excertos)</title><content type='html'>- O mergulhador anónimo &lt;br /&gt;pesa sobre a terra&lt;br /&gt;pelo mundo&lt;br /&gt;as tribos&lt;br /&gt;todas o permitem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o planeta deixa.&lt;br /&gt;Ocasionalmente ignora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- o bom mergulhador&lt;br /&gt;não volta.&lt;br /&gt;Nada até que o esqueçamos e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;será aquele estranho eterno&lt;br /&gt;anónimo simplificado e&lt;br /&gt;encurralado no próprio mergulho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- o mergulho&lt;br /&gt;é um acto submisso&lt;br /&gt;uma consequência da condição&lt;br /&gt;o herói não mergulha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se posso, mergulho.&lt;br /&gt;Com cobardia e convicção&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- mergulharei no fogo&lt;br /&gt;alguém saberá o quando&lt;br /&gt;mas que eu não o assinale&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os infortúnios do mergulhador&lt;br /&gt;são ausências&lt;br /&gt;rebeldes e ocultas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- posso afogar-me no tejo&lt;br /&gt;ou no lavatório&lt;br /&gt;a norte ou a sul do mondego&lt;br /&gt;em águas cristalinas&lt;br /&gt;em pó de arroz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;será uma questão de metodologia&lt;br /&gt;e de predisposição geográfica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- a viagem que faço&lt;br /&gt;indo e vindo&lt;br /&gt;num tapete submerso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a queda o abrigo a origem:&lt;br /&gt;pecados.&lt;br /&gt;eventualmente mortos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- um submisso numa catástrofe&lt;br /&gt;não é positivo&lt;br /&gt;não ajuda ninguém&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;somos sofredores&lt;br /&gt;e só por isso&lt;br /&gt;mergulhamos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é então&lt;br /&gt;que a paixão vem a nascer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- o mergulhador anónimo&lt;br /&gt;não tem casa&lt;br /&gt;o abandono&lt;br /&gt;é a única riqueza que possui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e há ruas tão belas&lt;br /&gt;no meio de estar só&lt;br /&gt;noites tão escuras&lt;br /&gt;e tanto amor rarefeito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- com estranheza e satisfação&lt;br /&gt;- é deste modo que encaro&lt;br /&gt;a partida dos outros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no vazio&lt;br /&gt;repousam construções imensas&lt;br /&gt;repletas de guerra e de piedade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- a água não se detém&lt;br /&gt;jorra por mim&lt;br /&gt;ausculta-me toca-me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se não paro&lt;br /&gt;afogo-me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;acendo as velas&lt;br /&gt;é noite e&lt;br /&gt;não durmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- durante o dia&lt;br /&gt;observo os mestres&lt;br /&gt;à sorte&lt;br /&gt;como se fossem um espelho limpo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e esse líquido maduro&lt;br /&gt;que me quer eterno&lt;br /&gt;esse composto frágil&lt;br /&gt;feito de náufragos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;ó! vida terrível&lt;br /&gt;de gasto&lt;br /&gt;de miséria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eis-me entre o cansaço e o sossego&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;silêncio pleno&lt;br /&gt;paisagem sem mergulho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Abandono&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- a velocidade a que sinto&lt;br /&gt;todas as coisas:&lt;br /&gt;passageiro o tempo&lt;br /&gt;materna a água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ou o ódio&lt;br /&gt;o esvaziamento de&lt;br /&gt;todas as salas do corpo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;amar o mundo&lt;br /&gt;a morte&lt;br /&gt;o medo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;descer a rua&lt;br /&gt;descer à terra&lt;br /&gt;visitar o fundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;adormecer crescido&lt;br /&gt;inundado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fugir do esforço&lt;br /&gt;da devoção&lt;br /&gt;nascer sentado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esquecer a esfera&lt;br /&gt;adormecer no banho&lt;br /&gt;trepando a cama&lt;br /&gt;subindo pela escuridão&lt;br /&gt;e por ti&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;carícias aumentadas ao espelho&lt;br /&gt;à lupa&lt;br /&gt;à solidão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;memórias náufragas&lt;br /&gt;o esquecimento&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;não temas a minha ira.&lt;br /&gt;Quando eu te odiar&lt;br /&gt;será com veneno suave&lt;br /&gt;possivelmente doce&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o mergulhador&lt;br /&gt;é um ser agradável&lt;br /&gt;mesmo quando traz escafandro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- o transtorno:&lt;br /&gt;corrida no escuro&lt;br /&gt;à roda dos medos&lt;br /&gt;como se a memória ficasse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não fica.&lt;br /&gt;Ergue-se do túmulo&lt;br /&gt;arrancando os cabelos&lt;br /&gt;e os homens&lt;br /&gt;que restam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- tantos se esforçaram&lt;br /&gt;também sem nome&lt;br /&gt;em nome de um mergulho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;momento fugaz&lt;br /&gt;essa derradeira glória&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;planeta das flores&lt;br /&gt;das águas&lt;br /&gt;das margens coloridas&lt;br /&gt;do excesso&lt;br /&gt;da espera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o mergulhador anónimo&lt;br /&gt;não morre&lt;br /&gt;não quebra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;abandona.&lt;br /&gt;Desliza pela existência&lt;br /&gt;até ao cadáver.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[O Mergulho (...) é o segundo painel do Tríptico Cardioconcêntrico, um inédito de 2003]&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2244304108329628524?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2244304108329628524/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2244304108329628524&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2244304108329628524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2244304108329628524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/06/o-mergulho-ou-arte-do-abandono-excertos.html' title='O Mergulho ou a Arte do Abandono (excertos)'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3061851994978798459</id><published>2011-05-12T19:23:00.001+02:00</published><updated>2011-05-24T18:44:34.504+02:00</updated><title type='text'>Niagara</title><content type='html'>Foi uma visita inesperada. Eram duas da manhã, ou quase, e tocaram-me à porta. Eu estava sozinho em casa. Eu vivia sozinho e passava a maior parte do tempo sozinho. E, sobretudo, não me importava com isso. Nesse tempo, estar sozinho era bastante bom. Via televisão e lia livros. Via mais televisão do que via livros. Era mais fácil. Mas às vezes lia mesmo. Ficava uma hora, duas horas, páginas atrás de páginas. Depois, esquecia-me disso. Habitualmente, lia coisas e metia os livros em cima da mesa ao pé do gira-discos e nos dias seguintes punha-me a ver televisão, séries americanas, filmes americanos, televendas, Euronews. Passados uns dias, não me lembrava que livro tinha começado a ler pela última vez. Na mesa acumulavam-se títulos, O Deserto dos Tártaros, O Estrangeiro, O Jogador, O Velho e o Mar, Mocidade, alguns em inglês, The Most Beatiful Woman in Town, títulos chineses traduzidos para francês e do francês reescritos em português, Uma Cana de Pesca Para o Meu Avô, Estreia Fatal. Quem olhasse para aquela mesa haveria de pensar “oh que gajo intelectual” mas era mentira. Aqueles livros eram só esquecimento. O que eu cultivava mesmo era o meu prazer pelas pipocas, cervejas do Lidl e séries americanas. Essa era a minha verdadeira cultura.&lt;br /&gt;Abri a porta, eu estava em calções, chinelos e de camisa de manga curta, aberta de cima a baixo. Levei a cerveja na mão e tinha a barba grande, toda desalinhada. Na altura eu não ligava muito à minha aparência. Hoje também não. Era a Rita. E eu disse “Rita?!” com aquela expressão de “what a fuck?!” e dei um gole na cerveja ainda extremamente confuso e surpreendido e, na verdade, um bocado lixado – estava a ter um serão tranquilo e, naquele dia, precisamente naquele dia, estava mesmo a ler. E ela disse “Oi… desculpa” e fez aquele sorrisinho de quem está com vergonha mas não tem vergonha nenhuma, aquele que as mulheres fazem e torcem assim a mão e encolhem os ombros e fazem o tal sorriso enquanto dizem estas coisas “oi… desculpa” sem um pingo de sinceridade. Elas sabem que estão a ser inconvenientes. A Rita sabia que aquilo era meio embaraçoso e que a hora era indecente. E disse “espero não estar a incomodar” com a mesma expressão de olhos muito abertos como quem pede mais ou menos desculpa e depois “importas-te que entre?”. Eu fiz assim com a mão com que segurava a cerveja e saí-lhe da frente. Ela passou e eu fechei a porta “põe-te à vontade”, ela foi para a sala e sentou-se. A televisão estava desligada e eu estava a ler a Fang Fang, o livro estava aberto. Ela apontou para o livro e perguntou “quem é?” e eu “é uma chinesa… queres alguma coisa, uma cerveja?”. Ela aceitou. “Olha que são do Lidl”. Ela disse que não fazia mal.&lt;br /&gt;A Rita não era minha amiga. Era mais ou menos. A Rita era a noiva de um grande amigo meu. Conhecíamo-nos, eu e esse grande amigo meu, desde os tempos do secundário. À Rita conhecia-a há coisa de um ano, desde que a relação deles tinha ficado mais séria. Jantei em casa deles três ou quatro vezes. Eles jantaram em minha casa uma vez. Não correu muito bem. Não sou grande cozinheiro. Foquei-me mais nos vinhos. Percebi que não gostaram. É uma das desvantagens de se estar sozinho e de não se ter companheira ou mulher ou namorada ou amiga de ocasião ou uma gaja qualquer que faça as vezes: jantares com um casal são tremendamente desequilibrados. O casal passa a ser uma espécie de instituição. Não é só ele; não é só ela. Em termos práticos, eles funcionam no modo “ele + ela” e isso é desagradável quando nós – eu – somos – sou, vá, o anfitrião porque não tenho ninguém com quem fazer equipa. Nessa ocasião, senti-me rara e profundamente só. Dois contra um. Eu perante a instituição correcta: o casalinho. A união, o futuro, os filhos em potência, uma vida a dois. Senti-me pressionado “então… e continuas sozinho?” e eu “epá, pois… da última vez foi a merda que se viu… e eu, para me chatear, não preciso de gajas… desculpa, Rita… não preciso de mulheres… sou perfeitamente capaz de me chatear sozinho”. Fiz uns rojões, mas correu mal. Os mojitos saíram miseráveis e, por isso, atirámo-nos aos vinhos mais cedo do que o previsto. Distraí-me com a salada e salguei-a também demais. Felizmente a sobremesa era gelado. Daqueles do Lidl. Eles eram perfeitinhos e vestiam roupa passada a ferro. Eu deixei queimar os rojões e parti a rolha da segunda garrafa.&lt;br /&gt;Quando cheguei com a cerveja para a Rita, estava ela a folhear a Fang Fang. Não gosto que me mexam nos livros e fiz-lhe um sorriso ameaçadoramente amarelo. Acho que ela percebeu. Largou o livro e endireitou-se. Pegou na cerveja e agradeceu. “Então… o que fazes aqui?” perguntei eu e depois acrescentei “desculpa a pergunta”. Estava desabituado destas coisas. Era brusco e nem dava por isso. Senti-me um bicho. Ela disse “Não, não, tudo bem… eu compreendo que a situação seja estranha, vir aqui a tua casa a esta hora da noite…” Sim, a parte da hora fazia-me confusão. Mas o que verdadeiramente me intrigava era isto: porquê sozinha? E então eu disse “e vieste sozinha porquê?” Não, eu não era uma pessoa delicada. Ela não respondeu e fixou o olhar no vazio. Deu um gole na cerveja. Depois, começou a chorar. Agora, sim: o embaraço era pleno. “Foi o Mário… foi o filho da puta do Mário”. O Mário era o meu amigo.&lt;br /&gt;E então a Rita contou-me a história. Foram à América e ao Canadá. A América é os Estados Unidos, pronto. Ver as cataratas do Niagara. “Comprei lá estes bonequinhos de handicraft. Vêm do tempo dos iroquois.” Era um boneco feio. “Foi o Mário que mo comprou, em Buffalo” e depois desatou a chorar de novo. “Nós queríamos começar a viagem em Niagara Falls, uma espécie de lua-de-mel, mas para assinalar o noivado.” Eles tinham dinheiro, tinham bons empregos. Podiam fazer estas coisas. “Depois íamos a Toronto, que ele tem lá uma tia. Ficávamos uns dias e depois íamos a Las Vegas e à Disneilândia.” O esplendor da fantasia: dinheiro, mulheres nuas e pessoas vestidas com fatos de rato Mickey. Já vi pior. “Mas não fomos… aquele filho de uma cadela” e voltou a chorar. Dei-lhe um guardanapo de papel. Assoou-se. Eu fui buscar mais cerveja. Quando voltei, ela estava a fumar. Eu não sabia que ela fumava. Fiquei contente, assim podia fumar também sem sentir que estava a incomodá-la. “Vês isto?” perguntou, segurando o cigarro “isto é culpa do anormal do teu amigo, sabes? Eu não fumava… Mas depois, uma pessoa com os nervos… Estávamos no nosso hotel em Niagara Falls, do lado dos US (ela pronunciou mesmo “you ésse”), e íamos caminhar à beira das cataratas. Isto tinha tudo para ser romântico, sabes? Uma pessoa passa anos a ter sonhos, a desejar ambientes idílicos. E foi isso que conseguimos. Tudo bem programado. E a viagem tinha tudo para correr bem. Mas, vê tu, era a nossa primeira manhã ali e ele recebe um telefonema da Rebecca, – a Rebecca era uma prima canadense, explicou-me a Rita, filha da tia de Toronto – essa porca… falaram, falaram, falaram… Quando desligou, disse-me «querida, preferia que fôssemos já para Toronto» e eu achei aquilo muito estranho. Diego, ele é que escolheu as cataratas! Por mim, tinha ido para Cancún… ao menos, tem água que dá para mergulhar, não é como aquilo, só água cheia de violência, um barulho infernal, uma pessoa fica toda molhada. Sim, é bonito. Mas não justifica a viagem. De qualquer maneira, o Mário quis ir LOGO para Toronto. Ora, a Rita não é parva, não é? Se fosses tu, não desconfiavas” – eu disse que sim, pois… - “claro, a coisa era estranha. Quando fomos ao hotel, ele foi à casa-de-banho arranjar-se e eu apanhei-lhe o iPhone. Pensava que eu andava aqui a dormir, não? Às vezes parece que não me conhece. Entrei-lhe no Facebook. E vi a troca de mensagens com aquela vaca – ai que descarada, que puta, pá! Que nojo…” Ela estava a ir bem. Fui buscar mais cerveja. Tinha muitas no frigorífico. Para minha surpresa, a história estava a agradar-me. Era melhor do que a da Fang Fang. Não era tão bem escrita, mas tinha graça e prometia coisas boas lá mais para a frente. Quando voltei, acendia ela outro cigarro. Mas, agora, fumava com um ar plácido, sem tensão. Diria mesmo com gosto. Eu acendi um também. Por solidariedade. E porque me apetecia. “Queres pipocas?” disse eu, mas ela recusou com a mão. Ou eu já tinha bebido demais, ou ela estava com uma pose diferente daquela encolhida e meio magoada com que começara o nosso serão. Agora, parecia uma mulher segura. Praticamente atraente. “Sabes o que lhe dizia essa galdéria, sabes Diego? Dizia assim, só que em inglês, «não imaginas o quanto me excita toda a imoralidade desta nossa brincadeira…» - nem quis ler mais.”&lt;br /&gt;Estava calor e convidei a Rita para irmos à varanda, ver o rio, fumar um cigarro. Pareceu-me que ela gostou da ideia. A história dela e do Mário e da Rebecca tinha qualquer coisa que me agradava. Por um lado, surpreendia-me que o Mário, o Mário que era uma pessoa séria, se metesse em aventuras destas. Por outro, achava a personagem de Rebecca a personificação da sacanice feminina e isso atraía-me, desde logo. “E o que é que fizeste?” A Rita contemplava a rua, serenamente. “Não disse nada, deixei-me ir… Metemo-nos no carro a caminho de Toronto, como ele queria. Pensei que pudesse confrontá-los, mudar o rumo das coisas, alterar a situação… partir a tromba àquela vaca desavergonhada… castrar o meu namorado – riu-se muito quando disse isto e eu ri também, foi espirituosa – ele bem que o merecia… Mas não, não me deram tempo. A caminho, parámos num desses american diners de beira de estrada, cheios de camionistas e a cheirar a bacon e ovos estrelados. Fui à casa-de-banho e, quando voltei, a mesa estava a vazia… Deixou-me a mala de viagem e a minha mala de mão…” Ela sorriu quando disse isto mas com tanta tristeza que lhe caíram lágrimas. Até a noite ficou amarga. Eu bebi cerveja. Ela bebeu cerveja. Fumávamos e calávamo-nos. E então eu disse “vê as coisas pelo lado positivo: a esta hora está ela a tirar fotografias com a Minnie... coitada”. Acho que ela riu e limpou as lágrimas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3061851994978798459?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3061851994978798459/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3061851994978798459&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3061851994978798459'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3061851994978798459'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/05/niagara.html' title='Niagara'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-622188165419475534</id><published>2011-05-03T18:57:00.003+02:00</published><updated>2011-05-04T22:44:16.872+02:00</updated><title type='text'>Pimentos padrón</title><content type='html'>Tu sais à noite com a tua mulher. Vão jantar primeiro. Provavelmente, comida indiana. A seguir, então, vão sair um pouco. Encontram amigos, bebem caipirinhas, mais tarde bebem cerveja. São apresentados a alguns amigos dos amigos. E tu mal te apercebes disso – não é coisa que te prenda a atenção.&lt;br /&gt;Chegam a casa, tu e a tua mulher, e ela diz-te “aquela Ana Filipa é muito bonita, vistosa…” Fazes um esforço para perceber quem é a Ana Filipa e a que propósito se fala dela. Não obténs resultados. A tua busca cerebral é em vão. Desistes e assumes “não faço a mais pálida ideia de quem seja a Ana Filipa”. Bebeste vinho ao jantar; bebeste whiskey a acompanhar o café; bebeste duas caipirinhas; bebeste duas cervejas. “Tu também… nunca reparas em nada, nunca te lembras de ninguém”. Bebeste um copo de água antes de te deitares e de beijares o ombro da tua mulher.&lt;br /&gt;Dias mais tarde, vais com a tua mulher a uma festa em casa de uns amigos. Há gente que conheces, gente que não conheces e, muito provavelmente, gente que já nem te lembras que conheces. Sorris à tua mulher. Reparas em alguém lá ao fundo da sala. Uma mulher mais nova que tu num vestido leve e decotado. Reparas que tem curvas. E cabelo encaracolado. Ela vê-te. A tua mulher também te está a ver. Está a ver-vos aos dois. A outra mulher sorri-te e acena-te. Oh, ela conhece-te. Sorris de volta, tentas compreender e pensas “Aaaaahhhhhhh… Então ESTA é que é a Ana Filipa!... Jesus Cristíssimo!...” E sorris à tua mulher que está ao teu lado. Mas ela nem olha para ti. Ignora-te. Barras um pouco de paté na mini-tosta. Dás um gole no Martini. Dizes “aquela lá ao fundo é que é a Ana Filipa, não é? Já me recordo, sim… Sim, é, de facto, bonita.” A tua mulher finge que não te ouve. Está a comer um camarão e a beber. Preferiu vinho verde. Olhas de novo para Ana Filipa. Sentes angústia. Há qualquer coisa de injusto nestas situações.&lt;br /&gt;A caminho de casa, a tua mulher faz o resumo e o balanço da noite. Tu estás concentrado num fio de um pimento padrón que ainda tens preso entre os molares. Dizes “sim, sim”. Ouve-la dizer, lá pelo meio, “ai, ela é tão convencida” e continuas a tua luta com o fio e dizes “a-ham”. E depois ouves “meu Deus, ela é tão bimba” e consegues finalmente tirar o fio de entre os dentes e dizes “pois, imagino”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-622188165419475534?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/622188165419475534/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=622188165419475534&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/622188165419475534'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/622188165419475534'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/05/pimentos-padron.html' title='Pimentos padrón'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8722342578932335501</id><published>2011-05-02T22:09:00.003+02:00</published><updated>2011-05-02T23:20:06.889+02:00</updated><title type='text'>Com um Bic encarnado</title><content type='html'>Espetei a pá na terra endurecida. Uma terra amarela com uns tons avermelhados, às vezes. Só queria aproveitar aquele sossego. Guardá-lo num frasco e esperar que tudo ficasse assim calmo.&lt;br /&gt;A tarde já não estava para durar. O sol já não era forte, descia com toda a sua tradição. Era um gesto vulgar, o do sol. Uma coisa já banalizada. Enterrava-se nos cabeços a Ocidente. Sem surpresas. Sem pressa nem vagar.&lt;br /&gt;Na geleira, no porta-bagagens, ainda havia cerveja. Tirei uma. Saquei a carica com o isqueiro. Aos anos que eu não sacava caricas com um isqueiro. Era um Bic encarnado, com que acendi o cigarro, a seguir.&lt;br /&gt;Aquela cerveja e aquele cigarro, o sol e a terra dura, entre o dourado e a cor do sangue. Ena, lá estava eu a pensar como se fosse um poeta, caramba. Eu sozinho ali, a fazer listas e balanços na minha cabeça. Havia ervas, tufos raros e espaçados. O chão era mais poeta do que eu. Uns arbustos ao calhas. Uma estrada nacional sem gente, sem carros. Sem bichos. Não havia vento. Às vezes vinham brisas tão ao calhas quanto os arbustos. Não havia pássaros. Nada acontecia se eu ficasse quieto. Se o meu coração parasse, aquele sítio saía numa polaroid quadrada. Tirada por Deus. Ou por ninguém. Uma polaroid espontânea. Cósmica.&lt;br /&gt;O meu coração podia parar. Há momentos que eu gostava de fotografar com violência e alma e aquele era um desses momentos. Fotografava e depois revelava-o com um líquido metafísico. Gostava de ficar com esses momentos na cabeça como tatuagens com cheiros e sons, palpáveis ao pensamento. Queria fabricar memórias com a respiração. Guardar aqueles bafos de fumo e goles de cerveja e fazer com eles uma estátua à existência, sempre ao pôr-do-sol, uma coisa assim infinita. No meio do nada. Com contornos duros.&lt;br /&gt;Há momentos que eu gostava de fotografar com gelo, com a respiração e com os olhos. Mas os olhos não guardam nada. São só berlindes com mira telescópica. A vida passa-lhes à frente e eles não memorizam coisa nenhuma. O meu armazém das coisas sempre foi mais o estômago.&lt;br /&gt;Ali estava eu, a pensar na vida. Todo cheio de lirismos e existencialismos. Que é da vida se não pensamos nela, não é? Só existimos quando damos por isso. E esta ideia nem sequer é minha.&lt;br /&gt;Pensava na vida e pensava na morte. A circunstância era adequada. Nunca fui pessoa de andar a matar. Mas fossem bichos ou fossem pessoas. Fossem traças ou escaravelhos. Quando era puto, ainda matava umas formigas, umas moscas. Mas depois fiquei pacífico e já nem queria saber disso. Nem quero.&lt;br /&gt;Abri mais uma cerveja. Acendi mais um cigarro. Apeteceu-me ouvir música, mas não tinha como. Imaginei o &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=TPaSW0JNKbA"&gt;&lt;em&gt;I Can't See You&lt;/em&gt;&lt;/a&gt; do Tim Buckley. Não. Era um tema demasiado nervoso. O momento era mais de sossego e de retiro. Foi então que a minha memória sugeriu, sem eu ter feito nada, o &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=u_ColANWa9o"&gt;&lt;em&gt;Strange Feelin'&lt;/em&gt;&lt;/a&gt; e eu fiquei feliz porque a minha memória ainda me compreendia. Era uma amiga fiel. Tal como o Bic encarnado.&lt;br /&gt;E ali estava eu, numa espécie de deserto, à beira de nada e com nada fundamental nas mãos. A apologia do vaizo. A elegia da minha existência. Nem um grilo como testemunha e o sol a pôr-se.&lt;br /&gt;E ali estava ela. Completa, acabada e cada vez menos morna. Cada vez mais morta a cada minuto. Olhei para a terra remexida e sem sinais. Não lhe pus uma cruz na campa. Não pus coisa nenhuma naquela campa. Só o meu suor. Fui eu que abri aquele buraco. E fui eu quem o cobriu de terra. E ao pensar nisto lembrei-me d' &lt;em&gt;A Morte de Ivan Ilitch&lt;/em&gt;. Nem sei porquê. São coisas que nos vêm à cabeça, é morte e a gente associa. Morte é morte. Podia ter sido a &lt;em&gt;Morte em Veneza&lt;/em&gt;. Mas prefiro Tolstói.&lt;br /&gt;Ela não agonizou como Ilitch. Tomou comprimidos e mandou-me uma mensagem a pedir que a fosse buscar. Deixou a porta entreaberta. A das traseiras, que dá para a cozinha. Quando cheguei, estava no sofá, sentada, a cabeça pendida para trás. Sem pulsação. Olhos e boca muito abertos. Tinha vestidos uns calções de futebol. Da AS Roma. E uma t-shirt das tintas CIN. Não tinha soutien. Notava-se.&lt;br /&gt;Não a enrolei num lençol. Não lhe fiz mortalha. Nem chinelos lhe enfiei nos pés. Peguei nela assim, como estava, e pu-la no carro. Como se fôssemos embora. Passear, outra vez. Ver o caminho, apanhar sol. Ver o mar do Sul. Mas não fomos. Levei-a para lá, para o tal deserto da polaroid. E deitei-a numa cova feita por mim. É isso.&lt;br /&gt;A verdade é que sempre sonhei enterrar alguém no deserto. A beber cervejas e a fumar cigarros ao pôr do sol. E depois ir-me embora a conduzir com as janelas abertas e a pensar em coisas fúteis. E a ouvir coisas estranhas na rádio. Relatos de futebol de clubes desconhecidos das divisões distritais. Coisas assim.&lt;br /&gt;Abri mais uma cerveja. Fechei a bagageira. Já não havia sol, só aquela coisa ruborescente no céu, de um lado, e o azul escuro do outro lado do mesmo céu. Acendi outro cigarro e sentei-me ao volante. O carro não tinha rádio. Era um carro velho, à minha medida. Arranquei. E pensei "havemos de repetir".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8722342578932335501?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8722342578932335501/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8722342578932335501&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8722342578932335501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8722342578932335501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/05/com-um-bic-encarnado.html' title='Com um Bic encarnado'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8198937014141573681</id><published>2011-04-20T17:42:00.003+02:00</published><updated>2011-04-22T16:02:25.199+02:00</updated><title type='text'>A trovoada</title><content type='html'>Um dia, o gajo, aquele tipo das fotografias detrás do balcão, de quem falei, decidiu voltar. Ele não tinha vergonha. Não espantou que voltasse. Na altura, eu tinha decidido acalmar. Arranjei namorada. Chamava-se Maria e não era pelo nome que se distinguia. Ela era linda. Era morena, tinha mesmo ar de menina e uns olhos belíssimos que ficavam à sombra das pestanas mais longas que já vi.&lt;br /&gt;Um amigo disse-me “o Raul é o tipo de gajo que tu não queres que a tua mulher conheça”. Bom, eu fiquei curioso com isso. Porquê? “Ainda por cima, a Maria…” Dessa vez não perguntei o porquê.&lt;br /&gt;Eu era uma pessoa segura de mim. E não tinha problemas com isso de o Raul andar de novo na zona. Por mais lendário que fosse, ele e os seus retratos e as suas dívidas. Nos retratos, nem parecia assim tão bonito. Era um homem normal, achava eu.&lt;br /&gt;Estávamos numa espécie de festa, em casa de alguém. A casa tinha vista para o rio. Chovia torrencialmente e trovejava muito. Era uma tempestade imponente. Mas estava calor, um calor muito abafado, muito húmido. Diria que estavam mais de 30 graus. Éramos uns quantos e o dia tentava a custo clarear. Mas o céu estava tão negro que era difícil perceber se amanhecia ou não. Mas deviam ser umas sete da manhã. Era de sexta para sábado, acho eu. Na altura, éramos novos. Se calhar foi durante a semana, de segunda para terça ou de terça para quarta. Não nos fazia diferença. O tempo existia, fosse dia ou fosse noite, para desfrutarmos dele. E desfrutávamos. Não nos custava muito. Na pior das hipóteses, arrependiamo-nos de qualquer coisa dois ou três dias depois, quando voltássemos a estar sóbrios. Eu estava com a Maria e havia mais pessoas. Talvez vinte, talvez menos. E chegou o Raul e um amigo nosso. E eu finalmente conhecia o Raul, em pessoa. Um tipo magro, mas elegante. Não muito alto. De cabelo escuro, curto, despenteado. Ele era todo despreocupação. Tinha uma maneira desarrumada de estar bem vestido. Por momentos, quis ser como ele e logo a seguir pensei “não, pôrra, então? Não vaciles, pá”. Mas ele tinha pinta. Barba de três ou quatro dias e camisa de mangas arregaçadas, casaco ao ombro. Vi a Maria a olhar para ele. Vi-o a olhar para a Maria. Lembro-me que senti ciúmes.&lt;br /&gt;A chuva não parava e a trovoada também não. Enquanto eu olhava os relâmpagos sobre o Tejo, o Raul ajudava a Maria a escolher a próxima música numa sessão de YouDJ. Toda a gente já tinha bebido muito, incluindo eu. Alguns tinham fumado erva. Eu não. O Raul tinha feito de tudo. Até tinha trazido coca e tinha partilhado. A Maria não tocou em nada e isso deixou-me aliviado ou até contente. Não estávamos juntos há muito tempo, era coisa de duas ou três semanas. Não lhe conhecia bem os hábitos e os gostos. Sossegou-me que não se tivesse deixado seduzir pelo montinho de pó em cima da mesa de vidro. Mas, entretanto, de copo na mão, encantava um Raul absorto que lhe observava as pequenas tranças. Ficava com um ar de princesa da Disney quando as prendia assim, na parte de trás da cabeça. Ela era tão bonita.&lt;br /&gt;As bebidas iam terminando e as pessoas iam-se cansando ou desesperando por mais. O dia conseguia, finalmente, clarear um pouco o negrume do céu. Mas a chuva continuava, sempre forte e intensa. E os trovões e os relâmpagos. Era Raul quem agora escolhia as músicas. O gosto dele não era grande coisa. Pouco coerente, pouco criterioso. Demasiado óbvio em certas escolhas. Quando terminou a bebida, disse “malta e se fôssemos amanhecer para a praia?”. Ele falava assim. Iríamos “amanhecer” para a praia. Não iríamos para a praia ser estúpidos e apanhar uma molha gigantesca, podres de bêbados. Ele era um poeta. Tinha trinta e tal anos e fazia poesia de balcão. Irritava-me. Amanhecer para a praia…&lt;br /&gt;Mas as pessoas gostaram da sugestão. Algumas, pelo menos. Uma delas foi a Maria. “Vamos” disse ela. E pôs-se ao lado do Raul. Eu não disse nada. Houve mais umas oito pessoas que disseram que sim, ‘bora. Mas só vieram mais duas. E aí fomos nós, colina abaixo, apanhar o comboio para Carcavelos no Cais do Sodré. Tudo porque o Raul queria ir amanhecer para a praia. Obviamente, amuei. A Maria notou. Passou-me a mão pela cabeça como quem diz “oh pá, eu sei que isto te aborrece, mas está a ser tão fixe” e eu irritei-me mais um pouco. Desviei os olhos e apeteceu-me chamar-lhe puta de merda e virar as costas, ir-me embora. Mas não, disse só “oh, deixa-me”. E pensei “cadela, se eu não gostasse de ti…”&lt;br /&gt;Raul dominava o mundo naquela carruagem onde só nós existíamos. Mas dominava ainda mais Maria que o absorvia com os olhos cansados mas atentos. Ele contava histórias dos tempos em que tinha estado fora. Tinha ido para Londres e para Budapeste. E eu pensei se nos pubs londrinos também haveria retratos seus atrás do balcão. Tinha estado duas semanas na Grécia, onde foi preso – por engano e, por isso, logo libertado. “Pisguei-me de lá assim que saí, eles são malucos e metem é iogurte em tudo”. Ele conhecia a Grécia como a palma da minha mão.&lt;br /&gt;Chegámos a Carcavelos. A chuva abrandou um pouco mas a trovoada não. Até parecia mais forte e mais intensa. “E se fôssemos ao banho? ‘Bora lá, não sejam mariquinhas”. A Maria disse “não trouxe biquíni” e riu-se. Ele sorriu “oh, estamos em família… eu vou todo nu”. Maria olhou para mim. Eu encolhi os ombros. Era-me indiferente, por mais que me magoasse. Ela deixou-se ficar “não… deve estar fria”. Raul suspendeu o sorriso. Depois, despiu-se todo e correu para o mar. Atirou-se e, quando veio ao de cima, gritou “wu-huuuu está tão boa! Seus mariconços, andem lá!” e então caiu um raio no mar e o Raul desapareceu por uns momentos. E depois apareceu mas a boiar, inerte. A Maria correu direita à água aos gritos “Raul! Estás bem, Raul?” e eu peguei no meu casaco e voltei para a estação de comboios.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8198937014141573681?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8198937014141573681/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8198937014141573681&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8198937014141573681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8198937014141573681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/04/trovoada.html' title='A trovoada'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3204432490464320185</id><published>2011-04-19T18:37:00.001+02:00</published><updated>2011-04-19T18:41:16.234+02:00</updated><title type='text'>Mitos e lendas do meu bairro</title><content type='html'>Se o karma existe mesmo, a próxima vida deste tipo vai ser penosa, longa e sem esperança. Todas as tascas do bairro, que não eram poucas, exibiam a fotografia do homem. O mesmo retrato atrás de todos os balcões. Cheguei a pensar que fosse alguma espécie de santo ou mártir da zona. Mas não. Ele era a lenda. E tinha um dom. Ou mais que um. Tinha vários dons. Mas falava bem, esse era o seu principal talento. E era charmoso. E era descarado. E tinha tanta franqueza na sua enorme lata que se tornava difícil resistir-lhe, dizer-lhe que não. Por isso, conquistou facilmente o direito à fotografia atrás dos balcões, ao lado dos letreiros das “bebidas expostas” que “são para consumo no estabelecimento”. Ele tinha conta em vários sítios. Não estou a falar de umas poupanças na Caixa de Crédito e de uma conta ordenado no Montepio Geral. Estou a falar de bagaços anotados, aguardentes assentes, imperiais apontadas e uísques velhos rabiscados nas sebentas de todos os cafés, bares e prostíbulos numa área de seis quarteirões. Diz o povo que, tudo somado, dava para cima de seis mil euros. Não sei se é verdade ou exagero. Sei que os retratos ainda lá estão pendurados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3204432490464320185?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3204432490464320185/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3204432490464320185&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3204432490464320185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3204432490464320185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/04/mitos-e-lendas-do-meu-bairro.html' title='Mitos e lendas do meu bairro'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8770727288105081085</id><published>2011-04-13T22:39:00.000+02:00</published><updated>2011-04-13T22:40:19.131+02:00</updated><title type='text'>Numa cama, numa casa qualquer</title><content type='html'>Levantou-se, cabelos desgrenhados, t-shirt amarrotada e suja, coçou-se, foi à cozinha e bebeu água. Pôs a cafeteira ao lume e sentiu o cheiro bom da manhã. Era Primavera, estava sol, era cedo. Começou a cheirar a café fresco, foi lavar os dentes. A barba de quatro dias pedia lâmina. Mas ele não tinha tempo. Abriu mais a janela da cozinha e sentiu uma brisa morna. O carteiro passou lá fora e deixou-lhe qualquer coisa na caixa. Fez torradas e serviu-se de café. Antes de se sentar foi à caixa do correio buscar o jornal diário e o que mais houvesse – contas, um aviso de corte de electricidade, publicidade a um supermercado, flyers de yoga, flyers de reiki, flyers de restaurantes indianos, flyers de restaurantes chineses, uma proposta da Cofidis e um envelope sem remetente. Começou pelos flyers de reiki.&lt;br /&gt;Acabou as torradas mas ainda tinha café para beber. Antes de se dedicar à leitura do jornal, olhou de novo o envelope. Trazia apenas o seu nome e a sua morada e um selo de remetente francês. Ficou intrigado mas não o suficiente para não se embrenhar primeiro na leitura da página desportiva. Leu-a quase toda e foi tomar um duche.&lt;br /&gt;Quando saiu do duche, ainda sem se enxugar, foi até à mesa da cozinha e pegou no envelope. Hesitou antes de abrir. A aura de mistério de um envelope sem remetente deu-lhe vontade de o manter assim, incógnito, desconhecido, misterioso, indecifrado. Abriu o envelope e tirou lá de dentro um pequeno pedaço de papel. Parecia ser um bocado de um toalhete de restaurante, rasgado à pressa. Manuscrito e nervoso, o texto dizia assim: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;A única imagem que guardo nossa é de ti a foder-me por trás, numa cama, numa casa qualquer. Não era a tua. E quando te vieste, deitaste-te cansado mas a sorrir. E eu acabei em cima de ti, a foder-te. Eu não queria parar. Foi a melhor noite de sexo que tive. Não consigo deixar de querer foder-te. E, se começar, não sei se vou querer parar&lt;/em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha uma pequena nódoa de vinho no canto inferior direito que manchava a palavra “querer”. Deixou o papel em cima da mesa-de-cabeceira, secou-se, vestiu-se, calçou-se. Não reconhecia a caligrafia. Não se lembrava de tal episódio. Não lhe ocorria qualquer ex-namorada ou affair que vivesse em França. Restava a possibilidade de alguma one night stand esquecida nos confins da memória. Porém, havia qualquer coisa na mensagem que sugeria sentimentos. E as one night stands não suscitam sentimentos, pensou.&lt;br /&gt;Era sexta-feira. Passou o dia a embrenhar-se na intrigante história de uma carta sem remetente com uma mensagem enigmática. Questionou-se várias vezes sobre quem poderia ser essa ninfomaníaca carregadinha de desejos. O pensamento excitou-o. Excitou-o muito. Percorreu, de memória, todo o seu arquivo de mulheres. Não tinham sido assim tantas. Pelas suas contas, catorze, no total. Sem contar com putas – apenas mulheres sem cachet. Agora, mais velho, solteiro, sem namorada, por vezes sentia necessidades. E a masturbação não satisfaz tudo. Às vezes é preciso um corpo, um contorno. Um olhar, um odor, uma respiração ofegante para além da sua própria.&lt;br /&gt;Teve pressa de chegar a casa e nem sentiu fome. Fechou-se na casa de banho. Excitado como estava com toda esta ideia, não demorou muito até suspirar de prazer. Imaginou a autora da carta a escrevê-la numa esplanada parisiense, ao sol, com um vestido leve, decotado, as pernas cruzadas de maneira insinuante. Lisas, bronzeadas, apetitosas. Imaginava-a de baton vermelho vivo e cabelos castanhos levemente ondulados, macios e pesados caindo-lhe pelos ombros bem desenhados, um deles descoberto revelando uma alça de soutien. Imaginava-a chamando-se Sara ou Luísa ou Inês ou Isabel escrevendo naquele canto de toalhete à pressa enquanto um namorado qualquer chamado Jean Piérre foi lavar as mãos. E ela, vendo-o levantar-se, lembrou-se dessa noite gloriosa de que ele, agora, não tinha a menor recordação. E então imaginou também essa noite com uma qualquer Sónia ou Patrícia, numa casa que não era sua, numa cama que não era sua, a ser praticamente abusado por uma mulher ciosa, quase indecente, ávida, cheia de apetite e de energia. E imaginava-se a si mesmo sorrindo entre as pernas desse corpo licencioso e moreno, rodeado por coxas sedosas, envolto no aroma da carne e dos prazeres que a carne dá.&lt;br /&gt;Imaginando tudo, voltou à casa de banho e voltou a não se demorar. Continuava sem sentir fome e relia insistentemente o bilhete. “Eu não queria parar” essa frase excitava-o como nenhuma outra até então. “E eu acabei em cima de ti, a foder-te”. Terceira vez. Demorou um pouco mais. Acabou por deitar-se, cansado. Não jantou e adormeceu.&lt;br /&gt;No dia seguinte levantou-se tarde. Sentiu-se dorido. Passou o dia em casa. O bilhete ocupava todos os seus pensamentos. E essa mulher que não deixou memória não lhe deu tréguas à imaginação. E essa noite esquecida não deixou em paz o seu corpo que, sempre excitado, se foi consumindo e espremendo em gestos cada vez mais maquinais. Não saiu de casa durante todo o fim-de-semana. Não chegou sequer a vestir-se, a barbear-se ou a tomar banho. Bebeu café e Coca-Cola. Comeu pizzas que mandou vir. Estava obcecado.&lt;br /&gt;Segunda-feira amanheceu cruel e nublada. O cansaço e as dores no corpo tornaram o seu despertar particularmente penoso. Foi á casa de banho. Tentou mijar e doeu-lhe muito. Parecia entupido. O carteiro passou e deixou-lhe coisas. Não lavou as mãos, sequer. Saltou porta fora e revolveu a caixa de correio. Não quis saber do jornal ou dos flyers do reiki. Procurou um envelope sem remetente. E encontrou.&lt;br /&gt;Sem jeito, rasgou a abertura e um pouco do papel. Desta vez era papel de carta e a letra não era apressada. A mensagem era curta. Dizia só assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Aposto que já bateste umas vinte à custa da outra carta, meu tarado do caralho. Deixa-te disso, palerma, estava no gozo contigo. Só queria avisar que chego quarta-feira. Dá para ficar em tua casa até ao fim-de-semana? Grande abraço, João&lt;/em&gt;”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8770727288105081085?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8770727288105081085/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8770727288105081085&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8770727288105081085'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8770727288105081085'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/04/numa-cama-numa-casa-qualquer.html' title='Numa cama, numa casa qualquer'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3938148641365878367</id><published>2011-04-13T19:36:00.002+02:00</published><updated>2011-04-13T19:40:51.354+02:00</updated><title type='text'>Tenho de ir a Trás-os-Montes, que ainda não conheço</title><content type='html'>Estávamos a beber uma cerveja na rua. As noites de calor não dão vontade de ir para a cama. A cerveja sabe melhor. Conversávamos. &lt;br /&gt;Já não somos miúdos. Já não temos, sequer, vinte anos. Olhamos para as coisas sem esperar novidades. Há pouco no mundo para nos deslumbrar. A merda da maturidade e da consciência tiram a piada a tudo. Fumar um cigarro deixa de ser um prazer. Controlar os cigarros passa a ser uma preocupação. Deitar tarde continua a ser bom, mas pesa-nos na consciência. E no corpo, que anteontem era de borracha, à prova de noite, e que agora exige descanso. Tenho um despertador e ligo-lhe mesmo, dou-lhe importância. Odeio o sentido de responsabilidade, aborrece-me. E agora, transgredir soa sempre a pecado. E eu não sou um pecador, foda-se!, sou só um gajo normal!&lt;br /&gt;Tenho trinta e um anos – trinta e um anos, pá! – e ando aqui nisto, com horários e regras e contas para pagar e prazos para cumprir e a fazer planos, trabalho há treze anos, foda-se. Tenho trinta e um anos e olho para trás, não consigo contar os dias mas era capaz de jurar que ainda a semana passada tinha vinte e dois. Os meus três anos na escola secundária tiveram mais dias do que a década de 2000, era capaz de apostar o mindinho da mão direita. Renderam-me mais as férias da Páscoa de 1989 do que a Primavera de 2006 – da qual não guardo qualquer memória, acho eu, elas parecem-me todas iguais, a mesma Primavera a repetir-se, indistinta, desde 2001, mais ou menos.&lt;br /&gt;Passaram trinta e um anos desde que nasci e o que é que eu andei aqui a fazer? Sim, bebemos umas cervejas à noite. Jantámos bem, experimentámos bons vinhos. Às vezes passeámos, mergulhámos nas águas tépidas do Algarve. Há uma altura ou outra em que um gajo é extravagante e vai passear para as montanhas, encher os pulmões. Ver os pássaros e não sei quê. Javalis. Tomar banho em riachos gelados. Comer coisas rústicas e ouvir só aqueles ruídos do mato a que as pessoas urbanizadas chamam “silêncio”, mas é silêncio a pôrra é que é silêncio – o silêncio não se ouve. Os grilos a fazer barulho é silêncio, por acaso?&lt;br /&gt;Tenho trinta e um anos e nunca bronzeei este corpinho em Copacabana. Nunca fiz o reveillon em Times Square. Nunca caminhei em Novosibirsk pelas margens do Ob. Não tirei a carta, não fiz filhos. Acho que nem plantei árvores e escrevo coisas mas duvido que sejam livros. Sim, andámos por aí a fazer música, a dar concertos. A ver jogos de bola e pores do sol em sítios bonitos. A falar com pessoas.&lt;br /&gt;Não estou a dizer que esta vida é uma merda e que é tudo infelicidade e que está tudo por conseguir e por fazer. Eu estou a dizer que tenho trinta e um anos e que não sei como isto foi acontecer, esta treta de um gajo dar por si e pumba, olha os vintes já se foram. Não me estou a lamentar. A culpa é da conversa de ontem á noite. A culpa é do calor. A culpa é da cerveja à porta do Manel.&lt;br /&gt;Tenho trinta e um anos e dezoito deles foram passados em carruagens e estações de metro. Outros vinte e cinco foi a ver séries na televisão. Dormi sete ou oito. Trabalhei pelo menos quarenta e nove. Ando a gerir mal o meu tempo. Depois parece que uma pessoa não fez nada. Eu queria ter feito interrails quando tinha vinte e um anos, mas quando me lembrei disso já tinha vinte e nove. E queria ter sido um prodígio do rock aos dezanove, mas tinha vinte e cinco quando formei a banda. Queria ter ido ao Egipto aos vinte e sete mas tive medo e não tinha dinheiro. Resta-me a parte dos livros. Para os livros podemos ser velhos, não tem problema. E dos filhos. Ainda tenho tempo para isso. Mas não me posso descuidar com as horas. Tenho trinta e um anos e nunca fui à Austrália nem à África do Sul nem à Suécia. A Paris não quero ir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3938148641365878367?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3938148641365878367/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3938148641365878367&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3938148641365878367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3938148641365878367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/04/tenho-de-ir-tras-os-montes-que-ainda.html' title='Tenho de ir a Trás-os-Montes, que ainda não conheço'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-1205833756978000821</id><published>2011-04-12T21:25:00.001+02:00</published><updated>2011-04-12T21:25:17.440+02:00</updated><title type='text'>Cogumelos!</title><content type='html'>Eles iam a descer a rua e discutiam muito. Dois homens e uma mulher. Ela tinha uma garrafa de plástico na mão. Uma garrafa de Coca-Cola. Mas ia cheia de vinho branco ou de qualquer coisa parecida. Estavam bêbados. Um dos homens acusava o outro de lhe ter roubado uma das sardinhas. Tinham parado num arraial e comeram sardinhas no pão. O mais pequeno acusava “era a última… e tu é que a comeste!” e o mais encorpado só dizia “cala-te, ‘tás bêbado…” e era um facto, ele estava bêbado. Estavam os dois.&lt;br /&gt;Estava uma noite quente e a mulher bebia pelo gargalo. Ela tinha muito mau aspecto. Tinha uma cara estragada. As feições enfiavam-se pelo rosto adentro e sugavam-lhe os contornos originais. Os lábios eram finos e tinham feridas. Vestia pouca roupa, andrajos sem critério, um conjunto inestético de sobras. A noite estava mesmo quente. E ela disse “foda-se, parem com isso” e deu mais um gole na bebida.&lt;br /&gt;Eu desci as escadas. Vim deixar o saco do lixo na rua. Eles ainda caminhavam, trôpegos e lentos. Barulhentos. Estavam à minha frente, a poucos passos de distância. Olhei-os e eles viram-me. Acalmaram-se um pouco. Julgo que tentavam focar-me, descobrir-me a silhueta, definir mentalmente as minhas formas e dimensões. “Quem são estes?” disse o mais corpulento. Entrei no prédio e fechei a porta atrás de mim.&lt;br /&gt;Fui para a varanda e acendi um cigarro. Eles estavam lá em baixo. Ainda estavam a processar a informação relativa à minha presença no mundo - o momento em que o acaso me fez cruzar com o seu grupo desordenado. O mais pequeno avançou em direcção ao meu saco do lixo. Deu-lhe um pontapé. O saco rebentou. Havia lixo espalhado pela calçada – ossos de costeletas, pacotes de natas, restos de salada de tomate, restos de arroz, latas de atum e de cogumelos. A mulher disse “esse filho da puta não faz reciclagem”. Havia também espinhas e cabeças de sardinhas. O maior disse “podes comer essas ah ah ah” deu uma grande gargalhada, mas sem gosto. Penso que só tentava provocar o mais pequeno. E depois acrescentou “também era reciclagem” e então riu-se de novo, agora com prazer. E a mulher riu-se também. Tinha poucos dentes. E estava a fumar. O mais pequeno não riu e pediu um cigarro à mulher “dá-me um cigarro” e ela “foda-se, só me chulas” e o maior disse “paneleiro de merda”.&lt;br /&gt;Continuei a fumar o meu cigarro. Agora o grupo analisava o meu lixo. Cambaleavam trazendo pequenos pedaços, pequenos dejectos até à luz do candeeiro de rua. Observavam com minúcia guardanapos usados, um copo partido, uma embalagem de manteiga Mimosa, pacotes de gelatina, duas cebolas podres. “C’stina…” disse o maior. “ó C’stina, porra… tu só dizes caralhadas a toda a hora… nem pareces uma gaja” e continuou a remexer. Abria com as mãos carcaças rijas, pão com cinco dias, à procura de qualquer coisa surpreendente. “Vai-te foder, meu cabrão de merda” disse Cristina. “Isso é mentira”. E era, até ao momento. O mais pequeno perguntou alto “o que é isto?” e ergueu o objecto amarfanhado para a luz. Era uma prata de chocolate. Cheirou. Lambeu. “É chocolate” concluiu.&lt;br /&gt;Um deles olhou então para cima. Viu-me. Processou a informação com toda a paciência. E eu fumava com calma. “Dá-me um cigarro” disse. E eu não respondi. “Paneleiro de merda… mete os cigarros no cu!”. Atirei-lhe com a beata ainda acesa “foda-se!” gritou enquanto tentava desviar-se. Acertei na mulher. Cristina não deu por nada. Esgravatava o lixo e encontrou uma lata de cogumelos com dois ou três pequenos cogumelos laminados lá dentro e disse “olha cogumelos” e o seu cabelo começou a arder. O maior olhou-a e começou a rir. O mais pequeno tentava indignar-se comigo. Focava-me fechando um dos olhos “eu sei quem tu és, cabrão de merda… eu apanho-te” e Cristina ardia. Eu disse “cala essa boca, vai dormir” e fechei a janela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-1205833756978000821?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/1205833756978000821/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=1205833756978000821&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/1205833756978000821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/1205833756978000821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/04/cogumelos.html' title='Cogumelos!'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-5117941647110819335</id><published>2011-03-04T18:13:00.004+01:00</published><updated>2011-04-15T18:43:19.525+02:00</updated><title type='text'>O meu amigo Neil</title><content type='html'>Chegamos a certa altura da noite, depois de horas a fio a falar de música, após vários copos de vinho tinto, umas quantas minis e saladinhas de polvo e tostas de atum, a conversa resvala invariavelmente para um tema: a minha relação com a música do Neil Young. A mesa grande da Bela leva cerca de muitas pessoas, dependendo da hora a que chegamos e de quem está comigo. Mas é para cima de seis ou de oito e às vezes mais. E toda a gente gosta sempre do Neil Young e toda a gente o respeita imenso. E eu, na minha inocência, uma vez tive a ideia infeliz e descuidada de dizer que “não tenho pachorra para esse gajo” e originei uma espécie de motim. A minha cruz é, desde então, ser o alvo de toda a mesa sempre que as pessoas deixam de ter memória das conversas que já tivemos e a raiva lhes vem de novo ao de cima.&lt;br /&gt;Portanto, e uma vez mais, lá estava eu, no centro de todos os ódios.&lt;br /&gt;-Mas que porra, qual é o mal de eu não gostar do que o homem faz? É assim tão importante? Ele nem sabe que eu existo! Ele tem milhões de outros fãs…&lt;br /&gt;-Mas tu sabes distinguir o Neil Young do Neil Diamond? Ah ah ah… - e riam todos; eles não se lembravam, dada a hora da noite, mas essa piada já tinha sido feita de todas as vezes anteriores.&lt;br /&gt;-Vai-te foder…&lt;br /&gt;-O Diego não sabe … Nem sabe que o gajo era guitarrista de Buffalo Springfield…&lt;br /&gt;-Aqui vamos nós… .l. Vocês são do caralho, pá. Acho o gajo chato, meu. Deslarguem-me da braguilha!&lt;br /&gt;-Pá e no Harvest, pá? E no Harvest? Só conheces o gajo desde os Pearl Jam… Vai ouvir o Harvest, totó…&lt;br /&gt;-Read my lips: .l.&lt;br /&gt;-‘Tão e sabes de onde é que vem a Sweet Home Alabama, dos Lynyrd Skynyrd? Ah, pois é… não sabes, boy, não sabes…&lt;br /&gt;-Já me contaste isso pelo menos dez vezes…&lt;br /&gt;A conversa continuava. Eles bombardeavam-me, provocavam-me; eu bebia minis, comia batatas fritas Saloinha e distribuía piretes de modo mais ou menos aleatório. Já não lhes levo a mal. Até sorrio e acho graça. São como crianças musicais e eu sou o seu brinquedo preferido.&lt;br /&gt;O Francisco entrou com o seu longo sobretudo e um sorriso ainda mais longo. Notava-se que estava feliz e em pulgas por qualquer motivo. Por trás dele, um homem de camisa aos quadrados, calças de ganga e chapéu de cowboy. Patilhas longas. Cabelos grisalhos, quase pelos ombros. De rosto, uma mistura entre David Carradine e Billy Bob Thorton. Mas em feio.&lt;br /&gt;O Francisco aproximou-se da mesa e fez sinal ao tipo.&lt;br /&gt;-Neil, come here please. There’s someone I’d like you to meet.&lt;br /&gt;O homem chegou-se. Fez-se silêncio. Pousei a minha cerveja e levantei ligeiramente o sobrolho.&lt;br /&gt;-Só podes ‘tar a gozar…&lt;br /&gt;-Neil, this is the people… and that one over there is Diego, the guy I told you about.&lt;br /&gt;-Hy people! – e, olhando para mim, rindo e estendendo-me a mão, enquanto com a esquerda tirava o chapéu, como um cavalheiro perante uma senhora – And… hello Diego. It’s very nice to meet you.&lt;br /&gt;-Tu só podes ‘tar a gozar comigo, caralho! – isto, dizia eu ao Francisco, enquanto cumprimentava o velhote.&lt;br /&gt;Sentaram-se. Passámos a ser uns onze ou catorze à mesa. O Francisco chamou a Bela para pedir bebida.&lt;br /&gt;-What’chyou gonna have, Neil?&lt;br /&gt;-Ehrm… do you got some salsaparila?&lt;br /&gt;A Bela também levantou o sobrolho, interrogativa.&lt;br /&gt;-Pergunta se tem salsaparrilha – traduziu o Francisco.&lt;br /&gt;-Eu percebi! Só estou incrédula… ‘Tá a gozar?! We got wines, mister! Wine. And beer. Choose.&lt;br /&gt;-Oh… then arhhhm… I guess I’ll have a beer.&lt;br /&gt;-Sagres?&lt;br /&gt;-No… - olhou para mim e sorriu, com gozo – I’m from up North, you know. I’ll have a… Super Bock.&lt;br /&gt;Não me conformava. Não me conformava!&lt;br /&gt;-Mas que puta de ideia, Francisco… Mas que puta de i-d-e-i-a! Bela, traga-me mais uma, fáxavor. Daquelas minis das gordinhas, se ainda houver. Sagres, claro!&lt;br /&gt;-Eu sei, menino Diego, eu sei…&lt;br /&gt;E então ele virou-se para mim. Ia claramente dizer qualquer coisa. Mas, antes de falar, fez questão de me olhar bem nos olhos. Como se me estudasse. Como se me quisesse intimidar.&lt;br /&gt;-So… I heard you’re a musician too…&lt;br /&gt;-Ya.&lt;br /&gt;Riu-se. Eu continuei a comer o milho tostado e os amendoins salgados. Toda a gente estava calada. Toda a gente queria ouvir. Ele sorriu antes de recomeçar. Levou um amendoim à boca e continuou&lt;br /&gt;-So… and I heard you don’t like me…&lt;br /&gt;Olhei para o Francisco com alguma raiva. Olhei para os restantes. Todos sorriam como quem diz “bem feito!”.&lt;br /&gt;-How could I “not like you”?... I don’t even know you. Met three seconds ago.&lt;br /&gt;Ele sorriu de novo.&lt;br /&gt;-You don’t like my songs.&lt;br /&gt;-Well… you might say that. Though probably it’s a bit exaggerated… I just find them… you know… boring.&lt;br /&gt;-Oh… that’s a lot fuckin’ better… Thank you! Thank you, Diego…&lt;br /&gt;-I didn’t mean to offend you, ok? – interrompeu-me, brusco.&lt;br /&gt;-You ain’t much of a songwriter yourself, if I may say… Neither a singer. And you’re for sure a fuckin’ lousy guitar player – maybe you should practice in Guitar Hero.&lt;br /&gt;Disse isto e olhou para o Francisco e para todos os outros e toda a gente riu bastante. E eu olhei para ele e para todos os outros e não sabia o que havia de dizer.&lt;br /&gt;-Me it’s more about… it’s the lyrics, man. You should learn Portuguese. My thing is the lyrics. Better than yours, that’s for sure… You should write in Chinese, at least people wouldn’t understand it…&lt;br /&gt;Acho que neste ponto, quando acabei de dizer isto, houve quem parasse de respirar.&lt;br /&gt;-Aqui tem a Sagres, menino Diego. And your Super Bock.&lt;br /&gt;-Obrigado, Bela. Pessoal, está a ser um bocadinho muito bom. Mas vou até à Típica. A ver se o Paulo mete uns clássicos do rock. É o que me apetece ouvir.&lt;br /&gt;Já me levantava e vestia o casaco. Felizmente, as minis não têm retorno. Dão para levar para a rua. E diz ele para o Francisco&lt;br /&gt;-Where’s he going? What did he say?&lt;br /&gt;-He’s going up there to another bar… he wants to listen to some rock n’ roll classics.&lt;br /&gt;-Well, you little motherfucker… I’M a funckin’ rock n’ roll classic! ME! I’m here!&lt;br /&gt;E virou-se para o Márcio. Aparentemente, o Márcio também estava combinado. Tinha levado a guitarra. Passou-lha e ele já se preparava para tocar.&lt;br /&gt;-Também tu, Márcio?&lt;br /&gt;Confesso que me senti magoado. Todos contra mim; ninguém para me apoiar. Decidi sair na mesma. Eu estava visivelmente agastado, claro. Até porque toda a gente sorria. De alguma forma, todos se sentiam vitoriosos. Vingados.&lt;br /&gt;-I’m sorry, I’m not gonna listen to you…&lt;br /&gt;-Please, stay. I’d like you to stay.&lt;br /&gt;-I’m sorry, Mr. Young. I think we won’t manage to be friends, ever…&lt;br /&gt;-Oh, no Diego… I AAMMM sorry… I don’t want to be friends with you. And for sure I didn’t mean to upset you!&lt;br /&gt;E riu-se. E todos se riram. Riram com vontade. Senti-me gozado. Saí. Saí com pressa, como se fugisse. Nem paguei, pago depois. Pago logo, pago amanhã. Pago quando o Neil Young não estiver ali a assombrar-me. Acelerei o passo e subi a rua. Queria chegar à Típica o mais rapidamente possível. Quando estava a chegar, alguém gritou&lt;br /&gt;-Hey, Die-go! Hy… wait!&lt;br /&gt;Oh não. Era ele. E vinha em direcção a mim, num trote ligeiro, como quem tem alguma pressa. Parei e esperei por ele. Chegou e pôs-me a mão no ombro.&lt;br /&gt;-Look… we could be friends.&lt;br /&gt;-…&lt;br /&gt;-Seriously. I was just pretending back there. Eu até falo português, dude. Eles é que não sabem. Coitados… não lhes quis destruir a fantasia.&lt;br /&gt;Fiquei confuso. Ele continuou.&lt;br /&gt;-Look, eu forcei a tua saída… to tell you the truth, estou tão farto das minhas músicas como tu. Já não me posso ouvir, man! Really! Queria tudo menos ter de tocar outra vez that fuckin’ shit do rockin in a free world e outras que tais, dude. Eu só queria vir contigo. May I?&lt;br /&gt;-Well… sure. I guess.&lt;br /&gt;E fomos. Bebemos cervejas. Ele manteve-se fiel à Super Bock. E eu à Sagres. E conversámos. Conversámos muito. Ele é boa pessoa. Atento, bem-disposto, mordaz. Tem sentido de humor. À porta, enquanto fumávamos, disse&lt;br /&gt;-Still, I was telling the truth about you’re songs… you suck, dude.&lt;br /&gt;-It’s songs for the ladies, baby. You’re not a lady. Bitch…&lt;br /&gt;E rimos muito e brindámos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-5117941647110819335?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/5117941647110819335/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=5117941647110819335&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5117941647110819335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5117941647110819335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/03/o-meu-amigo-neil.html' title='O meu amigo Neil'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7241658464402603139</id><published>2011-03-01T18:27:00.002+01:00</published><updated>2011-03-01T18:37:31.708+01:00</updated><title type='text'>O cacto</title><content type='html'>O meu plano era francamente simples: chegado ao jardim de Santa Clara, sentava-me na relva, sacava da minha pá de jardineiro – na verdade, era uma pá de plástico que eu tinha comprado num bazar chinês, daquelas com que as crianças brincam na praia -, escavava um pouco, guardava a terra num saco plástico, enfiava o saco na mochila, metia a mochila às costas; a seguir, pegava em mim e bebia um café no quiosque e depois seguia a minha vida, regressando a casa. Sem dar nas vistas.&lt;br /&gt;A simplicidade de certos planos é absolutamente subestimada por determinadas pessoas. Nomeadamente, pessoas agentes da autoridade. Uma dessas pessoas aproximou-se de mim enquanto eu, pueril, escavava com esforço o meu buraquinho para de lá extrair uns míseros 300 ou 400 gramas de húmus, terra fértil constantemente presenteada pelos cães da vizinhança e pelas folhas que caem das árvores em certas estações do ano, às vezes. Cheirava a xixi. “Bom dia” e eu ergui, surpreendido, o olhar e respondi “bom dia” com humildade e sem qualquer intenção “o que é que o senhor pensa que está a fazer?”. Parei de escavar. Na verdade, fui apanhado de surpresa. Hesitei um pouco “estava aqui a tirar um bocadinho de terra…eu…”&lt;br /&gt;- Mas o senhor sabe que esta terra é propriedade pública…&lt;br /&gt;- Isso é… uma pergunta?&lt;br /&gt;- Não senhor, é uma afirmação. Sabe, não sabe?&lt;br /&gt;- Julgo que sim… mas olhe, é só um bocadinho (e levantei o saco, para provar que não estava a ser sôfrego nem, tão pouco, era minha intenção empobrecer a propriedade pública).&lt;br /&gt;- Pois então, se o senhor sabe, devia saber que não é permitido subtrair terra do espaço público…&lt;br /&gt;- Mas é proibido?&lt;br /&gt;- Não é permitido.&lt;br /&gt;- E adicionar?&lt;br /&gt;- Desculpe?!&lt;br /&gt;- Adicionar terra ao espaço público. É permitido?&lt;br /&gt;- (Coçando a cabeça, por debaixo do boné) Ora… eu estou em crer que proibido não é. A não ser que estejamos a falar de uma grande quantidade de entulho, não é? – acrescentou bem-disposto, com pronúncia beirã, sorrindo quase a rir em seguida. – Agora, subtrair é que não pode. Propriedade pública é a propriedade de todos nós… ora não é?&lt;br /&gt;- Mas, senhor agente, este bocadinho que aqui levo deve ser menos do que a parte que me caberia se a gente dividisse a propriedade pública por todos. (Levantei novamente o saco, mostrando o meu pequeno quinhão).&lt;br /&gt;- E, vamos lá a saber, para que é que o senhor quer isso?&lt;br /&gt;- Sabe, é que eu comprei um cacto, um daqueles minúsculos, no supermercado. E aquilo vem num vaso que é muito pequenino, em plástico, quase nem terra tem. E eu desconfio que se eu não mudo o cacto de vaso, nem o bicho me cresce, nem conseguirá sobreviver, se calhar. Aquilo é tão pequenino, o vaso… Pouco mais que uma xícara de café.&lt;br /&gt;- Um cacto… hum…&lt;br /&gt;- E eu entretanto lembrei-me que podia mudá-lo para um recipiente novo que eu inventei. Peguei numa daquelas embalagens de sumo de laranja de litro e meio, também do supermercado, e cortei-a sensivelmente ao meio.&lt;br /&gt;- Sensivelmente?&lt;br /&gt;- Sim, para não magoar… Depois fiz-lhe um furinho cá em baixo&lt;br /&gt;- … sensivelmente?...&lt;br /&gt;- Pois claro… que é para a água escoar. Que eu vi, lembro-me que os vasos lá em casa da minha avó, quando eu era miúdo, tinham todos um buraquinho. E eu quero fazer as coisas com perfeição. Com rigor.&lt;br /&gt;- É verdade. Buraquinho. Confere.&lt;br /&gt;- E agora tenho tudo a postos para fazer a trasladação do pequeno cacto. Porém, a terra que vinha dentro do tal vaso do tamanho de uma xícara mal chega para tapar o buraquinho da metade do pacote de sumo de laranja de meio litro do supermercado.&lt;br /&gt;- Pois, imagino…&lt;br /&gt;- E então lembrei-me “por que não subtrair um pouco de húmus do jardim de Santa Clara?”.&lt;br /&gt;- Estou a ver…&lt;br /&gt;- E cá estou. E agora o senhor diz-me que é proibido…&lt;br /&gt;- … não é permitido…&lt;br /&gt;- … não é permitido eu levar daqui um bocadinho de terra.&lt;br /&gt;O agente fez uma pausa. Devia ter os seus cinquenta anos, ou perto. Não era gordo, mas era robusto. De média estatura, a puxar para o alto. Tinha ar de homem de família. Muito português, indubitavelmente português: entre o moreno e o rosado, com o rosto invadido pela barba cerrada que o escurecia, apesar de desfeita seguramente nessa mesma manhã.&lt;br /&gt;- Como é que se chama o cacto?&lt;br /&gt;O meu cacto não tinha nome. Por momentos, o meu cérebro enregelou: ali estava, diante de mim, a grande oportunidade de conseguir a minha pequena porção de terra pública que salvasse o meu pequeno cacto. Bastava-me escolher agora um nome simpático para o senhor agente. Algo que o tocasse.&lt;br /&gt;- Marília.&lt;br /&gt;Sem pudor, tentei acertar-lhe no nome da mulher.&lt;br /&gt;- Marília?!&lt;br /&gt;- Sim… é uma cacta.&lt;br /&gt;Os meus olhos reluziam de esperança.&lt;br /&gt;- Leve lá daqui isso e… cumprimentos à Marília.&lt;br /&gt;Piscou o olho, sorriu e virou costas.&lt;br /&gt;- Gostou do nome? - perguntei, sorridente, ainda sentado no chão. Mas acho que ele não me ouviu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7241658464402603139?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7241658464402603139/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7241658464402603139&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7241658464402603139'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7241658464402603139'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/03/o-cacto.html' title='O cacto'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-379411906871836673</id><published>2011-02-11T20:06:00.000+01:00</published><updated>2011-02-11T20:07:32.841+01:00</updated><title type='text'>Entrevista de trabalho</title><content type='html'>&lt;em&gt;(Uma pequena homenagem - é tudo o que posso fazer, para já...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei e sentei-me, à espera. Entretanto, chegou uma senhora que aposto que tem 52 anos ou quase, com óculos, um casaco de malha azul escuro e um vestido fora de estação e muito fora de moda, cheiinha, sem elegância e voz demasiado fina “senhor Diego?” e eu “sim, sou eu”. “Bom dia, faça o favor”, ajeitou os óculos demasiado grandes e encaminhou-me para a porta do gabinete. A senhora tinha um ar de adjunta da secretária da administrativa do assessor do braço direito do subchefe do gabinete de apoio à vice-presidência da antecâmara da subintendência do auxílio às ideias raras de um administrador desconhecido sem qualquer voto na matéria, fosse a matéria qual fosse. Senti-me subestimado.&lt;br /&gt;Sentei-me. “Falta-lhe aqui um portfólio”. “Ah, sim… mas eu mandei em formato digital”. “O que é isso, formato digital? Rectangular?”. “Não… bom, mandei por e-mail. É que, sabe, não é barato fazer uma impressão de qualidade de um conjunto de trabalhos com mais de seis anos… mesmo que fosse uma selecção de 7 ou 8 retratos… enfim, pensei que, sendo a entrevista para ‘serviços administrativos e fotografias tipo passe’ se dispensasse o portfólio”. Olhou-me, pesando na balança da sua sabedoria se a minha justificação faria sentido. “Bom, eu falo com o doutor”. Agradeci. “Aqui tem a lista das condições. Leia com atenção e eu já volto”.&lt;br /&gt;Dizia assim: estágio com remuneração de 350 euros mensais; de segunda-feira a sábado, das 8h30 às 16h30, com intervalo de uma hora para almoço. Li com atenção cinco vezes, fazendo tempo até que a senhora, com todo o ar de se chamar “dona Luísa”, voltar. “Já leu?”. “Li sim…” “E então?”&lt;br /&gt;Hesitei. Escolhendo entre a honestidade e um futuro precário de prazo curto num serviço administrativo, optei pela segunda.&lt;br /&gt;“Bom, quer dizer… não é muito bem pago – sorri inocentemente -… 350 euros, tantas horas por semana…” Dona Luísa olhou por cima do aro dos próprios óculos e eu li, juro que li, nos seus lábios imóveis a expressão “os jovens de agora”. Porém, foi diferente aquilo que disse “olhe, filho, é melhor que o desemprego…” Olhámo-nos, Dona Luísa com alguma desconfiança; eu com alguma ira e outro tanto de desconforto. “Bom, depois contactamo-lo, ‘tá bem? Tenha um bom dia”.&lt;br /&gt;Saí do gabinete. Enquanto descia as escadas, algo em mim, um impulso difícil de explicar, obrigou-me a voltar atrás. Entrei no gabinete.&lt;br /&gt;-Dona Luísa!&lt;br /&gt;-Desculpe?&lt;br /&gt;-Dona Luísa, ainda não acabámos… é que tive uma ideia.&lt;br /&gt;-O meu nome é Conceição, se faz favor.&lt;br /&gt;-Dona Luísa, uma ideia brilhante. Eu sou capaz de salvar esta empresa! Imagine, em vez de pagarem 350 euros aos seus estagiários e mesmo aos seus empregados, vamos remodelar isto tudo. Está a ver a ideia?&lt;br /&gt;-Ãh?!&lt;br /&gt;-Repare, primeiro despedíamos toda a gente.&lt;br /&gt;-O quê?!&lt;br /&gt;-Sim. Iam ter indemnizações e subsídios de desemprego. É melhor estar desempregado com subsídio e indemnização do que estar simplesmente desempregado, sem nada. É ou não é?&lt;br /&gt;-Ehrm…&lt;br /&gt;-Pronto, isto era o primeiro passo. Depois, contratávamos dezenas, centenas de pessoas para fazer todos os trabalhos. E, em vez de lhes pagarmos, dávamos-lhes… ora, deixe cá ver… olhe um pãozinho com manteiga, um pacote de leite com chocolate e uma peça de fruta a cada um. Todos os dias!&lt;br /&gt;-Desculpe?&lt;br /&gt;-Sim. Mas não precisava de ser kiwi nem nada disso. Maçãs, laranjas do Algarve, coisas assim baratas. Nada de entrar em loucuras!... E o pão era carcaça e o leite era do Lidl. Depois, à sexta-feira, escolhia-se o empregado da semana e dávamos-lhe um Twix! Imagine, um Twix. Uma pessoa num dia está no desemprego e, no dia seguinte, tcharam, sem mais nem menos, tem uma refeição diária e a possibilidade de ganhar um Twix à sexta-feira! Já imaginou? Há que incentivar os trabalhadores, sobretudo os jovens, que não querem fazer nenhum. Os jovens gostam de Twix, isso eu sei.&lt;br /&gt;-Enlouqueceu…&lt;br /&gt;-E depois, para as senhoras mais velhas, como a Dona Luísa, que estivessem dispostas a abdicar do salário e a permanecer na empresa, para que a perda não fosse tão pesada e triste, atribuir-lhes-íamos uma gelatina diária, também!&lt;br /&gt;-Oh!... (um oh indignado, dos tornozelos à nuca!)&lt;br /&gt;-E todos os dias diferente: à segunda era morango, à terça era banana, à quarta era laranja, à quinta era… era morango outra vez, à sexta era ananás e ao sábado, vá, era meloa! Meloa, imagine só!&lt;br /&gt;-Eu?! Abdicar do meu… mas… pão com mant…&lt;br /&gt;-Calma Dona Luísa… Ao menos tinha o seu empregozinho. Melhor que nada…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-379411906871836673?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/379411906871836673/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=379411906871836673&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/379411906871836673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/379411906871836673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2011/02/entrevista-de-trabalho.html' title='Entrevista de trabalho'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-2555822330176881401</id><published>2010-12-06T20:48:00.003+01:00</published><updated>2010-12-06T20:58:08.891+01:00</updated><title type='text'>A roupa da vizinha</title><content type='html'>Três da manhã. A cozinha da minha vizinha do terceiro andar fica precisamente debaixo do meu quarto. Aparentemente, a madrugada é o período de eleição da minha vizinha para lavar roupa na máquina. Num prédio antigo, com chão e tectos de madeira, isto significa que, ao invés de dormir, dou voltas na cama, vociferando internamente “a grande vaca!... outra vez…”.&lt;br /&gt;A minha vizinha de baixo é peculiar. Ligar a máquina de lavar roupa às três da manhã é, para ela, natural, normal e legítimo. Já, por exemplo, tocar viola num sábado à noite, durante um jantar de amigos, em minha casa – digamos, às dez e meia da noite – é susceptível de merecer três ou quatro vassouradas no tecto (dela; debaixo do meu soalho, portanto).&lt;br /&gt;Não saí da cama. Faltou-me vontade. Intenção não me faltou, a sério. Mas é Dezembro, estão dois graus Celsius e a minha cama é de um conforto difícil de descrever. Porém, prometi a mim mesmo que “da próxima vez não perdoo, cadela anti-musical, maldita dona de casa noctívaga!”. Minutos depois, percebi que jamais poderia cumprir a minha promessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A indignação, tal como o profundo incómodo, não são luxos exclusivamente meus. No segundo andar vive outra pessoa.&lt;br /&gt;Ouvi passos na escada. Pesados, fortes, determinados. Numas escadas antigas em madeira de idade avançada, uma escuta atenta à subida de alguém permite-nos determinar o seu estado de nervos. Esta pessoa estava nervosa. De uma maneira negativa. Não propriamente furiosa. Mas decididamente chateada.&lt;br /&gt;Parou no terceiro andar. Bateu quatro vezes na porta. A palavra bater não é adequada. Antes, agrediu a porta desferindo-lhe quatro golpes. A minha vizinha veio abrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem do segundo andar é um ser raro. Primeiro, porque raramente se o vê. Pessoalmente, troquei com ele meia-dúzia de palavras a propósito da fechadura da porta do prédio – velha demais; dificílima de se lhe introduzir a chave.&lt;br /&gt;É uma pessoa bem-posta. Homem de meia-idade, veste-se condignamente. Diria até com algum capricho e uma discreta elegância. &lt;br /&gt;O meu vizinho é um melómano. Tem bom gosto. Descendo as escadas à tarde ou ao início da noite, é frequente ouvir-se rock n’roll dos primórdios, fado de excelência, clássicos e raridades do jazz. A partir das dez da noite, nada se ouve – a vassoura da vizinha do terceiro andar tão facilmente bate no tecto quanto no chão.&lt;br /&gt;Apesar de digno e composto, é claramente um homem de rastilho fácil. Disse-me, na primeira e única vez em que trocámos algumas palavras – a propósito da tal maldisposta fechadura – “esta merda já devia ter sido trocada! Ca pôrra de tortura… Não acha?! É inadmissível!...”. Eu concordei, embora com menor revolta. “Este Nivaldo é um chulo! Anda aqui, diz que faz isto, que faz aquilo… Não faz um cu! Parasita…”. De novo, concordei. Agora, com forçada veemência, mais para vincar a minha solidariedade do que para expressar a minha – pequena, irrisória, irrelevante – indignação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nivaldo também vive no terceiro andar. Partilha a casa com a lavadora da madrugada, a bruxa da vassoura, a ditadora do silêncio.&lt;br /&gt;Nivaldo é um brasileiro baião dos seus cinquenta e poucos anos. Tem bigode e suíças. Usa um chapéu baião tradicional. Tem a pele muito queimada do sol e fala ininterruptamente, sendo que são raras as vezes que tem, de facto, alguma coisa para dizer.&lt;br /&gt;É suposto Nivaldo ser uma espécie de contínuo do prédio, um zelador do seu bom estado e funcionamento, vá lá. Cada gota que cai do tecto, cada infiltração nas paredes, cada cano roto ou esgoto entupido – qualquer problema deverá ser-lhe comunicado. Da minha parte, foram várias as vezes em que o chamei. Na maioria das ocasiões, o problema era apenas um: pequenas obras na casa que Nivaldo e a sua equipa iniciaram mas que nunca se houveram dignado a dar-lhes desfecho. De todas as vezes, o castiço baião marcou comigo uma data para dar solução à questão. Chegada a data, Nivaldo veio, pôs-se ao corrente da situação, verificou, teve opinião e agendou nova data para, então sim, providenciar solução para estas minudências. Chegada a nova data, Nivaldo vinha, novamente de mãos vazias, avaliar a situação – ou, na sua expressão, “ver o que se passa”. E assim por diante, até uma espécie de infinito em que Nivaldo fazer, não fazia; mas que “via” com grande frequência e uma postura quase profissional.&lt;br /&gt;Ninguém sabe se Nivaldo e a minha vizinha partilhavam mais do que apenas as paredes da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a porta do terceiro se abriu, uma voz irada e masculina disse, num grito controlado, “cabra de merda, então isto é que são horas de lavar a roupa?!”. Ouviram-se algumas palavras indistintas e movimentos no interior do apartamento. A porta fechou-se e soaram alguns baques surdos, juntamente com estranhos guinchos, primeiro, e gemidos frágeis, em seguida. Depois, nada mais se ouviu.&lt;br /&gt;A estranheza fez-me sair da cama. Vesti o meu roupão de estilo Hugh Hefner, presente da minha avó, oriundo de um Natal remoto. Enfiei os meus inseparáveis chinelos do Benfica – estes, presente da minha mãe, uns chinelos almofadados, confortáveis e quentes, capazes de fazer qualquer Inverno parecer uma época aconchegante.&lt;br /&gt;Desci e bati à porta. Sem agressividade, com as nozes dos dedos leves e precisas, delicadas mas sem hesitação. Encostei o ouvido à porta. Alguém se lhe dirigia arrastadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trazia um martelo de orelhas na mão direita – abrira-me a porta com a esquerda. Tinha salpicos de sangue no roupão branco, na cara e nas mãos. Disse-me “entre. Encontrei ali um disco de bossa-nova, vou pô-lo a tocar”. Assim fez. De seguida, serviu-se de whisky e perguntou-me se também queria. Acenei que sim, vagarosamente. Eu estava um pouco assustado.&lt;br /&gt;No chão, no meio do chão da sala, a minha vizinha esvaía-se em sangue. A cara disforme, ferida e amassada; na cabeça, apresentava as feridas fundas de vários golpes convictos com o martelo. A vassoura estava caída a seu lado. O melómano, depois de me servir a bebida, apanhou-a e tocou com o cabo no peito da mulher. Não houve reacção. Sentámo-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vem minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser”. Trauteávamos tranquilamente enquanto olhávamos para a rua. Eu fumava um cigarro, bebíamos whisky. O meu vizinho não fumava e abriu até uma janela porque, segundo ele, “não se fuma na casa desta mulher”.&lt;br /&gt;“Não era melhor chamarmos uma ambulância?” perguntei eu. “Hum” encolheu os ombros “acho que já não vale a pena.&lt;br /&gt;- Por que é que… fez isso? – e apontei para o martelo, vermelho do sangue.&lt;br /&gt;- Enervei-me.&lt;br /&gt;Mais tarde, explicou-me que “já eram muitos anos disto” e que, portanto, “já chegava”.&lt;br /&gt;“Eu venho de uma terra onde a vida é dura, sabe? Uma pessoa tem de ter sempre qualquer coisa à mão para se defender. O martelo, por lá, pode ser a nossa salvação. Aqui, como lá, uma pessoa tem de saber defender-se, ora. Tenho ou não tenho razão?”.&lt;br /&gt;Ele vem de Mafra.&lt;br /&gt;“Temos lá ratos do tamanho de cabras – e esta cabra era muito rata -, que são ferozes como piranhas! E isso é agora. Na última idade do gelo, chegaram a atingir o porte de um mastodonte! Palavra. Ainda agora uns cientistas encontraram uma ratazana congelada, mais de 300 metros debaixo do chão. Mal cabia num camião da câmara. Estão a construir um parque de estacionamento subterrâneo e deram com aquilo”.&lt;br /&gt;Felizmente, agora os bichos são mais pequenos e é possível alimentá-los com vacas, para que não saiam dos esgotos, disse. “Pelo Natal, é costume atirar-se-lhes uma zebra, um búfalo” divagava, justificando o porte e uso do martelo de orelhas. “Eles gostam do que é exótico, como qualquer um de nós”. Evidente.&lt;br /&gt;Para além de ferozes, ágeis e possantes, “têm um gosto apurado. Uma vez por outra, atiramos um sem-abrigo. Para as ratazanas, é gourmet. E isso que os canibais dizem, de a carne branca ser menos saborosa… pff… tretas. Aqueles bichos devoram um branco como devoram um preto ou um chinês. Só com os ciganos é que são mais esquisitos – e ainda bem, porque não temos lá muitos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E eu pensei: ora, se esta grande cadela só me azucrina, se não me deixa ouvir música e ainda me acorda às tantas da manhã para lavar cuecas e camisolas interiores, tenho que lhe dar um jeito”. E deu.&lt;br /&gt;“Amanhã vou à terra e deixo-a no depósito dos ratos. Há destinos piores”.&lt;br /&gt;Enquanto me punha ao corrente de todo o seu plano, encheu ambos os copos pela terceira vez. O disco terminara. Na poça, o sangue coalhava. “Só têm brasileiradas aqui…” Escolheu um de Chico Buarque, ao vivo. Ouviu-se alguém meter a chave à porta. Nivaldo entrou. Olhou-nos com algum espanto; observou o corpo da mulher no chão, com curiosidade. Por fim, disse “a máquina inda tá lavando? Pôxa, cara… odeio ter que estender essa pôrra às quatro da manhã. Ainda por cima com esse frio, tá vendo…”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2555822330176881401?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2555822330176881401/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2555822330176881401&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2555822330176881401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2555822330176881401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/12/roupa-da-vizinha.html' title='A roupa da vizinha'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7397732673632901006</id><published>2010-09-22T03:52:00.004+02:00</published><updated>2010-09-22T13:02:56.837+02:00</updated><title type='text'>Crónica do fim de um dia</title><content type='html'>O meu plano era simples: sair cedo do escritório, apanhar o metro logo em Picoas para ganhar mais um período de espera e um viagem dedicadas às leituras. No Marquês, trocar de linha, esperar mais um pouco, abrir o livro, apanhar o metro, não fechar o livro. Continuar a ler até Santa Apolónia. Chegar a casa pelas nove da noite, comer uma pizza, ver televisão, fumar um cigarro a olhar para o Tejo. A simplicidade tranquila é algo que às vezes não saboreamos com dedicação suficiente.&lt;br /&gt;Atrasei-me um pouco no trabalho. Mesmo assim, consegui sair antes das nove. Cumpri o programa: 40 metros a pé até à estação, abrir o livro, esperar enquanto leio; entrar no metro prosseguindo a leitura. Não se trata de uma leitura qualquer. Trata-se de Henry Miller e do seu extraordinário "Colosso de Maroussi" - não, não contém cenas sexuais. É um guia de espiritualidade humana disfarçada de relato de viagem, como qualquer relato de viagem que se preze. Mas este é o melhor que li até hoje. Miller andou pela Grécia quando estalou a Segunda Guerra Mundial. E absteve-se de se importar com o assunto porque vagueava pelas ilhas gregas a sorver o que a humanidade fizera e aproveitara de bom com aquilo que as divindades, sejam elas quais forem, se entretiveram a erigir para nós. Não lia jornais. Não tinha dinheiro. Conversava com amigos e deleitava-se com a existência, apenas isso.&lt;br /&gt;O metro chegou ao Marquês e eu não saí do Corinto. Entre um e outro sítio, as histórias de Katsimbalis não me deixavam avançar rapidamente pelas páginas. De repente, uma travagem brusca. O metro parou e eu continuei. O rapaz à minha frente ouvia música muito má nos headphones. Na carruagem todos permaneceram em silêncio e agora as canções da Lady Gaga misturavam-se com a voz imaginária de Katsimbalis na cabeça imaginada de Henry Miller na minha cabeça. É impossível ler nestas condições. Começaram os primeiros suspiros impacientes. Mandei uma mensagem "que fixe, estou preso dentro do metro". Começaram os primeiros telefonemas, todos diziam o mesmo que a minha mensagem ou faziam ligeiras variações  "vou chegar um pouco atrasado", "não sei o que se passa", "o metro parou, não anda, isto é inacreditável".&lt;br /&gt;Passaram talvez quinze minutos. Havia burburinho lá ao fundo. Como vinha numa das últimas carruagens, limitava-me a ouvir o ruído longínquo. Era impossível perceber do que se tratava. O condutor falou pelo intercomunicador "senhores passageiros, isto é só um bocadinho... só um bocadinho". Lembrei-me de Chesterton a explicar o número infinito de possibilidades de eventos desde que uma pessoa entra numa carruagem de metro até que sai da estação de destino. Lembro-me perfeitamente dessa passagem em que ele, a dada altura, dizia algo do género "já reparou no milagre que é acontecer precisamente a possibilidade de que está à espera?". Pareceu-me irónico.&lt;br /&gt;Devia ter passado já meia-hora, não consegui ler mais que umas três ou quatro linhas depois da travagem brusca. O metro não voltou a ser ligado. Um funcionário entrou pela nossa carruagem "meus senhores, vamos ter de sair um a um pelo túnel, está bem? Nós vamos ajudar, vamos sair com calma... um de cada vez, façam fila. Devagarinho". Alinhámo-nos, meio incrédulos, um pouco desorientados. Senti o peso da ignorância. Senti que agora era Kafka quem escrevia com os meus pensamentos. Senti-me claustrofóbico. Fiquei um pouco ansioso, um pouco impaciente. A fila avançava lentamente. Os passageiros, tal como eu, algo nervosos, uns telefonavam, outros mandavam mensagens. Eu respirava e tentava não pensar. Algumas pessoas trocavam palavras de ocasião que iam do "inacreditável" ao "já estou atrasado". Eu só queria chegar cedo a casa. Uma mulher, ainda nova, disse "foi alguém que se suicidou. Atirou-se à linha". Aparentemente, a informação incerta, vaga e dita em tom discreto não causou choque. Os telefonemas começaram a conter a informação "houve alguém que decidiu atirar-se para a linha" e pouco mais. Nem uma expressão de horror, tristeza ou compaixão. Apenas a constatação geral de que uma decisão imprudente daquelas, àquela hora, naquele sítio, viera causar a todos grande transtorno.&lt;br /&gt;As pessoas iam saindo muito lentamente. Chegou a minha vez. Tínhamos de descer de costas uma escada alta até ao nível dos carris. Depois, em fila indiana, seguir até ao cais. Este exercício vezes muitas pessoas demorou algum tempo. No cais a polícia fez uma pequena e despreocupada barreira. O INEM já tinha chegado. As pessoas apressaram-se para a saída, de volta às suas vidas. Não consegui perceber se era um homem ou uma mulher, se era velho ou se era novo. Lembrei-me da Construção de Chico Buarque e de como esta pessoa, que deixara de ser pessoas ao atirar-se para debaixo do metro onde eu seguia, acabou por atrapalhar o trânsito.&lt;br /&gt;Saí da estação, tentei levantar dinheiro, apanhar um taxi. Não consegui. Decidi caminhar até casa, cerca de meia-hora de caminho ou um pouco menos, se o passo for acelerado. Pensei que, se calhar, estas coisas acontecem por alguma razão. Devem dar-nos uma lição qualquer.&lt;br /&gt;A pizza não era muito boa. Na verdade, não me soube bem. Na TV dava um filme medíocre e doía-me a cabeça. O final era previsível. Lembro-me de uma deixa da Meg Ryan, pouco antes do inevitável desfecho, que dizia algo do género "eu dantes pensava que as coisas aconteciam por alguma razão; agora sei que simplesmente acontecem, mais nada". Mais nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7397732673632901006?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7397732673632901006/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7397732673632901006&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7397732673632901006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7397732673632901006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/09/cronica-do-fim-de-um-dia.html' title='Crónica do fim de um dia'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3237515883157602644</id><published>2010-08-19T17:11:00.001+02:00</published><updated>2010-08-20T17:20:08.457+02:00</updated><title type='text'>Primeira crónica: da praia de Alvor</title><content type='html'>O biquíni mostrava as suas formas. Não, não. Não é isto. O biquíni, que é uma peça que são duas, não passa de um par de trapos curtos e estreitos. Não mostrando coisa alguma na maior parte dos casos, deixa muita coisa à mostra na generalidade das vezes. Por isso, o biquíni deixava ver as suas formas. Músculos secos, pele muito bronzeada. E eu pensei “grandes férias que estes pobres têm… no meu tempo, os pobres não passavam as férias na praia, ao sol; iam mas era fazer biscates”. Ela era decididamente pobre. E já tinha para lá de trinta. Andava perto dos quarenta, talvez. Muito morena. Morena antes do que o sol queima, aquilo era morenice de nascença. O cabelo não enganava, de tão preto que era. Ou então era pintado. Até tinha pinta de quem pinta o cabelo. Não era elegante, embora fosse magra. As ancas demasiado largas, os ombros normais, mas estreitos. O peito não se distinguia da barriga, e isso diz muito. Tinha uma criança, ainda dentro daquelas alcofas modernas que parecem ovos. Admiram-se que o desenvolvimento dos infantes seja cada vez mais lento, mas transportam-nos dentro de ovos até aos cinco anos. Já é muita sorte que não lhes nasçam penas em vez de pêlos, quando chega a puberdade. A criança chama-se Mário Rui “Mário Rui, queres leitinho?... Olha o leitinho para o meu bebé… quem é o meu bebé, quem é?” – é o Mário Rui. Não deixa de ser curioso que a tatuagem ao fundo das suas costas evoque precisamente o seu rebento. Em determinadas situações, pode causar constrangimento “Oh… Cátia… quem é este Mário Rui?” “Ah, é o meu bebé… está aqui no quarto ao lado”. Talvez o Mário Rui seja o Mário Rui, Jr., chamado assim por via da falta de imaginação de pai e mãe. Ainda assim, mantém-se a possibilidade de resultar em constrangimento desnecessário. Se bem que, com aquele tipo de letra, facilmente o Mário Rui se transforma num golfinho de traços tribais havaianos ou num cavalo alado. Ou… hum… também dava o símbolo da Rolls Royce.&lt;br /&gt;Cátia, a morena sem grande graça, estendia a toalha de praia e esbanjava as tatuagens pelo areal de Alvor. Tinha cobras nos braços, um arabesco indecifrável do lado esquerdo do pescoço e, voilá, um golfinho de traços tribais havaianos por cima do tornozelo direito. Estava um fim de tarde esplendoroso, daqueles em que o sol é castanho e quente e fica lá ao fundo, a aquecer a maré. E eu imaginava Cátia barmaid, sócia-gerente de um bar-cervejaria com um nome infeliz, como “Snake Bar” ou assim. Um estabelecimento de beira de estrada nacional, com motoqueiros pontuais e moscas assíduas. Cátia a servir canecas de cerveja com manga cava e decote generoso, muito mais generoso do que a mãe natureza fora consigo na hora de lhe esboçar os seios. Cátia devia ter piercings: um na língua, um no queixo e outro no sobrolho esquerdo. Como não os tem, fica uma pessoa incompleta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3237515883157602644?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3237515883157602644/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3237515883157602644&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3237515883157602644'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3237515883157602644'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/08/primeira-cronica-da-praia-de-alvor.html' title='Primeira crónica: da praia de Alvor'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-2185249144553389791</id><published>2010-08-04T02:30:00.003+02:00</published><updated>2010-08-04T03:05:49.394+02:00</updated><title type='text'>O Sul</title><content type='html'>Na cabeça dele aparecia sempre aquela imagem parva das pessoas a irem para o Sul, só porque estavam de férias. &lt;br /&gt;E o Sul era uma coisa muito mais imensa - e ele sabia disso. No Sul... As formas desengonçadas da temperatura, as molduras aguadas da paciência, o Sol sem maneiras nem tolerâncias, as cores analógicas do fogo na terra... O Sul era como um norte virado do avesso por um bando de crianças num descampado, em technicolor.&lt;br /&gt;"A gente, dantes, ia para o Sul na carrinha Ford Escort do meu pai. Era branca."&lt;br /&gt;E fazia-lhe confusão essa maneira sofisticada de ir para o Sul. Pessoas que tinham empregadas e tudo. Gente com carreiras. Indivíduos com diplomas. Tipos e tipas que tinham comprado roupas de sair à noite na H&amp;M ou na Zara.&lt;br /&gt;Ir para o Sul não era ciência. Não havia matemáticas nem físicas nisso de pegar na trouxa e procurar água tépida e sol com força. Nem ciências nem pecado. As pessoas ainda têm direitos. Direitos que são óbvios. E dava-lhe nervos isso de as pessoas irem para o Sul e aparecerem nas revistas só por causa disso. Ou na televisão.&lt;br /&gt;Para ele, ir para o Sul era uma naturalidade sem méritos.&lt;br /&gt;Ele foi para o Sul. Obviamente, sem mérito nem esperança. Como todos os anos. Enfiou a mochila no expresso e partiu. Nem sabia para onde ia, ao certo. Ele sabia que o ser humano só chegara ao Norte por teimosia. Isso dos vickings e não sei quê... Palermices. Na altura ainda não havia falta de espaço. E depois pensava em coisas parvas "eich... nove milhões de pessoas?! Em Londres?!"... e sorria, meio surpreendido, meio assim-assim. Não dá para definir, a expressão dele era peculiar. Seria como quem diz "fod...âsse", mas a sorrir.&lt;br /&gt;Portanto, ele não entendia. Não entendia como é que ainda dava para haver tanta gente que ia para o Sul. Como é que tanta gente não era do Sul. Por que é que tantas pessoas se haviam aglomerado em terras que, sendo próximas do Sul não habitavam no Sul, propriamente dito.&lt;br /&gt;Ele era uma pessoa confusa, cheia de dúvidas, de confusões e dessas coisas. Quando chegou a Lagos e desatou a ler um romance de um russo do século XIX, teve uma epifania. No regresso, se tudo corresse bem na viagem para norte, haveria de inscrever-se em Geografia Humana. Ou então em Antropologia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2185249144553389791?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2185249144553389791/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2185249144553389791&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2185249144553389791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2185249144553389791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/08/o-sul.html' title='O Sul'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3745275116006668165</id><published>2010-07-30T13:55:00.002+02:00</published><updated>2010-07-30T14:00:17.101+02:00</updated><title type='text'>Auto-biografia não autorizada (excerto)</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os carris, ferro acabado e pregado, construídos sobre um chão ao abandono, isto tudo... fui eu que fiz.&lt;br /&gt;A minha máquina, o meu comboio endoidecido, ia direito, decidido, investiu contra o mundo e acabou. Acabou com um zero qualquer.&lt;br /&gt;Não inventei coisa alguma. Coisa nenhuma nasceu das minhas mãos. Fui conseguindo, inconsequente, belas partidas, velas rasgadas, anatomias de um mundo bem melhor, com corações onde cabiam centrifugações. Coisas a mais.&lt;br /&gt;E isto, no fundo, éramos todos animais. No fundo... éramos todos animais.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3745275116006668165?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3745275116006668165/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3745275116006668165&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3745275116006668165'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3745275116006668165'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/07/auto-biografia-nao-autorizada-excerto.html' title='Auto-biografia não autorizada (excerto)'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3674910218929845179</id><published>2010-07-27T21:33:00.000+02:00</published><updated>2010-07-27T21:34:26.899+02:00</updated><title type='text'>Coisas que todas as pessoas deviam experimentar em casa</title><content type='html'>Via os vídeos no youtube, lia jornais sensacionalistas, acompanhava os desenvolvimentos mais profundos nas revistas para donas de casa: o meu fascínio pelo paranormal aumentava. O que mais me maravilhava era a fé inocente que aqueles magos, profetas, prestidigitadores, bruxos ou mediúnicos ostentavam, esbanjavam até. A humanidade precisa de inocência. A humanidade precisa de voltar a não ter culpa. Passamos a vida a ser educados como pecadores que um dia hão-de responder pelas suas culpas. Mas o homem nasce inocente.&lt;br /&gt;Este nicho, estas pessoas de mentes aladas, passaram a constituir para mim como que uma reserva natural imune à consciência do real, do que é negativo, da falta de esperança, da certeza de um inferno. Eles, ao invés, presenteavam-me com a sua crença, a sua esperança sem sentido.&lt;br /&gt;Eu observava-os a invocar anjos, a tentar mexer canetas com o pensamento, a adivinhar o fim de qualquer coisa ou um evento qualquer extraordinário. Eles confortavam-me com o seu mundo anti-depressivo. Ou, na maior parte das vezes, divertiam-me.&lt;br /&gt;Aliás, no começo, eu limitava-me a achá-los engraçados e ridículos. Sem jeito, sem juízo. E isso fazia-me rir. Mas demorei pouco tempo a trocar o riso escarninho por outro riso, mais enternecido. Pouco depois, passei a sorrir complacentemente. Até que me aproximei da essência daqueles a que chamei “os salvadores”. As pessoas do paranormal. Foi então que dei por mim a ter comportamentos menos habituais.&lt;br /&gt;A curiosidade levou-me a um estado de quase inveja daquelas pessoas. Mas por que é que ele consegue dobrar uma colher com o olhar e eu não? Por que é que aquela senhora é perseguida por torres de betão e a mim nem os cães me seguem? E o rapaz constantemente sequestrado por alienígenas, o que é que ele tem que eu não tenha? Comecei a sentir-me inferior. A frustração crescia em mim e emparelhava com a angústia – a angústia de não ter esperança de, um dia, vir a ter poderes. Poderes a sério.&lt;br /&gt;Por mais que tentasse, a minha realidade não se transformava num limbo especial. Eu continuava a não ser especial. Tinha o meu físico e a minha mente e era com isso que tinha de contentar-me. Essa clausura em dois espaços mas num tempo só. Eu não conseguia abrir o frasco do café com palavras mágicas seguidas de “um, dois… três!”. Eu não conseguia fechar as torneiras com o olhar. Eu não acertava sequer nas estrelas do Euromilhões. Nunca, nem numa! &lt;br /&gt;Mas hoje tudo mudou. De manhã, fui á casa-de-banho e disse para comigo “Bran, tu tens de conseguir”. E estava aflito, mas nem assim cedi á tentação – tão comum dos mortais - de recorrer ao gesto físico. Concentrei-me, fixei os meus pensamentos na tampa da sanita. E sei que vou conseguir levantá-la. Eu tenho fé em mim. Eu sei que tenho talento e que hoje é que é o dia. Eu sinto, eu pressinto que estou quase a conseguir movê-la. Vou buscar a máquina para filmar isto e pôr no youtube.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3674910218929845179?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3674910218929845179/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3674910218929845179&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3674910218929845179'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3674910218929845179'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/07/coisas-que-todas-as-pessoas-deviam.html' title='Coisas que todas as pessoas deviam experimentar em casa'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7757458874845500754</id><published>2010-07-23T03:36:00.002+02:00</published><updated>2010-07-23T04:17:56.734+02:00</updated><title type='text'>Ela a subir a rua</title><content type='html'>Quando a noite ia adiantada, ela subia a rua e a rua era o desconhecido - como se tomasse uma nave espacial para sete rios e sete rios fosse noutro sistema solar. Ela andava a pé.&lt;br /&gt;Era uma madrugada de quinta para sexta. Na sua cabeça, um objectivo: o cimo da rua. Não estamos a falar de duzentos metros, sequer. Isto são passos, uns pés, umas jardas. Qualquer coisa que dê para medir em termos humanos - não em milímetros; não em quilómetros, não em polegadas -, sem ser em muito nem em muito pouco. Meçamo-lo em hectómetros, vá: era um e picos.&lt;br /&gt;Ela subia devagarinho, a rua era íngreme. Tinha muitas esquinas e esquinas imensas, que iam daqui até lá ao fundo, muito fundo. Tinha portas abertas, portas fechadas, montras gradeadas, montras iluminadas, néons e tijolos a emparedar os devolutos.&lt;br /&gt;Ela subia sem grande classe. A saia era apertada. Não era demasiado curta, mas faltava-lhe elegância. Nunca seria primeira dama de França nem o esplendor da Casa Grimaldi. Mas tinha outro charme.&lt;br /&gt;Subia com vagar ou até mesmo paciência. Ela não era muito nova. Tinha alguma juventude no corpo, sobrara-lhe dos vintes passados sem euforias. Gastava agora as rugas poupadas. Às vezes com conta-gotas; às vezes com contas esgotadas.&lt;br /&gt;Ela não tinha pressa de chegar ao fim. Não tinha pressa nem tinha nome. Umas vezes foi Joana, outras foi Patrícia e de outras foi não sei quem. No fim, sobra pouco e o nome significa o quê? &lt;br /&gt;A rua era só uma montanha. Demorava-se em passos medidos, uns melhores, outros assim-assim. Medir com olhos tortos nem sempre dá métrica certa certa. Ela gostava de obstáculos, de transeuntes e de surpresas.&lt;br /&gt;O salto, alto e fino, afundava-se, a espaços, nas distracções da calçada. Perpendiculares e oblíquas, cruzamentos e entroncamentos: é tudo fenda, tudo é buraco. Rara, essa era a superfície da pedra negra.&lt;br /&gt;Ela subia a conta-gotas, com saltos espetados em brechas. Às vezes arrancava o mundo com uma passada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7757458874845500754?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7757458874845500754/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7757458874845500754&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7757458874845500754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7757458874845500754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/07/ela-subir-rua.html' title='Ela a subir a rua'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-752891492588532992</id><published>2010-07-22T16:34:00.004+02:00</published><updated>2010-07-22T18:34:04.275+02:00</updated><title type='text'>Apontamento sobre a vida de pessoas mais velhas</title><content type='html'>Às vezes são três, outras vezes são quatro. Depende das enfermidades do elemento mais frágil. São velhinhas, acima dos oitenta anos – pelo menos, assim aparentam. Cada qual com suas muletas ou de bengala; cada uma com sua conjugação de doenças crónicas, varizes e receitas por aviar. Levam o seu tempo até chegar à rua e, quando chegam, encontram-se e entopem o caminho - as ruas são estreitas. A conversa, pausada, envelhecida, mais-que-sabida: “está melhor, m’na Luisinha?” e a pergunta não tem resposta. O ritual não passa de um inquérito de consolação para iludir os tempos, o que passou e o que resta. A menina Luisinha sabe que nem ela nem as amigas dela vão melhorar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-752891492588532992?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/752891492588532992/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=752891492588532992&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/752891492588532992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/752891492588532992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/07/apontamento-sobre-vida-de-pessoas-mais.html' title='Apontamento sobre a vida de pessoas mais velhas'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-6390011421925977934</id><published>2010-07-14T17:57:00.002+02:00</published><updated>2011-04-14T18:18:42.788+02:00</updated><title type='text'>Preocupações de Verão</title><content type='html'>Íamos para Sul, era tradição irmos para Sul. A tenda, os sacos-cama e as mochilas no banco de trás. Ela conduzia, eu nunca conduzo - ela grita comigo. O sol da tarde, algum vento saboroso a lembrar que é Verão, a estrada nacional qualquer coisa por ali fora, até lá ao fundo, ao pé de Marrocos e nós a meio do caminho, rolando com calma como se tivéssemos férias a vida toda. Estar de férias também é isso, fingir que o resto não existe e que se pode desperdiçar o tempo e a existência. Quem se preocupa com a realidade durante as férias apanha depressões e úlceras no estômago.&lt;br /&gt;Eu ia a folhear o jornal, mas não era por preocupação. E muito menos por querer saber da realidade. Folheava o jornal enquanto falávamos pouco e ouvíamos música baixinho, era o B Fachada. A paisagem era feita daquele tédio bom, porque se repetia, se deixava tornar previsível. É bom caminhar por trilhos novos, sobretudo quando se sabe o que a estrada lá à frente reserva. Mais vaca menos ovelha, os campos eram todos iguais. As curvas todas familiares umas das outras. Os cruzamentos raros não surpreendiam, havia no espaço entre eles uma cadência. As férias são boas para darmos atenção ao que nunca importa.&lt;br /&gt;Ela olhou de lado um qualquer título do jornal. Falava em pobreza e ela pensou sobre o assunto. Raramente pensamos assim nisso da pobreza a não ser quando o dinheiro nos falta. A pobreza dos outros é a nossa riqueza, o nosso luxo, o nosso conforto, aquele comprimido anti-angústia. Calculamos que ser pobre deve ser mau. E isso faz-nos sentir bem porque há outros que o são ainda mais que nós. Mas as férias fazem-nos reparar nas coisas quotidianas, nas notícias sobre atentados que matam dezenas de pessoas, nos números da sida em Áfirca ou no tal aumento da pobreza. A banalidade, à luz da falta de compromisso, pode ser um assunto muito sério. E ela questionou-se.&lt;br /&gt;-Há coisas que não entendo...&lt;br /&gt;-Então?...&lt;br /&gt;Continuei a folhear o jornal, ela continuou a conduzir, quase distraída. Provavelmente a pensar nos pobres. Mas parecia-me intrigada e, como as curvas da estrada não abundavam, concretizou a ideia.&lt;br /&gt;-Epá... mas o dinheiro não é fabricado?&lt;br /&gt;-Tanto quanto sei...&lt;br /&gt;-É que eu... que haja fome porque não há comida que chegue, eu compreendo... mas porque não há dinheiro?! Por que raio não fabricam mais e pronto?&lt;br /&gt;Tentei responder. Ainda tentei enveredar pela lógica das convenções. Imaginar um esquema elaborado em que, de facto, fizesse sentido haver escassez de dinheiro para, assim, equilibrar o mundo. Mas o melhor que consegui foi:&lt;br /&gt;-Oh!... e o papel que se gastava?...&lt;br /&gt;Continuámos para Sul. Agora passava o Tiago Guillul na telefonia. Durante mais de 5 quilómetros não nos cruzámos com carro algum.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-6390011421925977934?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/6390011421925977934/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=6390011421925977934&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6390011421925977934'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6390011421925977934'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/07/preocupacoes-de-verao.html' title='Preocupações de Verão'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-4103056038818485151</id><published>2010-06-23T20:20:00.000+02:00</published><updated>2010-06-23T20:21:18.206+02:00</updated><title type='text'>A padaria</title><content type='html'>Todos os dias a padeira o confundia. Ele levava sempre os mesmos pães. Se não eram os mesmos, eram parecidos. E ela, talvez porque achasse graça, a cada dia lhes chamava nomes diferentes: umas vezes eram pães de água, outras eram padeirinhas, outras ainda eram pães da avó. Havia vezes que eram só “bolinhas”. Para ele aquilo era confuso, pãezitos daquele tamanho... e com tantas diferenças de nomenclatura. Às vezes as padeirinhas custavam, as quatro, por volta de um euro; outras vezes, eram 76 cêntimos. Quando se chamavam pães de á’gua, a coisa ia pelos 60 cêntimos. Sempre assim, mas alternando, umas vezes mais barato, outras vezes mais caro. Uma vez levou pão escuro, fatiado, só para ser diferente. “76 cêntimos” disse a padeira e ele estranhou. Isso costumava custar as quatro padeirinhas.&lt;br /&gt;Ele ia àquela padaria porque era mais arejada. Mas não era só por isso. Para além da luminosidade e do prazer que lhe dava a caminhada, aquela padaria era como um jogo das escondidas. Em todas as outras padarias ele encontrava um defeito: as pessoas queriam saber dele. Se se mudara há muito tempo, se era de cá, se trabalhava perto, se era solteiro, se tinha filhos. Tudo isso o incomodava muito. Que lhe controlassem as horas a que chegava para pedir pães d’água ou da avó ou padeirinhas. Ou bolinhas. Que lhe estranhassem a ausência, que lhe perguntassem pelas férias, pelo Natal, pela passagem de ano, pelo Santo António. Nesta padaria, solarenga e espaçosa, ele sentia-se bem. Sentia-se misterioso. Ele era o rapaz dos óculos escuros e das calças largas, sem horas certas para vir e com os pedidos confusos. Ninguém o chateava. Ninguém perguntava. E os pedidos só eram confusos porque a padeira o confundia. Pão é pão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-4103056038818485151?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/4103056038818485151/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=4103056038818485151&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/4103056038818485151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/4103056038818485151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/06/padaria.html' title='A padaria'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-6751410990827221588</id><published>2010-06-09T11:50:00.003+02:00</published><updated>2010-06-09T11:51:50.893+02:00</updated><title type='text'>Exercício matinal #1</title><content type='html'>tu és onde a minha cabeça&lt;br /&gt;assenta e termina&lt;br /&gt;como se fosses um ombro&lt;br /&gt;para eu adormecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em cada manhã&lt;br /&gt;às escuras&lt;br /&gt;a ponta do meu tacto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no fim do sono&lt;br /&gt;entre a vida e o banho&lt;br /&gt;a minha última almofada&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-6751410990827221588?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/6751410990827221588/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=6751410990827221588&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6751410990827221588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6751410990827221588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/06/exercicio-matinal-1.html' title='Exercício matinal #1'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8142874016140443655</id><published>2010-06-01T11:51:00.003+02:00</published><updated>2010-06-01T12:28:40.541+02:00</updated><title type='text'>A nespereira</title><content type='html'>Todos os dias, ele chegava da escola, mais pequeno do que a mochila que trazia às costas, e contemplava a sua pequena nespereira. Tinha sido o pai a plantá-la, poucos anos antes. O pai dizia-lhe que aquilo ia crescer muito e depois ele poderia pendurar-se nos ramos fortes e apanhar nêsperas empoleirado como os macacos. Ele gostava dessa ideia e todos os dias, atentamente, verificava se a nespereira já tinha tamanho suficiente para que pudesse trepá-la. Mas não tinha, as nespereiras não crescem assim, puf, de um dia para o outro. E ele enervava-se. Começou a medi-la com fitas métricas. Todos os dias. Nada. Então pensou em alimentá-la. Foi perguntar ao pai o que comiam as nespereiras e o pai disse-lhe que era peixe. Mas não estava a falar a sério. Ele não sabia se era ou não a sério, acreditou. As crianças acreditam em coisas. Sem esforço: pegam e acreditam, porque o mundo é assim, aquela novidade verdadeira em frente dos olhos. Foi apanhando restos de sardinhas assadas de um restaurante ali perto. Todos os dias, ao chegar da escola mais pequeno do que a própria mochila, submergia a pequena nespereira em espinhas e cabeças da mais típica portugalidade. E tripas. O pai via e nada dizia. Sabia que a culpa era sua. Ele é que mentira ao filho. A nespereira não crescia nem comia. Ele preocupava-se com a subnutrição da sua pequena árvore. Experimentou bacalhau. A nespereira morreu passados dois dias.&lt;br /&gt;Chegou da escola, uma vez mais, e a nespereira ali, estendida no chão, inerte. A seiva não lhe corria pelo tronco, pelos ramos. As pequenas folhas ficaram castanhas e encarquilhadas. As nêsperas jovens enrugaram-se e apodreceram. Ele chorou. No meio de espinhas de sardinha e restos de bacalhau. Foi ter com o pai e perguntou-lhe se as nespereiras também iam para o céu como o resto das pessoas. O pai disse-lhe que as pessoas não iam para o céu. Ele ficou chocado. Então o pai disse-lhe que as pessoas iam para o inferno, mas que a nespereira dele, que era boazinha, ela sim, iria para o céu. Mas que tinham de fazer-lhe um enterro. Aproveitaram uma caixa de um armário de casa-de-banho do Ikea, puseram-na dentro, ataram com cordel e sepultaram-na nas traseiras da casa, para ninguém ver. Foi uma cerimónia simples, mas emocionada. Na sepultura espetaram uma cruz com muitos braços. A ideia foi dele. Se fosse um homem, só precisava de dois braços. Mas uma nespereira tinha muitos ramos. Se alguém crucificasse uma nespereira gastaria um balúrdio em madeira para fazer a cruz. Também havia um ramo de flores, mas nada de oficial. Eram flores dessas amarelas da beira da estrada. O que importa aqui é o significado do gesto, não o quanto se gasta no arranjo.&lt;br /&gt;Os tempos foram passando. Ele chegava da escola e já era um pouco maior do que a sua mochila. Um dia foi visitar a campa da sua nespereira e notou algo diferente: junto à cruz dos muitos ramos, despontava uma nova planta. Foi chamar o pai. Queria uma explicação. O pai era fértil em explicações. Ele já sabia que o pai dizia poucas verdades. Mas o mundo não é só verdades. O que importa é explicá-lo. Pouco importa o rigor.&lt;br /&gt;O pai explicou: provavelmente, e por uma enorme coincidência, a nespereira fora enterrada num antigo cemitério de nespereiras, ainda do tempo dos índios. E, por obra do acaso, que é malandro, era possível que a nespereira se tivesse enroscado num nespereiro defunto, antiquíssimo mas ainda com certas aptidões. Estamos a falar de uma história de amor subterrânea e post-mortem. Ele gostou da explicação e assim ficaram: vinha aí uma nespereirinha, filha da outra.&lt;br /&gt;Passou mais tempo e a surpresa tomou conta do pai e do filho. Porque o acaso é muito mais malandro do que as explicações absurdas, o que ali estava a crescer era, afinal, uma palmeira. O pai ficou embaraçado. O filho ficou desconfiado. E queria uma explicação. O pai começou por pensar numa explicação telenovelesca, que envolvesse um palmeiro e falta de valores morais e amores à primeira vista. Mas depois optou por simplificar e disse "oh filho, as árvores não têm raça... isto é como as saquetas de cromos do mundial... deitas a semente à terra e nunca se sabe o que vai sair... foi uma palmeira, podia ter sido um castanheiro ou um plátano ou um pinheiro...". Enquanto voltavam para dentro e o filho franzia o sobrolho com muita desconfiança e alguma insatisfação, o pai decidiu rematar "por um lado é bom... é nas palmeiras que nascem as palmas...". O filho fez pffff e abanou a cabeça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8142874016140443655?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8142874016140443655/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8142874016140443655&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8142874016140443655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8142874016140443655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/06/nespereira.html' title='A nespereira'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3797467709897425891</id><published>2010-05-17T18:21:00.002+02:00</published><updated>2010-05-17T18:24:52.833+02:00</updated><title type='text'>Existencialismo barato vs. carros caros</title><content type='html'>-&lt;em&gt;A última coisa que me liberta é a mesma que me fode. A finitude, a inexorabilidade do tempo. E o infitinito da inexistência post-mortem. Deprime-me essa merda. E devia ser proibido ficar-se morto para sempre. Mas pronto. Já que não dá, ao menos que me deixem divertir-me durante este tempinho. Dar concertos de rock, comer caracóis, ver os jogos do Benfica, dormir com a mulher que eu amo e beber umas cervejinhas com amigos como tu. Não trocava isto por guiar um Porsche Cheyenne. Sobretudo, porque não tenho carta.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;E sobretudo porque é Cayenne e não cheyenne.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3797467709897425891?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3797467709897425891/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3797467709897425891&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3797467709897425891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3797467709897425891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/05/existencialismo-barato-vs-carros-caros.html' title='Existencialismo barato vs. carros caros'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7261170138610379804</id><published>2010-05-14T21:37:00.001+02:00</published><updated>2010-05-14T21:37:47.252+02:00</updated><title type='text'>O nosso mundo</title><content type='html'>Lembras-te? O nosso mundo começou quando, mais ou menos por brincadeira, um de nós meteu a manteiga à janela. Se calhar os mundos começam sempre assim, mais ou menos na brincadeira. No dia seguinte, pôs-se outra vez a manteiga à janela. E às tantas, tornou-se um ritual. O nosso pequeno-almoço começa com a distraída colocação do pacote de manteiga no parapeito voltado ao sul – até parece metáfora, já viste? E o vizinho, aquele velho das águas-furtadas lá nas traseiras, sabe muito bem que tomamos o pequeno-almoço tarde na maioria das vezes. Sabe porque vê lá o pacote e calcula que, minutos depois, tu fazes o café. Isto, enquanto eu vou ao pão. É um ritual que começa num gesto pequeno e que, depois, se desenvolve e propaga em pequenas sintonias de maior ou menor esforço – sobretudo quando sobrou muita loiça do jantar, que tu acabas por lavar, meio decidida, meio contrariada. Que queres que diga? Lavas tão bem a loiça... Lavas tão bem a loiça quanto eu vou bem ao pão, já viste? É que a minha ida ao pão não é simples. Há aquela padaria mesmo ali ao pé, a um pulinho da porta de casa. E há a outra, para o outro lado, ao pé da Sé, que tem uns pães que são uma categoria. E eu? Eu não vou a nenhuma dessas. Vou à do Chafariz de Dentro. Já fiz as contas e tudo: ando mais 170 metros (ida e volta) e perco mais cerca de seis minutos. Vendo bem as coisas, é o tempo de lavares mais uns pratos. É da maneira que podes fazer as coisas com mais calma. A calma é importante para se começar bem um dia. Calma, uma janela virada para o sul, pão fresco, manteiga e cheiro a café. Mas há outras razões para eu ir àquela padaria. Primeiro, descobri que têm pão fresco até à uma e meia da tarde. As outras fecham à uma e, na maior parte dos dias, não têm pão (ou têm sobras, uma de cada nação) fresco a partir das onze e picos. Um aborrecimento para quem gosta de amanhecer com vagar e espreguiçadelas. A do Chafariz não é nada assim. Para já, fica num largo, é arejada, não fica numa rua escura, sombria. Uma pessoa vai ali e respira sem humidades, vê pessoas, vê os turistas, vê as esplanadas, vê os cartazes da Amália e do Camané nas montras do Museu do Fado. Parecendo que não, inspira. Imagino-te logo a cantarolar a Casa da Mariquinhas à procura das palavras certas. Ficas mesmo bonita a cantar o fado. Depois, a primeira vez que entrei nessa padaria senti aquele conforto de lá entrar sem ter pressa nem receio que o pão se acabasse. Não recear nem ter stress faz bem porque não faz toxinas. Ninguém quer toxinas ao pequeno-almoço. E depois volto e, como demora mais aqueles seis minutos que eu disse, o café já está feito e a manteiga amaciou entretanto. Eu sei que são coisas pequenas, mas isto dá felicidade. A sincronia dos nossos rituais fazem-nos funcionar com harmonia. Por exemplo, as sessões de CSI. Aquilo não tem interesse nenhum “olha, um vestígio de sangue... boa, vou recolher o ADN” ou aquelas frases do Horatio “vais ter a vida toda para pensar nisso, pazinho... in jail” isto não tem qualquer magia. Mas é uma maneira bonita de suportar essa coisa terrível, que é o fim de mais um dia – porque é um dia que, terminado, não volta mais. E nós suportamo-lo com a discreta felicidade da companhia um do outro. A ver como evoluídos e tecnológicos cientistas demoram quase 50 minutos a descrobrir coisas que eu, nos meus tempos de jogador de Cluedo, descobriria em pouco mais de um quarto-de-hora. E sem computadores. Eu estou a escrever este texto porque te prometi, já há tempos, um texto sobre nós. Mas que fosse razoavelmente amoroso, que não fosse a falar no Papa outra vez. Ups. Esquece, esquece. Um texto razoavelmente amoroso... e eu, que tenho andado ocupado e distraído, eu, aquela pessoa a quem falta o tempo e, provavelmente, a arte para, no meio do cansaço e da confusão, dar atenção a coisas tão importantes como enumerar rituais simples que a gente faz, os dois juntos, sem dar por isso. Mas agora aqui está. Porque a vida não são só rituais, hoje decidi surpreender-te e dedicar-te, semi-publicamente, um texto que eu até acho bonito. É a minha maneira de te fazer o bem. Ou, pelo menos, de tentar. Porque, e tu nunca te esqueças disto, eu sou o teu homem do lixo. Quando, em pânico, olhas para o caixote, prestes a transbordar, eu sei qual é a minha missão. Quando, completamente aflita, percebes que não há mais sacos para pôr no caixote, eu sou rapaz para ir a Santa Apolónia, ao Pingo Doce, nem que seja para comprar um Snickers e pedir “e era um saco, se faz favor”. Porque eu não estou aqui só para salvar o planeta e ser ecológico. Eu sobretudo estou aqui é para salvar o teu dia. Todos os dias. E até levo as garrafas para baixo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7261170138610379804?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7261170138610379804/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7261170138610379804&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7261170138610379804'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7261170138610379804'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/05/o-nosso-mundo.html' title='O nosso mundo'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-5219086313110127397</id><published>2010-05-11T17:18:00.002+02:00</published><updated>2010-05-11T19:26:36.221+02:00</updated><title type='text'>"De um modo geral, foi um flop"</title><content type='html'>O Papa chegou ao palco e não estava lá ninguém para o ver. Quase ninguém. Duas primas em segundo grau, da Alemanha, que tinham vindo passar dois dias a Alfama para ouvir o fado e aproveitaram, foram ao Terreiro do Paço só dizer-lhe adeus. Um casal de meia-idade que veio “mais pela festa, em si” mas que, desapontados, depressa debandaram, afirmando que “o Rock in Rio é melhor que isto”. Estavam ainda umas quantas mães zelosas, algumas delas mesmo orgulhosas, que vinham ver as suas crianças a cantar no santo côro. Fora isso, havia oito mil polícias, mais ou menos. Era a claque mais numerosa. Porém, era muito dispersa e pouca dada a bênçãos e singalongues. Também estavam dois rapazes hare krishna que pareciam achar tudo muito divertido. Meia-dúzia de aleijados– alguns, coitados, nem palmas conseguiam bater (pelo menos, antes da parte dos milagres). Uns quantos sem-abrigo, em busca de esmola ou de pão, entretanto levados dali, para não tirar o lugar às pessoas – o certo é que pessoas, mesmo pessoas daquelas que os papas costumam gostar de ter como público, não havia ninguém. Quase ninguém. Nem freiras havia, porque era terça-feira e, as que estavam para vir, demoraram-se na Feira da Ladra a regatear CD’s de música moderna e lenços, para porem na cabeça. Com galos de barcelos e contas minhotas, que o branco já passou de moda e as mulheres precisam de alegria. Quem mais se entediou foram as meninas que distribuíam os preservativos da Abraço: não conseguiram dar nem um. Fizeram balões com eles e, ainda assim, proporcionaram a parte mais bonita da tarde, elogiando a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis com uma largada de contraceptivos esvoaçantes. Foi bonito ver aquela núvem de latex sobre o palco papal, esvoaçando, direitinha ao céu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-5219086313110127397?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/5219086313110127397/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=5219086313110127397&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5219086313110127397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5219086313110127397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/05/de-um-modo-geral-foi-um-flop.html' title='&quot;De um modo geral, foi um flop&quot;'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-2363780843569376595</id><published>2010-04-29T16:05:00.001+02:00</published><updated>2010-04-29T16:08:35.741+02:00</updated><title type='text'>Apontamentos da vida de uma pessoa como outra qualquer</title><content type='html'>Ela queria ver o Papa. Ela era nova, tinha p'raí 18 anos. Ela queria ver o Papa porque já tinha visto o Eusébio. A seguir era o José Eduardo Moniz. Gostava muito daqueles olhos azuis, os do Papa. As pessoas ficam mais pequeninas na televisão. Ela queria ver o tamanho do Papa ao vivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2363780843569376595?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2363780843569376595/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2363780843569376595&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2363780843569376595'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2363780843569376595'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/04/apontamentos-da-vida-de-uma-pessoa-como.html' title='Apontamentos da vida de uma pessoa como outra qualquer'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7618190340176103655</id><published>2010-04-28T01:01:00.003+02:00</published><updated>2010-04-28T01:44:55.034+02:00</updated><title type='text'>Os mortos</title><content type='html'>O mundo é feito de mortos.&lt;br /&gt;Nós, os sete mil milhões e tão poucos&lt;br /&gt;nós, os sete mil milhões de sozinhos.&lt;br /&gt;Os vivos, os frágeis, os temporais, os efémeros.&lt;br /&gt;Sete mil milhões de finitos&lt;br /&gt;esmagados pelo infinito&lt;br /&gt;pelos biliões de milhões de infinitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, nós não temos esperança.&lt;br /&gt;Um dia alimentaremos o mundo&lt;br /&gt;com o corpo.&lt;br /&gt;Com os ossos e a carne contra o chão&lt;br /&gt;e os bichos do chão.&lt;br /&gt;E não conseguiremos fugir&lt;br /&gt;nem lutar&lt;br /&gt;nem sofrer com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o chão talvez nos engula pouco.&lt;br /&gt;Talvez nos tornemos terra magra&lt;br /&gt;areia estéril&lt;br /&gt;baldio sem propriedade&lt;br /&gt;reservatório de ratos e silvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que será da minha pele&lt;br /&gt;quando se entranhar&lt;br /&gt;terra adentro?&lt;br /&gt;Uma insignificância!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de mim, que será feito de mim?&lt;br /&gt;Uma memória na cabeça de meia-dúzia de outros finitos?&lt;br /&gt;Tão fracos como eu?&lt;br /&gt;Que vão acabar dentro da terra?&lt;br /&gt;Tudo igual.&lt;br /&gt;Não há que ter esperança.&lt;br /&gt;É praticamente inútil.&lt;br /&gt;A gente aqui&lt;br /&gt;paredes meias com a inexistência&lt;br /&gt;a um incognitésimo obscuro de deixar de ser.&lt;br /&gt;A gente aqui&lt;br /&gt;sete mil milhões de solitários&lt;br /&gt;desfavorecidos, desprotegidos e sem futuro&lt;br /&gt;eternamente mortos daqui a pouco&lt;br /&gt;pateticamente jovens por um instante&lt;br /&gt;inconsequentemente crentes a curta vida inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é feito de mortos.&lt;br /&gt;Com sorte&lt;br /&gt;o corpo será digno e mergulhará fundo&lt;br /&gt;tornar-se-á magma&lt;br /&gt;que jorrará de vulcões&lt;br /&gt;e, em sua imensa e finita incandescência,&lt;br /&gt;bater-se-á por mais um pouco&lt;br /&gt;só mais uns momentos&lt;br /&gt;antes do apagão final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E do resto, não mais voltará a saber-se&lt;br /&gt;nem a sentir-se&lt;br /&gt;nem a pressentir-se&lt;br /&gt;nem a existir.&lt;br /&gt;Nunca mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7618190340176103655?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7618190340176103655/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7618190340176103655&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7618190340176103655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7618190340176103655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/04/os-mortos.html' title='Os mortos'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-5036732053003641523</id><published>2010-03-26T19:09:00.002+01:00</published><updated>2010-03-26T19:10:45.061+01:00</updated><title type='text'>(Se calhar, ando a precisar de férias)</title><content type='html'>Há duas maneiras de fazer coisas na vida: fazê-las certas pelos motivos errados; fazê-las erradas pelos motivos certos. Se calhar há mais maneiras de fazer as coisas na vida e eu estou apenas a escrever as coisas erradas. Mas faço-o pelos motivos certos. Esta ideia, este jogo de palavras meio macaco, surgiu-me quando uma outra ideia ganhou consistência na minha cabeça. A de que uma pessoa, neste modo binário e errante de fazer coisas, vai progredindo na existência - pelo menos, até que o erro seja demasiado e o fisico acabe por falhar. Poderia chamar a isto “aprendizagem pré-mortem”, mas chegar-me-ia demasiado perto de um lugar-comum. Não há aqui aprendizagem nenhuma. Aprender permite eliminar o erro. Eu parto do princípio que o erro está sempre aqui, comigo. Uma coisa interessante deste texto. Não, duas coisas interessantes neste texto são: 1) sabendo que está errado – ainda que o erro possa ser apenas parcial -, eu continuo a escrevê-lo; 2) se você está a lê-lo, então você está a lê-lo. Tem a sua graça. E ocorreu-me agora os criminosos. Esses fazem as coisas erradas pelos motivos errados, dir-me-ão. Aí começamos a entrar no campo da subjectividade, respondo eu. E, com este argumento, poderia puxar toda esta minha minúscula teoria para um estado de rarefacção argumentativa que roçasse o ininteligível. Mas não divaguemos. Foquêmo-nos nos criminosos. A criminalidade, sobretudo a violenta – que violenta? A escabrosa! A horrorosa! A inumana! – ocupa um lugar de fascínio no pedestal onde costumo depositar as ideias. A capacidade de articular, dentro de um marginal, de um indigente, de um mafioso, de um psicopata, enfim, de uma pessoa “socialmente iníqua” duas variantes de conjuntos de “certo e errado” com permissas que nunca poderão encontrar-se, assim, até ao infinito, é algo que me deixa tremendamente feliz com o ser humano. Eu hoje não estou particularmente feliz. Longe disso. Mas precisava de algo que me fizesse orgulhar de mim. E então escrevi isto. Pode não estar certo. Mas é bonito. O ser humano é um erro incompleto perpétuo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-5036732053003641523?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/5036732053003641523/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=5036732053003641523&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5036732053003641523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5036732053003641523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/03/se-calhar-ando-precisar-de-ferias.html' title='(Se calhar, ando a precisar de férias)'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8334260849518728731</id><published>2010-01-09T04:34:00.003+01:00</published><updated>2010-01-09T04:55:20.798+01:00</updated><title type='text'>Olha uma coisa</title><content type='html'>O amor.&lt;div&gt;O amor é uma coisa que significa outra coisa.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Nunca significa uma coisa amorosa.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O meu amor és tu.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E isto significa exactamente isto, sem metáforas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu hoje estou a usar pontuação. Deve querer dizer alguma coisa.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O amor não deveria ser pontuado.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os pós-modernos não pontuam. E quem quer ser vanguardista pontua de uma maneira inesperada.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu pontuo como amo: com fé.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu amo-te.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E fiz, na minha cabeça, enquanto lavavas os dentes, uma poesia belíssima.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pena que essa poesia viesse às postas&lt;/div&gt;&lt;div&gt;e que a minha memória seja um esplendoroso conjunto de reticências a estas horas da noite.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas guardei um pequeno deslize de pensamento&lt;/div&gt;&lt;div&gt;sobre o assunto:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;o amor nem sempre é amor.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E, pela primeira vez,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;acreditando que a memória não me engana,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;escrevo sobre o amor a dizer o que o amor é&lt;/div&gt;&lt;div&gt;sublinhando que às vezes ele não é aquilo que se supõe que fosse.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Precisamente porque o amor é isso.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O meu amor és tu e nem sempre o amor é amor.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não tenho maneira de te explicar o quão grandioso é isto.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Até porque odeio metáforas e a poesia pós-moderna, cheia de palavras que não querem dizer coisas concretas. Nem abstractas. São palavras só de escrever. Não são de ler, nem de entender, nem de sentir.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O amor não é sempre amor porque, se o fosse, não era amor.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Era só parvoíce.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E era só isto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8334260849518728731?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8334260849518728731/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8334260849518728731&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8334260849518728731'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8334260849518728731'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2010/01/olha-uma-coisa.html' title='Olha uma coisa'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7968895259239235952</id><published>2009-11-06T17:23:00.003+01:00</published><updated>2009-11-06T17:27:24.653+01:00</updated><title type='text'>Publicação excepcional</title><content type='html'>&lt;em&gt;Não me refiro ao texto em si, embora tenha por ele grande estima. Refiro-me ao facto de, excepcionalmente, republicar um texto. A primeira publicação aconteceu num velho blogue meu, há alguns anos atrás. Reli-o quando, por mero acaso, procurava um outro texto (entretanto, abandonei as buscas porque me fixei neste). Não resisti. Ele merece mais leituras. Não uma condenação fria ao esquecimento num cache qualquer da Internet...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Milene e Seus Três Homens (parte I) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;«Se gosto que me venerem?... Sim, é simpático.» &lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Milene, diva, baixista e vocalista dos Milene e Seu Três Homens&lt;/em&gt;) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duas coisas férteis em amor e desgostos de amor: a adolescência e o submundo dos artistas rock. &lt;br /&gt;Quando falo da Milene não o faço com as palavras todas que a sua existência exige. Não tenho palavras que cheguem para uma criatura tão potente e duvido que haja palavras suficientemente belas para descrever uma personificação tão poderosa da perfeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que vi Milene foi num concerto no Tanga's, um bar nos arredores da escola secundária. Na altura, a banda chamava-se "Nome Curioso". Tinham um nome curioso. Tinham bateria, guitarra, teclas, baixo e, claro, a voz e a presença e o espaço ocupado e o ar inspirado e expirado por Milene. Apaixonei-me. Devia ter catorze anos. De certeza que tinha catorze, estas coisas ficam bem marcadas. Eu sei que tinha catorze. Ou quinze. Após o concerto, resolvi que ia fazer três coisas: acompanhar todos os concertos dos "Nome Curioso" até conhecer a Milene; aprender a tocar guitarra; e a terceira é íntima. Só posso adiantar que tem a ver com a inocência e que tudo tem um fim, incluindo a inocência, e que a Milene era uma das personagens principais nesse assunto, contracenando comigo, assim num ambiente escaldante, provavelmente num banco de trás do seu Fiat Uno, que na altura era novo e até tinha auto-rádio. A Milene era três anos mais velha que eu e já podia ter carta de condução e Fiat Uno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhei Milene e a sua banda durante sete meses, uma semana e três dias, até que a consegui conhecer. Apresentaram-me. Deu-me um beijo na cara, as minhas hormonas reagiram e ela riu-se. "O puto tem pinta". Virou-me as costas. Um objectivo cumprido. Entretanto, em sete meses e tal, já tinha aprendido os acordes básicos, algumas escalas simples e uns dedilhados janotas. Pouco tempo depois, a minha vida mudaria: à entrada do Bloco C, no qual eu tinha a maior parte das aulas, um cartaz de aspecto gastro-punck anunciava em garrafais "PRECISASSE GUITARRISTA!!!". Percebi que era da autoria da Milene... Por alguma razão, já conduzia um Fiat Uno e ainda andava no 10º. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui ter com ela. Olhou-me, riu-se e exclamou bem alto "Olha o puto. Tu és giro, puto... és virgem?" Riram todos, riram muito e as cervejas continuaram a rodar. Mas não me fiquei. "Por acaso, sou", respondi, severo. "Mas podemos aprofundar o assunto", completei. Os músicos dos "Nome Curioso", que dedicavam cada minuto da sua vida a adorar Milene e a segui-la para toda a parte (menos para o WC das raparigas, que era proíbido... mais ou menos), levantaram-se e aproximaram-se de mim. Um pôs-me a mão no peito, outro soprou-me fumo à cara. Já me preparava para resistir, lutando. Mas Milene irrompeu pelo meio do gang, afastou-os, pousou a sua mão no meu ombro e disse "Como é que te chamas mesmo?" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas semanas depois, surgia uma nova banda e eu era o seu guitarrista. "Milene e Seus Três Homens". O baixista e o guitarrista dos "Nome Curioso" saíram, protestando contra a minha entrada na formação. Milene ficou com o baixo, embora num formato a lembrar Sid Vicious ao vivo... Quando demos o primeiro concerto, três meses mais tarde, no Tanga's, já eu tinha uma opinião formada acerca dos bancos de trás do Fiat Uno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Milene e Seus Três Homens (parte II)&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;«Um ícone, eu?!... UMA ícone! UMA!» &lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Milene, diva, vocalista e baixista dos Milene e Seus Três Homens&lt;/em&gt;) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava habituado a ser visto como objecto estranho, nos tempos da secundária. Ouvia Sonic Youth, enquanto a esmagadora maioria do pessoal se dividia entre a nostalgia rimbaudista dos Doors, a modernice inestética rock-star dos Aerosmith e a senilidade quadrada e repetitiva dos Stones. Havia umas aves raras que andavam numa de ser punks e tinham correntes, cães fora de prazo, xámon e vinis dos Sex Pistols. Eu até curtia mais Clash, mas era outra onda. E só tive uma cadela, gorda e lustrosa, que não sabia andar de monociclo. Eu não era punk, eu era diferente. Também havia malta, tipo os "meninos", que curtiam os R.E.M, e isso até nem tinha nada de mal. Mas também não era muito positivo e o look Michael Stipe era um bocado duvidoso. Porém, não me vou alongar para não dizerem que sou politicamente incorrecto. Não quero relacionar o aspecto do Mickey com o Tom Hanks no Filadélfia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abreviando, eu era um excluído. Por vontade própria e por inevitabilidade. Era um inadaptado. Não daqueles tipo James Dean, rebelde sem causa; eu era mais um subversivo sem importância. E as pessoas estranhavam-me. Na maior parte dos casos, porque sempre que reparavam em mim, sentiam que era a primeira vez que o faziam. Nunca cultivei muito a cena do "ser popular" e acho que as pessoas tinham dificuldade em memorizar a minha pessoa de então - por um lado é bom, porque assim tenho um passado limpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi, portanto, uma novidade para toda a escola quando o povo começou a dar por mim enroladinho na escultura da Milene atrás dos balneários. Aquilo eram beijos bué de sérios que a gente dava. Havia dias em que chegava a casa até me doíam os maxilares inferior e superior, os malares e o estômago, tal era força com que ela me sugava a língua (cheguei a ter aftas, derivado destas nossas aventuras pré-sexuais...). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a escola assistia sem reacção: eu, o puto esquisito, a degustar toda aquela fartura e sem partilhar com ninguém. A nossa relação ia ganhando contornos cada vez mais sérios. Eu até acompanhava a Milene nos tempos mortos em que faltava às aulas de Português e íamos para o Tanga's beber sangria, fumar cigarros e ler a Bravo na versão alemã. Eu não percebia uma palavra de alemão, mas ia percebendo quais as estrelas mais importantes da música da época porque via as fotografias e associava às bandas que apareciam no Clip Clube. A Milene também não percebia uma sílaba de alemão, mas parece-me que não se ralava com isso das bandas nem via o Clip Clube. Ela era mais de olhar para as fotos do Richard Dean Anderson, do Luke Perry, do Bon Jovi ou do Axl Rose, que era tudo rapaziada bem cotada na bolsa das paixões das adolescentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tipo, a dada altura a minha personagem já tinha peso no eco-sistema escolar específico. Os meus seis anéis passaram de aberração a estilo; o cabelo desgrenhado, de foleirice a revivalismo paleolítico; os all-star rasgados, de sinal exterior de pobreza a imagem de marca. Penso que, de alguma forma, acabei por contribuir decisivamente para a implantação da imagem e do culto "grunge" na Europa Ocidental - já disse isto numa entrevista ao Blitz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para reforçar a minha ascensão meteórica no universo sócio-estudantil, os Milene e Seus Três Homens granjeavam novos fãs em movimentos cada vez mais expressivos. Aos poucos, o nome Nome Curioso varria-se da memória musical colectiva, sendo substituído pela nossa designação poderosa. Cada concerto nosso era um marco na história das vidas daqueles teenagers sem ídolos. E esses ídolos iam nascendo aos poucos, íamos sendo nós: os rapazes suspirando por Milene; as raparigas fazendo de mim um ícone de uma geração. Havia quem gostasse das nossas músicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Milene e Seus Três Homens (parte III) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;«O que é que eu acho do amor?... Bem, das vezes que fiz curti e quero repetir... Mas nunca digo desta água não beberei.»&lt;br /&gt; (&lt;em&gt;Milene, diva, vocalista e baixista dos Milene e Seus Três Homens&lt;/em&gt;) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a contar a história da minha passagem pelos Milene e Seus Três Homens e da minha relação com Milene, a diva, durante esses tempos remotos e saudosos, comecei por advertir os leitores para o seguinte: "há duas coisas férteis em amor e desgostos de amor: a adolescência e o submundo dos artistas rock". Ora, esta história retrata, de uma só vez, a intromissão de um adolescente no sub-mundo do rock e a experimentação de drogas leves, bem como os primeiros contactos com bancos de trás de FIAT's Uno. E não estou a falar de viagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, podem concluir os mais sensíveis que a melhor atitude a tomar é interromper de imediato a leitura deste texto. Vai tudo acabar em drama, tragédia, revoluções interiores, pequenas vinganças, alguma violência física, grandes desgostos, o fantasma da separação eterna, um último charro depois de umas últimas carícias íntimas, sangue nos lençóis, duas luxações - uma em cada cotovelo -, anti-depressivos, e, por fim, a separação da banda, cada um para seu lado. E o baterista suicida-se, mas não quero tirar o suspense. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regressemos à época em que o sucesso dos Milene e Seus Três Homens não parava de crescer. Entrámos em tournée pelos concelhos de Oeiras, Amadora e Cascais. Tínhamos um público diversificado. Aparecemos num cantinho do Blitz, vinha eu e a Milene na foto, a dar um beijo em palco: "O beijo do futurismo electro-rock-romântico", titulava o repórter. Éramos elogiados. Principalmente a Milene. E é aqui que tudo muda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguém se interrogou, alguma vez, por eu nunca ter falado do Gonçalo Frota (não, não é aquele gajo grande da Quinta das Celebridades...), pois é esta a explicação: Milene. E, garanto!, os editoriais e crónicas desse amiguinho, no Blitz, haveriam de me ter rendido pelo menos uns dez ou doze textos. Mas não. Eu, aos meu inimigos, não escrevo mal deles nas costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de nos separarmos, eu e a Milene, decidimos aproveitar uma última noite - o Frota nunca soube, mas pode saber agora; ele visita o blog, às vezes. Enquanto fumávamos uma últmia ganza, depois de... do... hrum... Milene confessou: "não é que eu não goste de ti, miúdo. Mas estas cenas são raras... as oportunidades, 'tás a ver?" Eu continuava, mas vocês já perceberam a ideia. O preço da fama, do rock e da adolescência: buracos no coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história do baterista é mesmo verdade, suicidou-se. Rui Freire, se quiserem confirmem no arquivo de identificação de Lisboa. Peçam o registo da autópsia, está lá tudo: "hemorragias internas várias resultantes da ingestão de objectos pontiagudos e/ou cortantes". Eram pontas de cordas de bronze, que ele cortou em pedacinhos com um alicate e comeu, em seguida. Aparentemente ele também andava com a Milene e não suportou que ela se tivesse apaixonado pelo Frota. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Milene acabou também por pagar caro o seu sucesso fácil. Não sabem?... Eu conto. Eu hoje falo de tudo, que há coisas que não se podem guardar para sempre. A Milene estava grávida do baterista, mas não sabia. Mas depois soube, porque a barriga lhe inchava e pronto, estas coisas têm sempre explicação. O Gonçalo Frota não gostou de saber que não era o pai da criança e saiu de casa - eles já estavam a viver juntos, nos Olivais Sul, num T1 miserável, quarto andar sem elevador, ou coisa assim (ah!, a "fama", dizia ela...). Sem dinheiro, sem amigos, sem instrumentos, sem banda e sem Frota, Milene temeu pelo seu futuro. Decidiu desmanchar o que o bateria fecundara com tanta paixão - e que poderia ter sido criado por matéria minha! A operação correu mal e Milene foi encontrada duas semanas mais tarde, sobre a cama ensanguentada, com um espeto na mão direita e o rosto, já tolhido e em putrefacção, mas denotando arrependimento e conservando a expressão congelada de um último olhar aflito. Não nasceu ninguém e duas pessoas morreram - a fama, eis o seu preço! Entretanto, Gonçalo Frota subiu na vida e hoje assina com o nome todo, em vez das iniciais por baixo dos trechos mal copiados a partir da agência Lusa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No funeral de Milene, a diva, conversei com os membros que restavam dos Nome Curioso. Fizemos umas jam's, mais tarde, e bebemos cervejas. Tempos depois, pouco restava de toda esta tragédia. A vida avança, as pessoas evoluem, crescem, às vezes esquecem. Mas, se há imagens que ficam, a de Milene apagada é uma delas. O rosto, semi-reconstruído e sem vida, simbolizando o vazio que veio ao mundo quando o espeto que segurava na própria mão a esventrou com violência, raiva e desespero. Ser um ídolo não é fácil e nem todos somos fortes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7968895259239235952?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7968895259239235952/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7968895259239235952&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7968895259239235952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7968895259239235952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/11/publicacao-excepcional.html' title='Publicação excepcional'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8695754004092386100</id><published>2009-10-23T17:30:00.002+02:00</published><updated>2009-10-23T19:31:09.646+02:00</updated><title type='text'>A Coitadinha</title><content type='html'>(A noite passada, eu tive este sonho.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;Coitadinha sou eu, há mais de dez anos, fechada dentro desta cabeça e destas paredes.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;Would you please take your unfortunate and miserable reality the fuck out’a here?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;Coitadinha sou eu, há mais de dez anos, fechada dentro desta cabeça e destas paredes. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E, repetindo a frase como que rezando, assim se foi A Coitadinha, trôpega e alheada, por entre os pinheiros, devagarinho. E eu senti a mais dolorosa compaixão por aquela mulher de cabelo amassado, a reclamar um banho que há muito que tarda, de olhar azul e ausente, enlouquecida, vestindo uma bata de mulher do campo por cima das outras roupas e calçando uns botins de borracha encarnados. E o homem, um homem enorme e desconhecido, que estava comigo, de olhos lacrimosos e voz embargada, “&lt;em&gt;you shall never, ever, pity her... it’s even worse&lt;/em&gt;”.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8695754004092386100?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8695754004092386100/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8695754004092386100&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8695754004092386100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8695754004092386100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/10/coitadinha.html' title='A Coitadinha'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-4403879253646312230</id><published>2009-10-21T20:11:00.002+02:00</published><updated>2009-10-21T20:48:45.765+02:00</updated><title type='text'>Uma Vida a Dois</title><content type='html'>Eram daquelas pessoas que faziam muitos planos. Desde sempre e desde o mais pequeno detalhe. As coisas planeavam-se com minúcia, com rigor e com intenção de cumprir. Faziam planos e guardavam segredos. Eram pessoas herméticas e rigorosas, portanto. Este texto não é para ser lido nem interpretado. Estou apenas a juntar notas sobre combinações potencialmente trágicas para um pequeno conto sobre pessoas que gostam uma da outra e que vão ter um final inevitavelmente infeliz. Há personagens cujo fado é incontornável. Nasceram para estar erradas. Estas duas são um pouco diferentes. Erradas, erradas não estão. O que é que, na conjugação, matemática e metafisicamente, a equação humana dá erro. Do tipo, e estamos no campo das suposições: ele planeava a meias com ela percorrer as estradas desertas do Sul de Espanha, como nos filmes de estrada americanos. Queriam um carro descapotável, um chapéu de caubói, um auto-rádio com leitor de CD’s, para poderem ter uma banda sonora à Tarantino ou à Sergio Leone. Levavam notas à solta num saco desportivo para pagarem a estadia em motéis de beira da estrada. Uma máquina fotográfica digital e uma lomo fish-eye, para registarem a severidade do deserto agreste. Eles chamavam-lhe “solenidade” - havia ali qualquer coisa de impor respeito. E levavam mapas, vários mapas. Um caderninho com nomes de estalagens. Um violão, uma faca de mato e um pequeno revólver, para eventuais necessidades de resolver imprevistos. E uma pá no porta-bagagens. A pá é fundamental. Tudo isto, planeado e anotado entre os dois.&lt;br /&gt;Porém, em segredo, ele planeava levá-la até, por exemplo, El Choro (que é para enfatizar o dramatismo) e, uma vez chegado, negociar com os ciganos locais. Negociar o quê? Negociá-la a ela. Ela, para o efeito, deve ter atributos físicos de notar à primeira vista. Não pode ser feia, não pode ser gorda. Tem que ter pinta. Em segredo, ele trocara já telefonemas (a partir de um telefone público) e fizera envio de diversas fotos actualizadas dela. O acordo estava firmado. O preço estabelecido levava muitos zeros e eu não posso agora gastar caractéres. No acordo entrelia-se “fazem com ela o que quiserem; podem cortá-la aos bocadinhos e fazer paelha, se vos aprouver”.&lt;br /&gt;Mas, ela, por seu lado, planeava, também nos seus segredos, um projecto de vida diferente daquele que ambos haviam sonhado ao longo de meses e meses, sempre tomando notas e verificando mapas e organizando extractos de conta e comprando chapéus e CD’s de canções à caubói. Na verdade, ela não era mulher de um homem só. Viajada nos tempos de juventude, deixara em muito sítio o seu perfume e cicatrizes. Mas cicatrizes também ela as trazia. E uma delas fora feita em Almería. Por um gitano de nome Paco. Que dançava flamenco. E cantava com voz grossa e muito alta e batia palmas. Ela trocara com Paco alguns telefonemas. Ela também ia à cabine telefónica – mas ia a outra, para não se cruzar com ele. E é este o encanto do casal. De tão rigorosos e espertos que eram, sabiam há muito um do outro que se guardavam segredos. E sabiam, um do outro, que o outro também sabia disso. Nunca, porém, haviam tocado no assunto. Mantinham-no em segredo. Portanto, e por cautela – vá lá, também por respeito e, quiçá, para manter ilusões -, faziam questão de ir à rua “só fazer uma coisa”, à mesma hora, mas em pontos opostos do quarteirão. É de notar que ambos suspeitavam, ambos temiam, ambos tinham maus pressentimentos. Mas, diz o povo, “quem não tem telhados de vidro que atire a primeira pedra” (isto na Bíblia não era nada assim, não havia telhados de vidro). Nenhum deles se atrevia a acusar ou a tirar dos segredos a suspeita. Ela enviara a Paco o seguinte, no último envelope: sete fotografias dele (tipo passe, meio corpo, corpo inteiro, perfil, etc.), todas actualizadas; um mapa itinerário; um “plano B” que passava por Sevilha; 250 euros para comprar a pistola (o revólver ia sempre no cinto dele); e uma pequena nota onde se lia “a pá levamos nós... te quiero, gitano”. &lt;br /&gt;Chegou o dia, a viagem começou. Pararam um pouco dpois de Badajoz, numa bomba de gsaolina de beira de estrada, daquelas estações de serviço desertas onde param camionistas para dormir a sesta. Ela foi à casa-de-banho (fugiu pela janela e correu correu correu até que saltou para dentro de uma camioneta carregada de fruta e aí se instalou, entre maçãs e pêssegos; a camioneta ia para Mérida). Ele ia “só fumar um cigarro, enquanto esperava” (assim que ela saiu, largou o carro e apanhou boleia na direcção contrária; a boleia foi oferecida por um casal de emigrantes portugueses na Suíça – aliás, ele era português; ela era suíça – que, em Madrid, se confundiram com as direcções e, como não encontraram a tabuleta que dizia Vilar Formoso, vieram andando andando andando... como estavam cá em baixo, iam aproveitar para conhecer Lisboa e ver a Expo; ele saiu em Elvas, agradecido e aliviado).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-4403879253646312230?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/4403879253646312230/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=4403879253646312230&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/4403879253646312230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/4403879253646312230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/10/uma-vida-dois.html' title='Uma Vida a Dois'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8057759209755944125</id><published>2009-10-14T13:52:00.002+02:00</published><updated>2009-10-14T13:59:30.215+02:00</updated><title type='text'>Diálogo cardíaco</title><content type='html'>-O meu coração é um anormal sem cérebro.&lt;br /&gt;-Hum... onde é que queres chegar? Não estou a receber a fotografia...&lt;br /&gt;-Ãhn?!&lt;br /&gt;-Not getting the... esquece. Continua. O teu coração...&lt;br /&gt;-... é desmiolado. É um inconsequente. Enquanto me encanto através do cérebro, a coisa vai bem. Medem-se as qualidades, apreciam-se os traços. Enfim, uma pessoa até sente que amar é humano. Agora, quando desce para o coração, está o caldo entornado.&lt;br /&gt;-Estás apaixonado.&lt;br /&gt;-Eu, não. Ele é que está. É palpitações, é desejos, é apertos, é suspiros...&lt;br /&gt;-Mas isso é bom. O teu coração é o teu lado emocional. É a pureza.&lt;br /&gt;-O meu coração é o aviso! Quando dispara, significa: perigo! Cuidado! É um palerma.&lt;br /&gt;-Que palerma? Olha, para um músculo carnudo, é até bem esperto. Controla ventrículos, tráfegos de veias e artérias, pulsa com cadência, aumenta ou diminui o ritmo consoante a dinâmica da situação. O teu coração é um maestro.&lt;br /&gt;-E também tenho arritmias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8057759209755944125?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8057759209755944125/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8057759209755944125&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8057759209755944125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8057759209755944125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/10/dialogo-cardiaco.html' title='Diálogo cardíaco'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-6617384402001657914</id><published>2009-10-12T22:25:00.001+02:00</published><updated>2009-10-12T22:25:42.207+02:00</updated><title type='text'>De faca e garfo</title><content type='html'>Segurar na alma é como segurar num garfo. Há regras para manuseá-lo, mas eu, que nunca tive etiqueta, nunca sei quais são os modos correctos. Também nunca sei a que me vai saber aquilo que vem lá na ponta. O que me salva é a faca. Que corta. Cortar é bom. Desfazer as coisas, dividi-las em pedaços, torná-las pequenas, mastigáveis, assimiláveis, digeríveis.&lt;br /&gt;Às vezes o garfo parece escorregar das mãos. Não querer lá estar. Não querer ser arma de caça para o que pretendo trespassar de um só golpe, não querer ser cúmplice da faca dilacerante, não querer fazer daquele gajo possante que agarra no outro pobre que vai levar socos no estômago sem poder ripostar. Até sangrar. Por dentro e pela boca, também.&lt;br /&gt;Às vezes isso da alma é um objecto que escorrega e me sai das mãos. E depois fico a pensar “ai, se aquilo me cai e se estraga tudo” e o pior é se aquilo cai e, sem que se estrague, já fica fora de mim, ali longe. E nem com um garfo a apanho. E depois? A alma, quando cai, já não se lhe pega. É como a vida. Passa uma vez e puff. O resto são memórias e expectativas por concretizar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-6617384402001657914?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/6617384402001657914/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=6617384402001657914&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6617384402001657914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6617384402001657914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/10/de-faca-e-garfo.html' title='De faca e garfo'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3809202978161796881</id><published>2009-09-22T19:02:00.002+02:00</published><updated>2009-09-22T19:26:47.874+02:00</updated><title type='text'>O papel da chumbada na afirmação da superioridade humana</title><content type='html'>Esta noite tive um sonho dengoso em que tu aparecias, como que surgida de um pop-up. E passeavas comigo fazendo uso de todos os ingredientes cliché de um filme romântico de domingo à tarde. Eu gosto dos filmes românticos de domingo à tarde, desde que sejam comédias cor-de-rosa. Gosto da história de amor que acaba bem e que tem graça. Prefiro as outras, as negras, que acabam mal e que têm malícia (dispenso bem as tragédias e as lágrimas pedinchadas), mas não ao domingo à tarde.&lt;br /&gt;No sonho, desfilávamos com suavidade pela passerélle central – por que não dizê-lo: única – de Porto Côvo. E por ruas que, na verdade, não existem em Porto Côvo (algumas assemelhavam-se aos corredores ao ar livre da minha escola C + S, quando ainda era C + S: finos pilares de ferro pintados de vermelho que sustentavam os frágeis telhados de telhas de cimento que tinham a missão, sempre mas sempre frustrada, de nos abrigar da chuva). Faziamo-lo com ternura e à-vontade, como se a nossa vida tivesse sido sempre assim e aquele momento ali não fosse apenas uma meia-dúzia de fotogramas de um fim-de-semana ou de umas férias curtas.&lt;br /&gt;Com a tarde mais amadurecida, sei que te convidei para tomar uns últimos raios de sol, agora que o Verão se esvai. Disseste que sim. No sonho estávamos sempre de acordo. Descemos à praia grande e estava vento e o céu encoberto. Foi então que sugeriste com a tua doçura “que tal se formos àquela pequenina?”. No sonho não me lembrei, o meu onirismo não é enciclopédico: esse areal minúsculo e cercado por escarpas cinzentas chama-se Praia dos Buizinhos. Concordei sem hesitar. Mas então aconteceu algo surpreendente: eu fui por um caminho de escarpas, junto ao mar. Tu deixaste-me ir mas não arriscaste o mesmo trilho. Subiste, foste pela calçada junto à estrada. E íamos falando, embora mais distantes. Quase a chegar à praia pequenina, deparei-me com quatro pescadores, sincronizados e alinhados, todos muito parecidos e vestidos daquilo a que chamamos, por toda a parte, um pescador. Preparavam-se para fazer os seus lançamentos, esticavam as canas atrás das costas, as chumbadas pendiam pesadas e balouçantes e os anzóis, lá mais à ponta, flutuavam com a aragem, ostentando inseguros minhocas que ainda se contorciam – e eu nem sei se as minhocas têm dores, mas não deve ser agradável ter um ferro curvo a atravessar-nos do esófago ao ânus. Pensei nas dores hipotéticas das minhocas e dei comigo a imaginar aquela ponta arpoada a espetar-se em mim. Ainda que não me atravessasse, haveria de fazer-me dores. Os pescadores ensaiaram o lançamento e o da ponta, aquele mais próximo de mim, fez o que eu temia: o fio passou demasiado perto e o anzol colheu-me dois dedos, os dois indicadores, e não sei agora explicar isto por palavras, precisava de papel e lápis para fazer um desenho e mostrar-te a figura absurda de uma pessoa que fica de mãos presas por ter sido colhida por um anzol que nem à água chegara. E logo nos dois indicadores, os dedos que indicam o caminho e mandam calar e pedem a conta. Pensei que fosse doloroso retirar o anzol da carne. Na vida real, aposto que é – e sei que o é, eu já cravei um debaixo da unha do polegar direito. Depois, tive de golpear a minha própria carne para que o anzol se desprendesse. É que, quando a ponta do anzol se enterra por completo, o pequeno arpão fica preso e só tem duas maneiras de ser retirado: ou puxando com força, o que o fará rasgar o tecido que atravessa; ou cortando o tecido para que o anzol se solte. No sonho, retirei o anzol recorrendo apenas à minha habilidade e a alguma paciência e tu não me ajudaste. Ou ajudaste? Neste momento do sonho concentrava-me apenas no anzol, nos peixes e nos pescadores. Os pescadores que quase me pescavam e que atiravam para longe as chumbadas na ponta dos fios. Estavam a pescar ao fundo. As chumbadas na pesca ao fundo são mais pesadas do que, por exemplo, os pequenos chumbos da pesca à bóia. Isto são coisas que aprendi com o povo e com o meu pai. Os nomes técnicos podem bem não ser estes. O papel da chumbada neste tipo de pesca é mesmo assentar no fundo do mar. É por isso que ela não está na ponta do fio. A ponta do fio é para o anzol. Os pescadores são muito engenhosos. Assim, a chumbada assenta no fundo, deixando que o anzol, com o seu isco espetado na ponta, fique mais solto e flutuante, ainda que preso. Imagina: a linha fica esticada até à chumabada; mas depois fica flexível, da chumbada até ao anzol, o que permite que o isco se bamboleie sensualmente diante de sargos, douradas, robalinhos ou das menos higiénicas taínhas (dá para pescar uma taínha enrolando um penso rápido em torno do anzol). A pesca desportiva serve, no fundo, para o ser humano afirmar a sua superioridade relativamente aos peixes. É uma espécie de tourada, mas com menos sangue, menos público e menos coragem. O pescador está ali para enganar o peixe acenando-lhe com uma minhoca ou outra coisa que possa apetecer à bicharada aquática. O peixe abocanha o isco e o pescador ri-se, satisfeito, pensando “enganei mais um!”. Estamos a falar de bichos que têm uma memória de escassos segundos e um Q.I. provavelmente impossível de medir, de tão diminuto que é. Mas uma pessoa não consegue deixar de sentir um certo orgulho por ser superior. De orgulhar-se da sua condição, vá. A gente deita o anzol com um isco; o peixe vai e morde e fica agarrado debaixo da língua ou por dentro da bochecha ou no céu da boca, e aquilo deve doer-lhe, mas um peixe não tem quatro patas, um peixe não é coisa que se leve a passear à rua, um peixe não faz muita falta vivo, a gente até já se habituou a ver os peixes encaixotados, congelados, abertos, arranjados, pendurados ou mesmo às fatias dentro de sacos da Pescanova. Um peixe serve para ser pescado e ser comido. &lt;br /&gt;Depois, quando acordei, fiquei a pensar no sonho. Nisso de ser pescado. E de quem pesca o quê. Quem lança o isco na ponta do anzol. Eu gostava de ser pescador e, pessoalmente, acho que tens um ar bem suculento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3809202978161796881?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3809202978161796881/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3809202978161796881&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3809202978161796881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3809202978161796881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/09/o-papel-da-chumbada-na-afirmacao-da.html' title='O papel da chumbada na afirmação da superioridade humana'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8755015424729331691</id><published>2009-07-21T16:14:00.001+02:00</published><updated>2009-07-21T16:14:57.854+02:00</updated><title type='text'>Isto não é Hollywood</title><content type='html'>A gente vive na cidade enganada, a gente nem sabe onde é que mora.&lt;br /&gt;Todos os dias a gente pensa que hoje é que é o dia e que este é que é o sítio onde as coisas acontecem. Mas aqui não acontecem coisas, acontecem só imitações das coisas.&lt;br /&gt;Isto não é Hollywood, bebé. Isto não é Hollywood.&lt;br /&gt;A gente aqui a pensar que cria obras-primas e a gente só cria ranço, bafio e nojo. A gente faz mais falta e dá mais jeito nas obras públicas do que nas obras-primas.&lt;br /&gt;Viemos para a cidade a julgar que era grande, afinal isto é pouco mais que pequeno. Porque é sempre igual e está sempre longe das cidades de verdade, das metrópoles a sério, com gente a sério. Gente daquela que importa.&lt;br /&gt;A gente aqui a contentar-se com colinas e com o Tejo. Mas a gente sonhava era com gins tónicos de fim de tarde em Sunset Boulevard, a ver passar os artistas, “olha, vai ali o Johnny Depp... anda cá, bebe um com a gente”. A gente gostava era de dizer adeus e boa tarde à Natalie Portman. A gente queria mesmo era flirtar com a Scarlett Johanssen na padaria. O que a gente adorava ter um pontiac descapotável ou um hummer como os das séries de investigação criminal ou um chevrolet do tamanho de uma camioneta de carga, com uns cornos de barrosã – mas das americanas – lá à frente.&lt;br /&gt;E ficar ali, estar na moda, esperar pacientemente pelo dia em que a vida muda, em que vale a pena ter nascido, vale a pena ter tido borbulhas na adolescência, vale a pena ter falhado, ter perdido, ter sofrido, ter chorado, ter acordado outra vez, todos os dias. Porque ali as coisas acontecem mesmo. Ali a vida pode mudar um dia.&lt;br /&gt;Agora aqui é sempre a mesma pobreza, a mesma desistência. Até as vitórias são forjadas. E nem as derrotas são feitas de dor genuína.&lt;br /&gt;Como é que uma pessoa pode sentir dores a sério se isto, nada disto é a sério, nada acontece, e as coisas que surgem são imitações das verdadeiras coisas?&lt;br /&gt;Isto não é Hollywood, bebé....&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8755015424729331691?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8755015424729331691/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8755015424729331691&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8755015424729331691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8755015424729331691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/07/isto-nao-e-hollywood.html' title='Isto não é Hollywood'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7842948146159069678</id><published>2009-03-30T16:37:00.001+02:00</published><updated>2009-03-30T16:43:53.125+02:00</updated><title type='text'>Consulta no doutor</title><content type='html'>-Doutor, tenho o corção amassado. Pior ainda: perfurado. Parece que o atiraram ao chão.&lt;br /&gt;-Vou lhe receitar uma coisa.&lt;br /&gt;-Uma coisa?&lt;br /&gt;-Sim, um coisa: comprimidos.&lt;br /&gt;-Ah...&lt;br /&gt;-Funciona assim: pega na lamela, tira um e só um de cada vez...&lt;br /&gt;-Sim...&lt;br /&gt;-Pega num copo com água, mete o comprimido na boca e dá um gole na água...&lt;br /&gt;-Hum?&lt;br /&gt;-Pois, que é para ir tudo junto.&lt;br /&gt;-Ah...&lt;br /&gt;-Percebeu? Comprimido, água... engolir.&lt;br /&gt;-Certo. E isso cura-me o coração?&lt;br /&gt;-Não sei. Eu sou apenas médico. Limito-me a cumprir a minha função: receitar coisas.&lt;br /&gt;-Sim, compreendo.&lt;br /&gt;-Devia estar contente. Saiu-lhe comprimidos. Acho muito sofisticado.&lt;br /&gt;-De facto.&lt;br /&gt;-Xarope ou supositórios... ui, muito pior.&lt;br /&gt;-Acredito. Eu nisto tenho pouca experiência. Só aviei receitas uma vez e já foi há muito tempo.&lt;br /&gt;-E era o quê?&lt;br /&gt;-Era vacinas. Não gostei.&lt;br /&gt;-E com toda a razão. Vacinas é muito mau.&lt;br /&gt;-Então e quando acabarem os comprimidos? Imagine que o coração ainda me dói...&lt;br /&gt;-Hum... mas isso dói muito?&lt;br /&gt;-Sim... bastante.&lt;br /&gt;-Então compre duas caixas. Para durar mais tempo. E tome... olhe, várias vezes ao dia.&lt;br /&gt;-Várias? Mas várias quantas?&lt;br /&gt;-Sei lá, várias. Isto são comprimidos. Comprimidos não fazem mal. Tome várias vezes ao dia, um de cada vez.&lt;br /&gt;-Certo.&lt;br /&gt;-Melhor ainda: parta o comprimido ao meio e tome só metade de cada vez. Mas não se esqueça de tomar o dobro das vezes.&lt;br /&gt;-Er... portanto, o dobro de várias vezes, em doses com metade do tamanho?&lt;br /&gt;-Hum... pois. Suponho que sim. Olhe, as melhoras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7842948146159069678?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7842948146159069678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7842948146159069678&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7842948146159069678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7842948146159069678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/03/consulta-no-doutor.html' title='Consulta no doutor'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-5796064937794132934</id><published>2009-03-03T14:09:00.002+01:00</published><updated>2009-03-03T14:21:04.045+01:00</updated><title type='text'>Poesia Lamechas</title><content type='html'>às vezes&lt;br /&gt;apetece-me dizer-te coisas que já muita gente disse e escreveu&lt;br /&gt;há milhares de ideias amorosas por aí&lt;br /&gt;nas paredes dos subúrbios&lt;br /&gt;e nos livros&lt;br /&gt;algumas escritas há mais de mil anos&lt;br /&gt;com edição em capa dura&lt;br /&gt;que já quase ninguém lê&lt;br /&gt;só professores&lt;br /&gt;e alguns alunos de línguas e literaturas&lt;br /&gt;outras escritas ontem à noite&lt;br /&gt;com spray das lojas dos chineses&lt;br /&gt;em abreviaturas neo-logísticas&lt;br /&gt;com estrangeirismos à mistura&lt;br /&gt;mas é bonito quando uma pessoa está apaixonada&lt;br /&gt;porque se lê aquilo "Tânia o meu heart é td teu" e se pensa&lt;br /&gt;"oh, que romântico"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o meu coração não é todo teu&lt;br /&gt;nem um pouco só&lt;br /&gt;mas há outras coisas que o são:&lt;br /&gt;o meu tempo&lt;br /&gt;o meu pensamento&lt;br /&gt;o meu amor&lt;br /&gt;a minha espera&lt;br /&gt;a minha impaciência&lt;br /&gt;o meu desejo&lt;br /&gt;e uma ou outra peça de roupa esquecida aí em casa&lt;br /&gt;mais a minha escova de dentes&lt;br /&gt;que costumava ser do campismo&lt;br /&gt;e que agora está no copo do teu lavatório&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu também penso coisas bonitas e queridas&lt;br /&gt;só por causa de ti&lt;br /&gt;por exemplo&lt;br /&gt;gosto de ser a tua companhia&lt;br /&gt;mesmo quando estás a fazer as tuas coisas e não me ligas nenhuma&lt;br /&gt;e eu pego num livro e leio&lt;br /&gt;ao teu lado&lt;br /&gt;ou quando, como agora, pego no caderno e escrevo&lt;br /&gt;enquanto trabalhas no computador&lt;br /&gt;gosto de te fazer companhia&lt;br /&gt;mesmo quando não dás por isso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;também gosto de te sorrir quando estás triste&lt;br /&gt;aquele sorriso parvo&lt;br /&gt;a que normalmente não resistes&lt;br /&gt;e te faz sorrir de volta&lt;br /&gt;saber que não resistes é algo que me faz feliz&lt;br /&gt;às vezes resistes&lt;br /&gt;mas se nunca resistisses o amor seria um grande tédio&lt;br /&gt;como uma operação matemática simples:&lt;br /&gt;eu sorrio = tu derretes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;também gosto de cozinhar para ti&lt;br /&gt;e de escolher vinho e bebê-lo contigo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-5796064937794132934?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/5796064937794132934/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=5796064937794132934&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5796064937794132934'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5796064937794132934'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/03/poesia-lamechas.html' title='Poesia Lamechas'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' 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vira&lt;br /&gt;Para onde se desce&lt;br /&gt;E descendo para depois subir&lt;br /&gt;Chego a casa&lt;br /&gt;Instantâneo e vago&lt;br /&gt;Como uma lâmpada acidental&lt;br /&gt;Aceso só por acaso&lt;br /&gt;Incandescente só por resistência&lt;br /&gt;Eléctrico&lt;br /&gt;Mas não tanto quanto o 28&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venho de Alfama&lt;br /&gt;Mas venho mal apagado&lt;br /&gt;Trago no bolso beatas&lt;br /&gt;Ainda por acender&lt;br /&gt;Perto da cama&lt;br /&gt;Estou cada vez mais acamado&lt;br /&gt;Descalços os sapatos, as meias&lt;br /&gt;Dispo os trapos que visto&lt;br /&gt;E desentendo tudo o que houver para entender&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2217086064204494921?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2217086064204494921/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2217086064204494921&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2217086064204494921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2217086064204494921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/02/subir-rua-da-voz-do-operario.html' title='Subir a Rua da Voz do Operário'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-7445175266460535486</id><published>2009-01-06T17:53:00.002+01:00</published><updated>2009-01-06T20:52:24.350+01:00</updated><title type='text'>O Balanço de 2009</title><content type='html'>(&lt;em&gt;Prólogo&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De 2008 não fiz balanços&lt;br /&gt;Esqueci-me.&lt;br /&gt;Faz de conta que foi um ano estático, quietinho&lt;br /&gt;Sem altos nem baixos&lt;br /&gt;Sempre a direito&lt;br /&gt;Sempre com a mesma cadência&lt;br /&gt;Como palavras sempre iguais&lt;br /&gt;Tipo não não não não&lt;br /&gt;Ou sim sim sim sim&lt;br /&gt;E agora já é 2009 e é tarde demais&lt;br /&gt;Para acrescentar palvras como “porém”&lt;br /&gt;Ou outras mais esquisitas&lt;br /&gt;Das boas e das más&lt;br /&gt;Porque o ano já acabou&lt;br /&gt;O que não é mau porque, afinal, veio outro a seguir&lt;br /&gt;Como os autocarros.&lt;br /&gt;Então&lt;br /&gt;E antes que me esqueça&lt;br /&gt;Vou fazer um balanço de 2009&lt;br /&gt;Para trás e para a frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Para Trás&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Algarve era muito bonito&lt;br /&gt;Mas choveu mais do que era preciso&lt;br /&gt;Já lá havia muita água&lt;br /&gt;- ia dali até Marrocos e mais abaixo ainda, à África do Sul, e por aí fora, até bater no gelo&lt;br /&gt;Mas era bonito na mesma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Algarve era igual em 2008 e em 2009&lt;br /&gt;Menos nas garrafas vazias dentro dos sacos do Minipreço&lt;br /&gt;Nas beatas acumuladas nos cinzeiros&lt;br /&gt;Nos confetis espalhados pelo alpendre&lt;br /&gt;No cansaço&lt;br /&gt;E nos queijos que ainda faltava comer&lt;br /&gt;- confesso: fui eu que comi o resto do chili&lt;br /&gt;Era madrugada e eu tinha muita fome&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois ela veio&lt;br /&gt;Porque era ano novo&lt;br /&gt;E tínhamos de dar beijos novos um ao outro&lt;br /&gt;Como já déramos no ano anterior&lt;br /&gt;Mas mais adaptados&lt;br /&gt;Como se as bocas fossem ergonomicamente concebidas para se encaixar&lt;br /&gt;E os lábios se ouvissem e vissem&lt;br /&gt;Como os morcegos vêem, ouvindo o que mais ninguém ouve&lt;br /&gt;(havia morcegos no Algarve, eu vi)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela deu-me a prenda de Natal que faltava&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;Livro do Desejo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Foi o Leonard Cohen, que é cantor, que o escreveu&lt;br /&gt;Gosto muito&lt;br /&gt;O Cohen canta quase tão bem quanto escreve&lt;br /&gt;O que é dizer muito&lt;br /&gt;Tanto do que escreve quanto do que canta&lt;br /&gt;Acho que o Cohen&lt;br /&gt;Perdão, o senhor Cohen escreve um pouco melhor que eu&lt;br /&gt;Não tem vergonha nas palavras&lt;br /&gt;Mas tem habilidade para ser sem-vergonha&lt;br /&gt;E nunca é vulgar&lt;br /&gt;Por mais que seja malicioso ou explícito&lt;br /&gt;Porque é inteligente&lt;br /&gt;E a inteligência impede-nos de ser gratuitos&lt;br /&gt;- a não ser quando escrevemos para blogues públicos ou deixamos os nossos álbuns para &lt;em&gt;download&lt;/em&gt; gratuito autorizado&lt;br /&gt;Mas isso é um gratuito diferente&lt;br /&gt;Não-pornográfico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela escreveu uma bela dedicatória na primeira página&lt;br /&gt;Aquela que ainda não é página do livro&lt;br /&gt;É apenas resguardo da escrita que lá vem&lt;br /&gt;Antes do título&lt;br /&gt;Antes da tiragem&lt;br /&gt;Antes do &lt;em&gt;copyright&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Antes do nome do autor e das dedicatórias que ele faz&lt;br /&gt;Antes daquelas coisas todas em itálico&lt;br /&gt;Que só gastam é papel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a página que ela escreveu não gasta nada&lt;br /&gt;- gosto muito do livro&lt;br /&gt;Porém, bastava-me aquela não-página&lt;br /&gt;Com a dedicatória bela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa tarde fomos ver Tavira&lt;br /&gt;E aquele jardim lá dentro das muralhas velhas do castelo&lt;br /&gt;Atravessámos o rio a pé&lt;br /&gt;Não como Jesús Cristo&lt;br /&gt;Fomos por cima da ponte&lt;br /&gt;Por uma questão de bom senso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E íamos ver o Inferno&lt;br /&gt;Que também era do outro lado do rio&lt;br /&gt;Mas que ficava, dizem, lá num pêgo&lt;br /&gt;- não sei o que é um pêgo&lt;br /&gt;Não sei o que é o Inferno&lt;br /&gt;Mas vi a tabuleta na rotunda da A22&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabámos por não ir&lt;br /&gt;Chovia demais&lt;br /&gt;A ponte era estreitinha&lt;br /&gt;Tivemos receio de cair ao rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois ela foi-se embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde fomos ver o mar, as dezenas de âncoras na areia e a carcaça de um barco&lt;br /&gt;Já meio desfeita&lt;br /&gt;Era na praia do Barril&lt;br /&gt;Devem ter feito o barril com a madeira que falta no barco&lt;br /&gt;Voltámos num comboio muito infantil&lt;br /&gt;Cheio de crianças a cantar cantigas do estilo das que eu cantava quando andava no ATL e ia para a praia no Verão&lt;br /&gt;Éramos muitos&lt;br /&gt;Eu às vezes não sabia as cantigas&lt;br /&gt;Porque não tinha andado no infantário&lt;br /&gt;E os outros todos tinham e sabiam-nas, de uma ponta à outra&lt;br /&gt;Sentia-me um pouco info-excluído.&lt;br /&gt;Mas hoje sei cantigas que eles não sabem&lt;br /&gt;Muitas delas até sou eu que as invento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte voltámos.&lt;br /&gt;Pelo meio do caminho, fui comer arroz de polvo.&lt;br /&gt;Feliz coincidência: foi na terra onde a beijei pela primeira vez.&lt;br /&gt;Estava uma delícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já com o Algarve na memória&lt;br /&gt;Voltei á realidade normal das coisas&lt;br /&gt;Cheio de desejo de o fazer&lt;br /&gt;Fechei-me no estúdio&lt;br /&gt;Com a guitarra e os outros dois&lt;br /&gt;Fizemos barulho e tocámos&lt;br /&gt;Saímos contentes&lt;br /&gt;Não nos esquecemos de nada&lt;br /&gt;Há que preparar o futuro próximo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela regressou para perto de mim&lt;br /&gt;E a quadra natalícia&lt;br /&gt;Tão farta em distâncias e tristezas e saudades&lt;br /&gt;Transformou-se de súbito num curto interregno&lt;br /&gt;Num espaço de memória curta&lt;br /&gt;Num lapso&lt;br /&gt;Uma curta e estreita ponte, como a do Inferno do Algarve,&lt;br /&gt;Que a gente até podia ter atravessado depressa&lt;br /&gt;Para o lado que interessava.&lt;br /&gt;Esta atravessámos&lt;br /&gt;Já estamos do lado que interessa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Para a frente&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero que ela fique perto de mim&lt;br /&gt;E quero fechar-me no estúdio e fazer barulho e tocar com os outros dois&lt;br /&gt;Subir a muitos palcos e fazer o mesmo&lt;br /&gt;Passear com ela na rua&lt;br /&gt;Mesmo em ruas que não sejam habitualmente as nossas.&lt;br /&gt;Só isso, mais nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-7445175266460535486?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/7445175266460535486/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=7445175266460535486&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7445175266460535486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/7445175266460535486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2009/01/o-balano-de-2009.html' title='O Balanço de 2009'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-8563428588274966571</id><published>2008-12-04T17:15:00.000+01:00</published><updated>2008-12-04T17:16:19.887+01:00</updated><title type='text'>Poesia de quinta-feira</title><content type='html'>Era quinta-feira e ela ia-se embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se isso fosse poético&lt;br /&gt;Peguei-lhe na mão e disse-lhe para não ir.&lt;br /&gt;Ela encolheu os ombros&lt;br /&gt;Como se tivesse de ser&lt;br /&gt;E nós, ali no meio do amor, nunca compreendemos isso das necessidades&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse-lhe&lt;br /&gt;“a mim, não faz falta nenhuma que vás&lt;br /&gt;“nem tenho gosto na tua partida&lt;br /&gt;“nem acho graça a angústia de ficar assim à espera”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela disse que não me angustiasse&lt;br /&gt;Porque volta depressa&lt;br /&gt;E as angústias fazem dores de barriga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu sorri porque achei graça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-8563428588274966571?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/8563428588274966571/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=8563428588274966571&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8563428588274966571'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/8563428588274966571'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2008/12/poesia-de-quinta-feira.html' title='Poesia de quinta-feira'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-778871254911115629</id><published>2008-04-16T18:28:00.001+02:00</published><updated>2008-04-16T18:29:27.653+02:00</updated><title type='text'>Poesia roquenrole</title><content type='html'>às vezes escrevo com lixo nas palavras&lt;br /&gt;dizem&lt;br /&gt;reclamam que sujo a poesia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não peço desculpa&lt;br /&gt;a culpa não é minha&lt;br /&gt;se a sujidade vem ao de cima&lt;br /&gt;como se fosse roquenrole&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o lixo também pode ser lírico, contraponho&lt;br /&gt;e exponho o ponto de vista&lt;br /&gt;rebuscando entre os detritos&lt;br /&gt;como um solista de guitarra distorcida&lt;br /&gt;e fidebéques espremidos&lt;br /&gt;apaixonado pelo ruído&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não encontro argumentos&lt;br /&gt;que me defendam a perspectiva&lt;br /&gt;e não me preocupo com isso&lt;br /&gt;são sentimentos dissonantes&lt;br /&gt;resultantes de comportamentos&lt;br /&gt;e agora não tenho rima&lt;br /&gt;portanto, comportamentos&lt;br /&gt;e rima não rima com porra nenhuma também&lt;br /&gt;voltamos aos comportamentos&lt;br /&gt;de alguém&lt;br /&gt;finalmente! eis que rimei&lt;br /&gt;alguém que não liga muito à lei&lt;br /&gt;da poesia em geral&lt;br /&gt;e da escrita limpinha em particular&lt;br /&gt;mas de um modo global&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ena.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-778871254911115629?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/778871254911115629/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=778871254911115629&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/778871254911115629'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/778871254911115629'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2008/04/poesia-roquenrole.html' title='Poesia roquenrole'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-591461303600379721</id><published>2008-03-05T18:31:00.001+01:00</published><updated>2008-03-05T18:31:33.720+01:00</updated><title type='text'>A permanente</title><content type='html'>O médico disse que a lesão era permanente. Não percebeu. Não sabia o que isso queria dizer. Permanente era aquilo que a mulher fazia ao cabelo nos anos '80, disso ele lembrava-se. Por agora, tudo o que sabia era que a perna estava presa, se mexia mal e, sobretudo, que lhe doía ali por baixo do joelho. Coisa estranha acordar assim, num dia ao acaso, e ter uma coisa destas na perna, uma permanente.&lt;br /&gt;Desceu a longa escadaria do hospital como se regressasse do pico do Evereste, com muito cuidado, muito custo e pouco fôlego. Deviam era pôr ali um escorrega para pessoas com permanentes nas pernas. Rai'spartam as doenças, a velhice, os hospitais e os arquitectos. E os engenheiros. Doutores? Doutores o tanas! De que lhes vale um canudo se não sabem o que fazem. Noutros tempos, uma quarta classe valia mais do que um "doutor".&lt;br /&gt;Enfim, chegou à porta, doeram-lhe as costas. Hesitou. Tinha de ir apanhar o 30, para Sapadores. Mas já que estava ali, bem que podia inteirar-se da situação. Parou, apoiado na bengala improvisada que trazia. Devia estar a meditar sobre o assunto. Ir? Não ir? Voltar para trás? Tomou uma decisão e cuspiu para o chão como quem o assume o decidido: voltou para trás para "ver que dor é esta". Chegou-se ao guichet e a senhora, que era jovem e bem-parecida, solteira, ainda por cima, atendeu-o com paciência "olá, senhor António... então, outra vez?" e ele "ah... é das costas. Dói-me as costas". "DoEM-lhe. É plural, senhor António". António não fazia a menor ideia do que é que seria plural naquela situação. Seria ele? Gente nova, pfff... Complicadinhos. Pelo sim, pelo não, acenou que sim "pois...". "Espere só um bocadinho, está bem?". António esperou, então.&lt;br /&gt;Enquanto esperava, doeu-lhe a garganta. Que chatice. Tossiu. Doeu-lhe mais ainda. Levantou-se, a custo, com a lentidão das coisas enferrujadas, dirigiu-se ao novamente ao guichet. "Olhe" disse. "Diga, senhor António... que se passa agora?". "É que dói... doem-me a garganta". A rapariga riu. "Não se ria, é uma dor muito séria". A rapariga segurou o riso, recompôs-se "desculpe, senhor António, não foi por mal... Mas agora vai ter de aguardar mais um pouco, está bem?".&lt;br /&gt;Passou algum tempo, António esperava sentado num banco da sala de espera e já nem se lembrava do que esperava. Estava num estado semi-adormecido, algures entre os pensamentos da vida, as lembranças do passado e a anestesia do sono. Os olhos fechavam-se lentamente e logo se abriam, num exercício repetitivo, cíclico. Lembrou-se do 30 para Sapadores, de ir para casa. Levantou-se, doeu-lhe o joelho. "Ah, isto é a permanente" disse baixinho, pondo-se a si mesmo ao corrente do seu próprio estado clínico. "Doutores..."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-591461303600379721?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/591461303600379721/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=591461303600379721&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/591461303600379721'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/591461303600379721'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2008/03/permanente.html' title='A permanente'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-2443120351027421168</id><published>2008-02-08T21:35:00.000+01:00</published><updated>2008-02-08T21:37:06.035+01:00</updated><title type='text'>Poema de sexta-feira</title><content type='html'>vou fumar um cigarro&lt;br /&gt;à janela&lt;br /&gt;a ver os automóveis&lt;br /&gt;e a semana a acabar de uma maneira feia, gasta&lt;br /&gt;cheia de buzinas&lt;br /&gt;gente engarrafada e rádios a que ninguém presta atenção nenhuma&lt;br /&gt;as sextas-feiras têm a particularidade de serem tão aborrecidas quanto os outros dias&lt;br /&gt;mas encaramo-las com uma esperança pueril&lt;br /&gt;há qualquer coisa em nós a latejar "bairro alto! bairro alto!"&lt;br /&gt;e se não são as têmporas, há-de ser o pâncreas&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-2443120351027421168?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/2443120351027421168/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=2443120351027421168&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2443120351027421168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/2443120351027421168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2008/02/poema-de-sexta-feira.html' title='Poema de sexta-feira'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-6136201682509207258</id><published>2008-01-17T21:06:00.000+01:00</published><updated>2008-01-17T21:09:09.324+01:00</updated><title type='text'>Tarantino e o Cobarde Robert Ford</title><content type='html'>O que têm em comum &lt;em&gt;À Prova de Morte&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford&lt;/em&gt;? Absolutamente nada. Daí que seja tão fácil compará-los e estabelecer as diferenças aos mais variados níveis. Começando pelo contexto em que os vi: o primeiro, em casa, em DVD; o segundo, no cinema.&lt;br /&gt;Enquanto no caso do &lt;em&gt;(...) Cobarde Robert Ford&lt;/em&gt; - sim, porque o filme não é tanto sobre a lenda Jesse James quanto sobre o processo que conduziu ao seu (inevitável?) homicídio - o espectador deve preparar-se para assistir a uma longa narrativa, recheada de pausas e contemplações, até se chegar a um desenlace que já é conhecido à partida, em &lt;em&gt;À Prova de Morte &lt;/em&gt;o mesmo espectador deve abastecer-se com pipocas, Coca-Cola e uma enorme vontade de não pensar. Um filme é a história para além da imagem, o outro é a imagem, sem história, apenas acontecimentos em catadupa. Isto faz de &lt;em&gt;Cobarde Robert Ford&lt;/em&gt; melhor do que &lt;em&gt;À Prova de Morte&lt;/em&gt;? Não o creio. Até porque um filme deve ser avaliado levando em conta o objectivo a que se propõe. E, nesse aspecto, Tarantino atira-se explícita e inequivocamente ao revivalismo do género &lt;em&gt;grindhouse&lt;/em&gt;, saindo-se bastante bem. Se olharmos para &lt;em&gt;À Prova de Morte&lt;/em&gt; no panorama "Tarantino", será, sem dúvida, uma obra menor. Mas se contextualizarmos a obra levando em conta o que o seu autor pretendia inicialmente, então estamos perante aquilo a que se chama "um g'anda filme": entretém, tem ritmo e tem, sobretudo, os (bons) tiques que distinguem Tarantino dos demais: excelente gosto estético, grande banda sonora e, imagine-se isto num &lt;em&gt;grindhouse movie&lt;/em&gt;, aqui e ali, diálogos de grande nível. Já para não falar na coolness típica dos filmes do autor, em que cada personagem, tal como cada par de botas ou cada acender cigarro, é pejada de estilo, de carácter vincado que transborda até ao ecrã, de personalidade a deitar pelos poros, pelos cabelos, pelos gestos, pelo mascar de uma pastilha. Temos ainda a mestria com que é filmado - os ângulos, a velocidade, as pausas estritamente necessárias à ambiência (porque não se pode falar em adensamento do enredo, quando o enredo é um palito...), à introdução do espectador ao objecto que, dentro de instantes, irá contemplar. Este virtuosismo ganha tanto mais quanto menos é pretensioso. Três estrelas (*** de 0 a 5) para &lt;em&gt;À Prova de Morte&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Voltemos ao &lt;em&gt;Cobarde Robert Ford&lt;/em&gt;. Tenho a dizer, antes de tudo, que Casey Affleck vale cada minuto da fita. É genial, mas um genial tão detestável que faz com que maus da fita como Kevin Spacey, em &lt;em&gt;Os Suspeitos do Costume&lt;/em&gt;, ou Edward Norton, em &lt;em&gt;A Raiz do Medo&lt;/em&gt;, pareçam gente pouco séria. Começa por nos fazer sentir um profundo desprezo pela sua personalidade fraca, que é agravada pela sua latente ambição desmedida. Mas um desprezo que chega ao ponto de se transformar em pena. Nesta fase, Jesse James é, sem dúvida, o seu ídolo ou até mesmo a sua paixão platónica. Mas, aos poucos, a sua paixão platónica passa a ser o seu objectivo ("Tu queres ser como eu ou queres ser eu?", atira Jesse James a certa altura). E nesta metamorfose gradual, nem sempre bem gerida pelo realizador Andrew Dominik (a dinâmica do filme poderia ser muito melhor, bem como o desenvolvimento das personagens), Robert Ford (Affleck) vai, aos poucos, ganhando a sua própria personalidade - tão fraca quanto no início da história; mas muito mais distante do Jesse James que então imaginava. É notável a forma como o "cobarde" se transforma num ser humano - cheio de fraquezas, é certo, mas humano. O mais fácil seria matar Jesse James e fazer de Ford um ser apenas mau e fraco. Mas Affleck traz a Ford a dignidade e a humanidade que a história nunca lhe reconheceu. Do outro lado, temos Brad Pitt, em mais um excelente desempenho - embora algo sobrevalorizado em algumas apreciações. Pitt é um Jesse James em declínio, a um passo da loucura, que encontra (descobre? procura? desenterra de? inventam em?) no pobre e fraco Ford o seu maior fã e o seu natural inimigo - aqui também poderia ter divergido para um caso típico de "discípulo que quer superar o mestre", mas as rédeas são bem seguras; mais uma vez, prevalece o lado humano sobre o lado mítico. Pitt está em forma e passa ao lado do estereótipo "Pitt sex-symbol", entregando-se à pele de um homem fora de comum, mas também ele repleto de fraquezas (se calhar James e Ford não eram assim tão diferentes, no íntimo). O seu carácter é forte, o nome, que o precede em cada conversa, trá-lo sempre sob a forma de mito. Mas Jesse James (Pitt) mostra que também é homem. Talvez por isso mesmo se entregue deliberadamente à morte - duas interpretações, no mínimo: quereria tornar-se no mito definitivo ou revelar a sua humanidade e a sua fragilidade? Talvez tenha conseguido as duas coisas. A primeira, pelo menos, foi sobejamente conseguida.&lt;br /&gt;De um modo geral, pode dizer-se que o filme é bom. Porém, Dominik perde-se, por vezes, em conversas inócuas e deambulações metafísicas que pouco ou nada acrescentam, ficando o trabalho de evolução das personagens praticamente entregue ao (enorme!) talento de Affleck e de Pitt. A própria duração do filme é exagerada - e para quê tantas paisagens, tantas nuvens a passar, tanta gente a fitar tantas vezes o vazio? O tempo passa, já se sabe, e a técnica acaba por não conseguir eliminar a necessidade de recorrer às legendas para situar o espectador no espaço e no tempo da acção. Ainda assim, *** para o &lt;em&gt;Cobarde Robert Ford&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-6136201682509207258?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/6136201682509207258/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=6136201682509207258&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6136201682509207258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/6136201682509207258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2008/01/tarantino-e-o-cobarde-robert-ford.html' title='Tarantino e o Cobarde Robert Ford'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-5856849056626374074</id><published>2008-01-17T19:55:00.000+01:00</published><updated>2008-01-17T21:40:53.945+01:00</updated><title type='text'>II Era do Restos</title><content type='html'>Para além dos esboços de contos e das experiências semi-poéticas, acrescentam-se tentativas de críticas a música, cinema e, quiçá, a televisão ou livros, juntamente com outras banalidades como dissertações sobre o quotidiano, o amor ou os flagelos que assolam o planeta. Por exemplo, o cheiro a enxofre que ontem provocou o pânico em Lisboa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-5856849056626374074?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/5856849056626374074/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=5856849056626374074&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5856849056626374074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/5856849056626374074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2008/01/ii-era-do-restos.html' title='II Era do Restos'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-3968049953032825032</id><published>2007-12-14T18:31:00.000+01:00</published><updated>2007-12-14T18:32:16.996+01:00</updated><title type='text'>Mensagem de Natal</title><content type='html'>Eu não gosto muito do Natal. A história do bacalhau e isso ainda vá. A reunião das famílias também é uma coisa boa, especialmente quando se vive longe da família. A lareira acesa - para quem tem a sorte de ser endinheirado e ter lareira - também é bonito e faz lembrar os filmes. Mas quem reúne apenas uma parte da família separada, em redor de um aquecedor a óleo ou a gás, olha para as batatas, para o azeite, para as couves e não consegue deixar de se sentir deprimido e de pensar "falta aqui qualquer coisa". Sim, o bacalhau. Mas não só. Falta algum sentido. Falo de um sentido verdadeiro e unânime. Equilibrado sobre a razão de ser e os bons motivos para se sentir o tal "espírito natalício".&lt;br /&gt;Nesta altura do ano, as pessoas são compelidas a lembrar-se de quem é pobre e de quem está só e de quem precisa de ajuda - e estas ajudas vão desde os donativos para transplantes ou para tratamentos obscenamente caros até às recolhas de fundos para a casa que se perdeu num desastre natural na América Central ou num desastre com gás natural em Setúbal. Escrito assim, até pode parecer coisa ligeira. Mas não é. Esta propaganda natalícia tem defeitos que abomino. Nem falo da tradicional hipocrisia e do aproveitamento da quadra - "compre mais embalagens de Cerelac que a gente dá 20% aos pobrezinhos de um bairro de barracas a designar e aumenta as vendas em 12%, o que nos permite realizar uma diminuição de 0,2% nos despedimentos de Dezembro" -, que até pode ter como lado positivo relembrar consciências com posses na algibeira - antes uma vez por ano do que vez nenhuma. O que mais me enerva e chega a deprimir é esta espécie de sentimento de culpa que se distribui por cada um de nós e que logo se apaga com um novo slogan publicitário - "ajude quem precisa, mande fraldas para a morada X" seguido de uma Leopoldina que tem montes de brinquedos novos e espectaculares, made in China com mãozinha de obra, seguida de um compacto com imagens comoventes de crianças barrigudas e cheias de fome seguido do novo telemóvel de uma marca estrangeira com modelo exclusivo para uma empresa portuguesa e utilizado exclusivamente por gente universal, cosmopolita, bonita, sorridente e bem vestida, feliz da vida. Eu não tenho dinheiro para telemóveis com câmaras de filmar e piscina. Eu posso partilhar dessa culpa natalícia e social pelo mal dos chamados "desfavorecidos", mas infelizmente não tenho como compensá-los pelo meu pecado que é fazer parte desta sociedade injusta (poderia haver aqui egoísmo; mas prefiro chamar-lhe "instinto de sobrevivência"). Eu não suporto a Leopoldina nem a outra, a Popota. Eu não vou à Missa do Galo porque não sou Católico e, como respeito os católicos, não frequento os seus espaços sagrados só porque é costume. Eu não gosto muito do Natal. Mas, ainda assim, e como é tradição cantar-se nesta altura do ano em tudo quanto é coluna de tudo quanto é centro comercial, desejo a todos um bom Natal. Sinceramente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-3968049953032825032?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/3968049953032825032/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=3968049953032825032&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3968049953032825032'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/3968049953032825032'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2007/12/mensagem-de-natal.html' title='Mensagem de Natal'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115531089191708363</id><published>2006-08-11T17:40:00.000+02:00</published><updated>2006-08-11T17:41:31.930+02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>agora que te meti o dedo na boca&lt;br /&gt;quero que contes até três&lt;br /&gt;um&lt;br /&gt;dois&lt;br /&gt;três&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não consegues falar com o meu dedo na tua boca?!&lt;br /&gt;vamos ter chatice&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mudemos a situação:&lt;br /&gt;vamos fingir que agora não tens o meu dedo na tua boca&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115531089191708363?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115531089191708363/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115531089191708363&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115531089191708363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115531089191708363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/08/agora-que-te-meti-o-dedo-na-boca-quero.html' title=''/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115505841628813712</id><published>2006-08-08T19:32:00.000+02:00</published><updated>2006-08-08T19:33:36.303+02:00</updated><title type='text'>Poema de Verão</title><content type='html'>contigo quero escrever poesias&lt;br /&gt;feitas de carne e saliva&lt;br /&gt;suspiros, espasmos e gemidos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no líquido obsceno do teu corpo&lt;br /&gt;vou deglutir uma epopeia devassa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e vou pegar-te o peito todo&lt;br /&gt;como se um teu seio&lt;br /&gt;fosse a curva redonda&lt;br /&gt;mais recôndita e inacessível&lt;br /&gt;deste universo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a ponta da tua mama&lt;br /&gt;fosse o bico obscuro&lt;br /&gt;que vai para lá de tudo&lt;br /&gt;e não se pode agarrar&lt;br /&gt;apenas beijar e lamber com o pensamento&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115505841628813712?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115505841628813712/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115505841628813712&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115505841628813712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115505841628813712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/08/poema-de-vero.html' title='Poema de Verão'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115463026793231619</id><published>2006-08-03T20:31:00.000+02:00</published><updated>2006-08-03T20:37:47.933+02:00</updated><title type='text'>A minha presença</title><content type='html'>neste 'porto' acaba aqui&lt;br /&gt;A todos os leitores um muito obrigada&lt;br /&gt;Joana Vaz&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115463026793231619?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115463026793231619/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115463026793231619&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115463026793231619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115463026793231619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/08/minha-presena.html' title='A minha presença'/><author><name>JBV</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115273248699705454</id><published>2006-07-12T21:27:00.000+02:00</published><updated>2006-07-12T21:28:07.013+02:00</updated><title type='text'>O rapaz que pensou na vida</title><content type='html'>Só lhe apetecia ser o capitão Jack Sparrow e imaginava-se a navegar e a naufragar entre as pessoas da cidade, uma cidade repleta de vacas pintadas de cores esquisitas. Desejou ser um bêbado fiel ao rum e aos cânticos de piratas desastrados. Enquanto desejava isto e aquilo e se inventava no porão de um navio fantasma, as pessoas tiravam fotografias às vaquinhas e faziam-lhes festas. E ele de vez em quando vinha à tona como quem vem à realidade.&lt;br /&gt;O destino, por vezes, prega partidas às pessoas. E, desta vez, a partida do destino foi não ter surpreendido ninguém. Daí a sua deriva. Acordou com um telefonema e nesse telefonema vinha uma notícia: o avô morrera. O avô, o patriarca. O primeiro, a origem, a raiz de uma determinada variante da existência humana. E, sobretudo, da sua existência. Por estranhos caminhos, o destino fizera cumprir a ordem natural dos acontecimentos na sua vertente cronológica: o avô fora o primeiro a morrer em todo o clã. E morrera já com os seus oitenta e muitos anos. Quiçá, noventa e tais. Ninguém sabe ao certo a idade das pessoas velhas. Ele, pelo menos, não sabia. E pensava nisso e só lhe apetecia não pensar em nada, ir só por ali, como se o vento lhe empurrasse o corpo ou o navio ou a razão. Não gostava de pensar nestas coisas da vida e tudo o que queria era parar e beber uns valentes copos. Talvez chorar. O avô morrera de quê? Provavelmente, de estar gasto. De estar farto. Uma pessoa vive mas isso cansa um bocado.&lt;br /&gt;Enquanto não pensava em nada disto com teimosia, percebeu certas coisas. Percebeu que até a vida dos velhos pode ser curta. Isso afligiu-o. Não por esta morte específica desta pessoa determinada. Mas pelo que faltava. Faltava ali qualquer coisa. Por que é que lhe apetecia chorar se o velhote morreu de idade, quem sabe de obstinação, de vontade própria? Provavelmente, porque não se cumpriu em relação ao avô, porque não se deu à vivência desse mesmo avô como agora percebia que poderia ter-se dado. Os avôs morrem e as coisas que ficaram por fazer não desaparecem, mantêm-se como assombrações, fantasmas chatos que transtornam o pensamento todo a uma pessoa. E até as emoções se fragilizam em casos destes. Ele costumava ser uma pessoa calma, descontraída e com a certeza de que estava vivo - embora nunca aprofundasse esse assunto em demasia. Mas agora essa maneira de estar sofrera um torção, um abalo. No mínimo, um puxão de orelhas daqueles que fazem as pessoas ficar próximas do chão.&lt;br /&gt;Talvez o que o incomodasse enquanto as pessoas passavam por ele, enquanto a cidade não queria saber dele tal como nunca quisera, enquanto as vacas coloridas estavam para ali a pastar coisa nenhuma sobre o cimento, a calçada, o alcatrão e o lixo, fosse apenas esse puxão de orelhas. E chorou um bocado. Sentou-se e chorou. Achou-se mais ou menos ridículo, talvez um pouco fraco, por estar a chorar, assim, no meio da rua, por nada, com toda a ignorância de toda a gente a ser-lhe paralela - a ele e ao que sentia nesse preciso momento. Porque sentia perda. Um certo vazio. Não aquela saudade que se diz que as pessoas sentem quando alguém morre. Para isso ainda não tivera tempo. Sentia se calhar a falta do patriarca. Da referência. Como se sentisse a ilusão da eternidade a fugir-lhe, assim, de repente, a mostrar-lhe que não existira nunca. Caramba, se o patriarca, aquele que era velho e não morria, havia morrido, então também ele se sujeitava à finitude da mortalidade. O que é regra para uns, é regra para todos - sempre assim fora na família. E, pela primeira vez em toda a sua existência, achou que, de um certo modo, era possível que a sua existência fosse efémera.&lt;br /&gt;Limpava as lágrimas às mangas do casaco e perguntava-se "ó João, quanto humano é que tu és?" e percebia que ainda não sabia como responder a isto. O avô fora humano, isso percebia-se: tivera prole, genes a derivar pelo cosmos, um corpo que fizera coisas e que agora se aprestava para alimentar a terra. Isso é coisa de humano. Mas e ele? João, que nunca fizera muito e sempre pensara pouco, o João das redomas longe do mundo, a fingir que navegava como um pirata amaldiçoado, ainda se surpreendia com esta sua perspectiva: "humano, eu?!".&lt;br /&gt;Mas a pior verdade que se entrelaçava na cabeça de João e quase a asfixiava era esta: ele não sabia o que fazer. A família estaria, por certo, já toda reunida em torno de um caixão com o pedaço morto do homem que o avô fora. E ele não. À ideia veio-lhe uma conversa também velha que tivera com um amigo. A certa altura, o outro dissera-lhe que, nas alturas difíceis, o que mais importa é "estar lá". Na altura, a coisa não lhe fez grande sentido. Mas neste dia isso do "estar lá" ganhava uma nova forma e uma outra profundidade. Estar lá com os seus, a ser mais humano e finito em redor do patriarca que os originara a todos. Comoveu-se com a imagem e decidiu juntar-se ao clã. Sentiu algum conforto na ideia de não estar sozinho. E sentiu outro conforto por não deixar os outros sozinhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115273248699705454?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115273248699705454/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115273248699705454&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115273248699705454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115273248699705454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/07/o-rapaz-que-pensou-na-vida.html' title='O rapaz que pensou na vida'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115091341941263285</id><published>2006-06-21T20:10:00.000+02:00</published><updated>2006-06-21T20:10:19.433+02:00</updated><title type='text'>A Beata da Sé</title><content type='html'>Vai em transe, Maria José,&lt;br /&gt;tão devota em penitência,&lt;br /&gt;pelas naves da velha Sé&lt;br /&gt;arrastando a existência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem palavras, pé ante pé,&lt;br /&gt;de agravada subserviência&lt;br /&gt;tão pequena Maria José,&lt;br /&gt;sem alma, corpo ou pertinência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o chão sagrado que pisa a medo&lt;br /&gt;fica indiferente ao polimento.&lt;br /&gt;É o chão calado que, em segredo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;guarda os pecados do pensamento&lt;br /&gt;que Maria José em pobre enredo&lt;br /&gt;arruma em passos de arrependimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115091341941263285?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115091341941263285/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115091341941263285&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115091341941263285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115091341941263285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/06/beata-da-s.html' title='A Beata da Sé'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115082641022574806</id><published>2006-06-20T19:59:00.000+02:00</published><updated>2006-06-20T20:00:10.246+02:00</updated><title type='text'>Um poema qualquer</title><content type='html'>és o meu choro de impaciência&lt;br /&gt;és o mergulho&lt;br /&gt;a corda&lt;br /&gt;a forca&lt;br /&gt;o alçapão sob os meus pés nervosos&lt;br /&gt;e és o mundo que me observa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu sou o ser&lt;br /&gt;tu o vencer&lt;br /&gt;és o suor&lt;br /&gt;a noite e o prazer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;és fantasia que eu visto ao deitar&lt;br /&gt;melodia contorcida&lt;br /&gt;e dor&lt;br /&gt;a fingir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;és a cítara&lt;br /&gt;a guitarra&lt;br /&gt;o som&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;és a fúria da manhã&lt;br /&gt;a noite vã&lt;br /&gt;o divã nocturno&lt;br /&gt;o tecto falso&lt;br /&gt;o chão caído&lt;br /&gt;o tombo obtuso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;és fêmea&lt;br /&gt;a pétala que entristece&lt;br /&gt;a queda outonal&lt;br /&gt;a chuva miudinha&lt;br /&gt;o dia descoberto à lupa&lt;br /&gt;todo sujo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115082641022574806?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115082641022574806/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115082641022574806&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115082641022574806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115082641022574806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/06/um-poema-qualquer.html' title='Um poema qualquer'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115074420398931517</id><published>2006-06-19T21:09:00.000+02:00</published><updated>2006-06-19T21:10:04.003+02:00</updated><title type='text'>A Viagem</title><content type='html'>Esta cidade cheira mal&lt;br /&gt;vamos embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Para onde vamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;podemos ir para o Alasca&lt;br /&gt;no pico de uma estação intermédia qualquer&lt;br /&gt;apanhamos um autocarro&lt;br /&gt;um comboio a vapor&lt;br /&gt;ou vamos a pé&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O ar está pesado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sim, o ar está húmido&lt;br /&gt;o céu está escuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Quando é que partimos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vamos esperar o sol bolorento de amanhã&lt;br /&gt;o arrepio matinal&lt;br /&gt;de acordar e não ter caminho&lt;br /&gt;de calçar as meias lavadas na máquina de lavar nova&lt;br /&gt;de comer um pastel de nata à pressa&lt;br /&gt;e tomar o autocarro em vez do café&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vamos aguardar que chegue o cansaço&lt;br /&gt;numa bruma feia&lt;br /&gt;a saturação da chuva&lt;br /&gt;o frio da lareira que já está gasta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas vamos para onde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;também já pensei nas praias primitivas&lt;br /&gt;onde até os cocos são pobres&lt;br /&gt;e as ondas são minúsculas&lt;br /&gt;a água será quente&lt;br /&gt;e não dará para beber&lt;br /&gt;mas dá para tomar banho&lt;br /&gt;e os peixes serão extremamente violentos&lt;br /&gt;- quase tanto quanto os transeuntes da cidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas não me sai da cabeça o Alasca&lt;br /&gt;e o seu escamudo&lt;br /&gt;mas tu não gostas do Alasca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Odeio o frio e o Alasca é longe demais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não vamos para o Alasca, pronto!&lt;br /&gt;partiremos talvez sem rumo&lt;br /&gt;que o desconhecido é um lugar imenso&lt;br /&gt;leva meias e cuecas de reserva - podemos demorar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;leva o álbum de fotografias&lt;br /&gt;do teu baptismo&lt;br /&gt;eu levo as do meu&lt;br /&gt;leva as últimas lágrimas da família&lt;br /&gt;as últimas palavras dos amigos&lt;br /&gt;leva o toque das paredes da casa&lt;br /&gt;o cheiro do quintal das traseiras&lt;br /&gt;o ruído engasgado da campainha - podemos ficar por lá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;quando desceres&lt;br /&gt;traz o saco do lixo e as garrafas para pôr no vidrão&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115074420398931517?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115074420398931517/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115074420398931517&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115074420398931517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115074420398931517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/06/viagem.html' title='A Viagem'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-115048371900371755</id><published>2006-06-16T20:46:00.000+02:00</published><updated>2006-06-16T20:48:39.016+02:00</updated><title type='text'>Santo António: as quase memórias</title><content type='html'>Não é fácil acordar e ver coisas estranhas à volta. As paredes, que não se reconhecem, os armários, que não são os nossos, a cama, quando a há, que até parece desconfortável. No entanto, desta vez acordei no chão. A desarrumação e a estranheza pouco me incomodaram. Olhei em volta. Uma mulher seminua em cima de mim e outra, um pouco mais composta, um pouco mais ao lado. Havia mais gente espalhada pela casa. Pelos sofás, pelo chão. E eu pensei "boa, o Santo António correu bem". Não sei muito bem como, de que forma calhou que corresse bem. Mas essas coisas pouco importam. O que interessa mesmo é um gajo acordar e ficar feliz com o aspecto do mundo. E o meu mundo, naquele momentozinho em que acordei, pareceu-me uma maravilha "boa, restos festim..." No entanto, o caso mudou rapidamente. Tudo se transfigurou num ápice. Por descuido lembrei-me de pensar "epá, devo estar de ressaca" e foi como se a cabeça me rebentasse cá dentro e várias catástrofes naturais e mesmo artificiais fizessem Lisboa inteira convulsionar-se lá fora. Só me apeteceu cair no chão, cair no fundo da rua, num buraco qualquer, de uma maneira que parecesse que nada daquilo existia, nada era real. Vesti-me, lavei a cara e saí. A cidade estava cinzenta e meio deserta. E parada ou quase. É curioso como, numa altura do ano em que se quer sol e aquela cor entre o dourado e castanho que atrai tantos turistas, Lisboa se apresenta cinzenta e estagnada. Ou então era da minha cabeça. Já não sei muito bem onde me acabava o mundo e me começava a cabeça e vice-versa. Para mim o planeta inteiro estava de ressaca. E cheirava a ressaca. Uma pessoa nem se apercebe mas as próprias pedras da rua transpiram sardinha, cerveja e sangria. Isto não é uma coisa simpática de se cheirar num dia de ressaca profunda em que o que vem a calhar é o alheamento, o retiro, uma salada leve, o esquecimento. Coca-Cola. Mas nada disso existe. Gente pesada, vagarosa e indecisa arrasta a ressaca pelo empedrado e abrimos as narinas e é como se nos entrassem cardumes de sardinha assada pela cabeça dentro e então descobrimos que também nós somos gente pesada, vagarosa e indecisa. Gente confusa. Gente em caos. "Restos" pensei eu outra vez. E os cães comiam as espinhas das sardinhas e côdeas de pão, coisas que tinham conseguido escapar à fúria glutona do povo festivo. Raramente se comem as espinhas, sim. "Mas as côdeas marcham bem" acrescentei, mas só para mim, no pensamento. Apeteceu-me pontapear um pombo, que também devia estar de ressaca. Claro que estava! Não havia ser vivo na região que não estivesse. Portanto, o pombo estava. Mas corri e quando corri fraquejei, cambaleei e ele, filho da puta, riu-se e arrancou. A correr. Acho que não foi bem assim, mas não tenho uma recordação muito nítida. Por falar nisso, a miúda - a miúda do princípio da história, a seminua, essa miúda - era espanhola, já me lembro. "Fixe, mais uma internacionalização" e ri-me para dentro. Desta vez acho que deitei um bocadinho de riso por fora. Chamava-se Rita. Acho eu, sei lá. Nem sei se interessa muito. Lembro-me dela dizer "ar-ren-ti-na! Soy ar-ren-ti-na!!!" e eu de dizer que "a mim soa-me tudo espanholito... olé!" e ela a ficar danada e eu a agravar a situação "tortilha..." e a rir-me e a argentina que... espera aí, agora, pensando bem, devia ter um nome mais argentino - devia chamar-se Concépcion ou Conchita ou uma coisa assim do género. Para ficar mais fácil, chamava-se Lola, pronto. Ao menos é quase tão universal como Maria. Embora com pior fama e currículo. "Lola e se a gente?..." e ela a fazer-se de desentendida e chateada e várias coisas ao mesmo tempo "la renté o quê?" e eu a ficar atrapalhado claro. Mas como tinha bebido uns copos, desinibi-me com facilidade "pá... chiquitita, let's get physical" e lembro-me que nessa altura ela se riu. Acho que foi aí que a conquistei. Riu-se assim como as pessoas raramente riem. Com surpresa, com doçura. Com encanto. Demos beijos logo ali à frente de toda a gente e depois a coisa deve ter corrido dentro do curso normal das coisas. Isto, embora a casa estivesse cheia de gente. De qualquer maneira, andávamos todos ao mesmo. E até duvido que as outras pessoas nunca tivessem visto a Lola toda nua. Por isso... Mas para quê a gente ralar-se com estas coisas? Estava tudo bêbado. Hoje ninguém se lembra de nada. Nem eu próprio sei se isto foi mesmo assim ou não. Devia ter ficado com o número de telefone dela. Para tirar dúvidas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-115048371900371755?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/115048371900371755/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=115048371900371755&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115048371900371755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/115048371900371755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/06/santo-antnio-as-quase-memrias.html' title='Santo António: as quase memórias'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114925788259345972</id><published>2006-06-02T16:15:00.000+02:00</published><updated>2006-06-02T16:18:02.606+02:00</updated><title type='text'>Era quase uma vez no Oeste</title><content type='html'>O verão parecia que nunca mais acabava. O sol queimava a pele. Parecia que até queimava a paisagem. As longas planícies, de perder de vista, todas amarelas. Búfalos a pastar, ruminando com calma e desinteresse, de cabeça baixa. Os cavalos – os que ainda eram selvagens, não o meu, que era domado e obediente, embora um pouco distraído – passeavam, como se se exibissem, vaidosos. Mas o calor não lhes permitia grandes correrias. Vi uma carroça a vir na nossa direcção. Receei que fosse o Billy the Kid ou algum malvado da mesma espécie. Depois disse baixinho, para comigo “&lt;em&gt;antes o Billy do que mais uma cambada desses Sioux ou Apaches ou lá como raio se chamam os índios&lt;/em&gt;”. Caramba, o &lt;em&gt;Wild West&lt;/em&gt; era mesmo selvagem. Selvagem e quente. Preparei a pistola. Não, não era pistola. Era uma espingarda. Não, também não era isso. Era um revolver. Acho que era… Acho que não percebo muito de &lt;em&gt;cowboys&lt;/em&gt;. Quem é que eu quero enganar? Nunca poderei escrever como deve ser sobre índios e &lt;em&gt;cowboys&lt;/em&gt;. Da minha experiência, o mais parecido com &lt;em&gt;cowboiadas&lt;/em&gt; que eu vivi foi nos tempos em que andávamos à pedrada, lá na rua. Uma vez parti o nariz ao Migalha. Passámos a chamá-lo Migalha Vermelha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114925788259345972?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114925788259345972/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114925788259345972&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114925788259345972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114925788259345972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/06/era-quase-uma-vez-no-oeste.html' title='Era quase uma vez no Oeste'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114901355059568294</id><published>2006-05-30T20:25:00.000+02:00</published><updated>2006-05-30T20:25:50.616+02:00</updated><title type='text'>A frase que estava naquela parede</title><content type='html'>"Espíritos matavam mais de 200 pessoas por noite". Era assim que estava escrito, em letras grandes, ao estilo das palavras de ordem que outrora decoravam as paredes de Lisboa. Ele leu e agitou-se. Por um lado, ficou intrigado. Que raio quereriam dizer com aquilo? Espíritos a matar pessoas assim, todas as noites, em quantidades tão grandes? Por outro lado, ficou um pouco assustado. Será que os espíritos também atacavam naquela zona da cidade? E a qualquer hora da noite, indiscriminadamente? Este último pensamento ele não se limitou a pensá-lo. Foi de tal ordem perturbador que o disse baixinho. Ao aperceber-se de que falava entre dentes consigo mesmo, sorriu, um pouco envergonhado. Mas quais espíritos? Que disparate... Não deixou, no entanto, de acrescentar um quase inaudível "espero que não", em jeito de piada. Mas também com o seu quê de prece.&lt;br /&gt;Continuou. A noite estava quente. Abafada. Parecia que o ar nem se mexia. E, apesar de estar junto ao rio, respirava-se um ar seco. Enquanto caminhava em direcção ao bar, encaminhava também os pensamentos: que se lixem os espíritos assassinos. Pensou em Raquel. Como estaria vestida? Uma saia, um vestido leve. Um decote. Ó sim, por favor, um belo top decotado e, de preferência, que o peito se revelasse apertado. Como se estivesse espartilhado. E não era difícil espartilhar as mamas de Raquel.&lt;br /&gt;Entrou, procurou por ela. Estaria atrasada. Típico de Raquel. Mulher caprichosa. Sentou-se ao balcão, pediu uma caipirinha. O barman serviu-o. Parou, olhou-o e perguntou-lhe "sente-se bem?". E ele respondeu que sim. "É que está muito pálido". Encolheu os ombros. Que chatice. Estar com mau aspecto logo no dia em que Raquel aceitara finalmente o convite. E o convite fora arrojado. Para não dizer descarado. Portanto, Raquel, se sabia ao que ia e se aceitara o convite... é só juntar dois mais dois. "Neste caso, um mais uma". Sorriu com a sua própria piada. Fumou um cigarro. Ou, melhor, acendeu o cigarro e foi fumando. E bebendo a caipirinha. O barman aproximou-se. "Senhor, tem a certeza que se está a sentir bem?" e ele que sim, que tinha, estava de perfeita saúde. "É que... desculpe insistir, mas tem um pouco de... sangue... aí, no nariz". Levou o lenço de papel ao nariz e, de facto, confirmava-se. Sangue. Mas que diabo... O seu pensamento parou, então, por instantes. Na sua cabeça só existia aquela frase. Levantou-se, foi lavar a cara, tentar compor-se. Olhou-se ao espelho. O aspecto não era o melhor. Voltou ao balcão.&lt;br /&gt;Pediu mais uma caipirinha.&lt;br /&gt;-Ouça - dirigia-se ao barman. Sabe alguma coisa sobre a frase que está naquela parede?&lt;br /&gt;-Qual frase?&lt;br /&gt;-Bom, isto pode parecer uma coisa um pouco tola...&lt;br /&gt;-Nunca lá vi frase nenhuma.&lt;br /&gt;-A sério?! É um escrito grande... Diz "espíritos matavam mais de 200 pessoas por noite". Assim, só isto.&lt;br /&gt;O empregado pareceu um pouco incrédulo.&lt;br /&gt;-Nunca vi isso...&lt;br /&gt;-É... é estranha, não é? Por que raio iria alguém escrever uma coisa destas?&lt;br /&gt;-Só se for um maluquinho.&lt;br /&gt;Dito isto, o barman riu-se e continuou o seu trabalho.&lt;br /&gt;Ficava tarde. Acumulava já quatro copos de caipirinha à sua frente. O empregado já levantara dois. Raquel não chegava. Decidiu ir-se embora. Pagou e levantou-se. "Puta que pariu a Raquel... mulheres..." Não era fácil manter-se direito. Fez um esforço. Saiu. No caminho de regresso, antes de procurar um táxi, decidiu passar novamente pela parede. Leu a frase outra vez. "Os espíritos não existem". Deu um salto para trás. Esfregou os olhos e tentou ler uma vez mais "Os espíritos não existem", insistia a parede. Assustado e confuso decidiu caminhar um pouco antes de ir para casa. O seu coração batia de uma maneira completamente louca, num ritmo frenético e descompassado. Precisava de se acalmar. De Raquel nunca mais ninguém soube.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114901355059568294?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114901355059568294/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114901355059568294&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114901355059568294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114901355059568294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/frase-que-estava-naquela-parede.html' title='A frase que estava naquela parede'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114867137539630256</id><published>2006-05-26T21:22:00.000+02:00</published><updated>2006-05-26T21:25:45.990+02:00</updated><title type='text'>O luto</title><content type='html'>Todos foram passando pela cadeira. Ali, à mesa comigo. Primeiro o pai, desgostoso. Depois a mãe, desesperada. Por fim, a irmã, ainda incrédula. E eu ouvia. Às vezes chorava um pouco. Outras vezes embargava-se-me a voz. Tinha dificuldade em falar. Talvez não me apetecesse falar, simplesmente. Queria que se fossem embora mas em vez de lhes dizer isso, não, ficava a ouvi-los, a amparar-lhes as dores. Que iriam sentir tanto a falta dela, que não sei quê, que a Lurdinhas era a luz daquela casa e ainda tão nova, coitadinha, todo um coro imenso de choros, uma lista infinita de lamentações, tristezas profundas, desabafos fúnebres. E eu, que não falava, ou falava pouco, e de vez em quando chorava um bocadinho só conseguia pensar "&lt;em&gt;pois eu só queria que vocês se fossem todos foder! Era eu quem a aturava há dez anos! Era eu que dormia com ela há dez anos! Era eu que me punha nela há dez anos! Ou mais! E, principalmente, fui eu quem a perdeu e que agora estou viúvo!&lt;/em&gt;" Verdade seja dita: o ter-lhe tapado a cara com a almofada talvez tenha contribuído para a situação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114867137539630256?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114867137539630256/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114867137539630256&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114867137539630256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114867137539630256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/o-luto.html' title='O luto'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114857904538917570</id><published>2006-05-25T19:43:00.000+02:00</published><updated>2006-05-25T19:44:05.396+02:00</updated><title type='text'>O homem que estava sozinho</title><content type='html'>Queria casar. Comprar um carro, ir de férias, fazer filhos. Essas coisas. A idade, que não parava de avançar nem por um dia, avisava-o: aos 40, o melhor é fazer pela procriação. Não se tratava de um alarme biológico. Era mais pela dificuldade acrescida em arranjar parceira quando a testa se alonga pela cabeça dentro, quando os capilares que sobram se apresentam descolorados e frágeis, quando os abdominais outrora vincados dão lugar à protuberância arredondada de uma barriga de homem estável na vida. Ele não era estável. Nem ele nem a vida dele - ele era músico. Mas a barriga já a tinha. E os outros obstáculos também os possuía. Daí que, na sua perspectiva, o melhor fosse arranjar companhia, mesmo que fosse a de alguém de quem não gostasse particularmente. Importante era deixar descendência.&lt;br /&gt;Conheceu várias mulheres. Mas isso já ele conhecia antes de tomar esta decisão. Bom, conhecia mas não se deitava com todas. Agora, nesta fase, era assim: cada uma que conhecia, cada uma que tentava embrulhar nos lençóis. Mas andava azarado: em seis meses, apenas duas lhe entraram no quarto e, destas, apenas uma chegou à actividade propriamente dita. A outra arrependeu-se a tempo. E a primeira, a tal que se lhe enfiou na cama, também acabou arrependida - mas esta já com três ou quatro minutos de atraso.&lt;br /&gt;E ele desiludiu-se com a situação. Perante estes resultados, foi decidindo que tinha que tomar atitudes, mudar de vida, pôr-se melhor, recuperar o físico, quiçá, escolher um perfume adequado, usar camisas engomadas. Ou então fingir que não se passava nada e deixar-se estar. Só a ficar velho e sozinho e mais nada. Quando pensou nisto, não gostou da ideia, achou que era pouco e que era triste. Então, decidiu também voltar a fumar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114857904538917570?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114857904538917570/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114857904538917570&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114857904538917570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114857904538917570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/o-homem-que-estava-sozinho.html' title='O homem que estava sozinho'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114839805312583892</id><published>2006-05-23T17:24:00.000+02:00</published><updated>2006-05-23T18:31:57.846+02:00</updated><title type='text'>O contador do senúquer</title><content type='html'>Que o gajo estava inspirado e que lhe deu "&lt;em&gt;assim, de esguelha e ela vai, trau trau trau, três tabelas e lá dentro, no buraco do meio, parecia que a sacana da bola até abanava as ancas&lt;/em&gt;". Foi desta maneira que mo contaram. E não me admira que assim tenha sido. Ele no senúquer era mestre. Senúquer e imperiais. É certo que treinava muito. Pelo menos três noites por semana... E que "&lt;em&gt;metia a bola&lt;/em&gt;", sempre com classe e arrojo, "&lt;em&gt;e depois sorria, dava um gole na imperial, inchava o peito".&lt;/em&gt; E o outro &lt;em&gt;"anda lá com isso, que isto está a contar&lt;/em&gt;". O contador não pára para a gente se envaidecer. Ele sorria, ele alongava os gestos, ele beberricava a cerveja, pensava, repensava, olhava os ângulos, imaginava a força e, uma vez a postos, tuca. E a bola lá dentro. "&lt;em&gt;Uma maravilha, não falhava uma&lt;/em&gt;". E o outro já não estava a apreciar a brincadeira. O outro começou por morder os lábios, às tantas já fincava as unhas de uns dedos nos dedos vizinhos num jogo de mãos esquisito e porventura doloroso. Quando a impaciência e o mau perder já atingiam o limite, rangia os dentes. "&lt;em&gt;Estás a travar?&lt;/em&gt;" perguntava ele. E o outro rangia ainda mais, nervosinho. Certa jogada, já a derrota do outro ia pesada, estava o mestre a concentrar-se: apontava pacientemente à procura do ponto certo; o taco deslizava suave e leve, só a testar, em busca da medida certa para a velocidade e para a força; olhava as tabelas, não fosse uma solução melhor estar a escapar-lhe. E o outro, pela primeira vez durante a noite, sorriu. Depois falou. "&lt;em&gt;Tanta vaidade... tanta alegria... tanta fleuma... tudo por causa de um jogo&lt;/em&gt;". O taco abrandou o movimento, o olhar soergueu-se um pouco e deteve-se na expressão do outro, a ouvi-lo. O outro calou-se. Ele sorriu. Voltava a preparar a tacada. E o outro "&lt;em&gt;mas a tua vida... ai ai, se tu soubesses...&lt;/em&gt;". E ele pumba. A tacada saiu-lhe num impulso estranho, a bola aos trambolhões, tudo desajeitado. Parecia que tinha explodido - não de raiva mas de desorientação. "&lt;em&gt;Se eu soubesse o quê, pá?&lt;/em&gt;" Inquiriu em voz grossa. Enquanto o jogo se desmoronava ele não pensava em mais nada. Ainda a bola branca não entrara no buraco do canto e já ele fazia contas de cabeça: seria a mulher? Pois claro, só podia ser, andava a ser enganado. Aquela cabra! Não, espera... podia ser outra coisa. Haveria alguém doente na família? Ou dinheiro, alguma dívida... alguém que andasse falar mal pelas costas. Alguma coisa que lhe estivesse a escapar. Nahh... uma coisa destas só pode ser mulher. Com quem seria? "&lt;em&gt;Diz lá, cabrão, o que é que eu devia saber que não sei?&lt;/em&gt;" E o jogo todo espalhado sobre a mesa, todo desarrumado - logo o dele, que costumava ser tão metódico, lógico, quase simples. E o outro, encolhido e engolindo em seco "&lt;em&gt;saca bola que isto está a contar&lt;/em&gt;".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114839805312583892?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114839805312583892/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114839805312583892&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114839805312583892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114839805312583892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/o-contador-do-senquer.html' title='O contador do senúquer'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114830888444922501</id><published>2006-05-22T16:39:00.000+02:00</published><updated>2006-05-22T16:50:12.373+02:00</updated><title type='text'>O homem que comprava cigarros</title><content type='html'>A situação repetia-se: poucos minutos antes do jantar, ele chegava perto dela, que cozinhava, e dizia-lhe "&lt;em&gt;olha, vou comprar cigarros&lt;/em&gt;". Ela não gostava disso. Estremecia. Ficava nervosa, às vezes agarrava o cabo da colher de pau com mais força, como se o apertasse de raiva. Ou de medo. É difícil distinguir. Isto são coisas que se dizem, carecem de documentação ou comprovativo científico. Mas o certo é que o povo conta muitas histórias de gente que foi comprar cigarros e não voltou. Ela tinha medo que a sua história se tornasse em mais uma dessas que engordam os mitos e que um dia a vizinhança dissesse nas suas costas "&lt;em&gt;coitadinha, diz que o marido foi comprar cigarros... olha, até hoje&lt;/em&gt;". Mas ela ficava nervosa não era só por causa do mito e da língua comprida da vizinhança. O que pouca gente sabe é que toda esta enervação tinha também origem no trauma: quando era miúda, o seu pai saiu para comprar cigarros - como saía, todos os dias, pouco antes do jantar estar na mesa. Certa vez, o seu jantar ficou na mesa à espera, a família ficou em casa à espera, toda a gente e toda a coisa à espera, ninguém jantou nesse dia e no seguinte só comeram porque já dava fraqueza nos corpos da família inteira. Na verdade, ninguém tinha vontade de comer. O pai não aparecia. O jantar acabou por ficar para os cães. "&lt;em&gt;Se calhar foi comprar cigarros mais longe&lt;/em&gt;", disse ela, mentindo a si própria, com dores de estar a mentir, e a tentar confortar toda a gente e a sentir-se mal por perceber que estava a falhar. O pai fora comprar cigarros à América - soube-o anos mais tarde quando recebeu um postal de Nova Jersey a dizer "&lt;em&gt;Catarina, deixei de fumar&lt;/em&gt;". Não ficou feliz nem infeliz, mas as recordações vieram-lhe todas ao de cima e, quando casou, descobriu que ainda tinha medo dessas compras de cigarros.&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Vou comprar cigarros&lt;/em&gt;" atirou ele enquanto apanhava as chaves de casa da mesinha da sala. Ui. A cebola saiu-lhe cortada em fatias largueironas, os golpes foram feitos à faca mas podiam ter saído da violência afiada de uma catana. E as lágrimas vinham-lhe de três sítios: dos olhos, por causa da cebola; da garganta, por causa do choro; e do estômago, por causa do medo.&lt;br /&gt;Fechou a porta do prédio e subiu um pouco a rua. O café estava fechado. Que raio? A esta hora? Caminhou mais um pouco. Lá à frente, na esquina da esquerda, havia outra tasca. Eram só mais uns metros. Olha, fechado também. Está bonito isto. "&lt;em&gt;Não tarda tenho que ir comprar cigarros à América, não?&lt;/em&gt;" Este pensamento - ele não o sabia - vinha carregado de tragédia, já se vê. Andou mais um pouco, lá ao fundo um beco onde havia três ou quatro tascas. Em chegando, espantou-se: nas vidraças, nas portas, nas janelas, nas paredes, nos toldos, em toda a parte havia escritos "&lt;em&gt;não há cigarros para ti&lt;/em&gt;", "&lt;em&gt;tabaco só ao balcão&lt;/em&gt;", "&lt;em&gt;fumar causa infelicidade&lt;/em&gt;", "&lt;em&gt;fechámos mais cedo&lt;/em&gt;", "&lt;em&gt;proibida a entrada a animais&lt;/em&gt;" ou "&lt;em&gt;introduza a quantia cert&lt;/em&gt;a". "&lt;em&gt;Caramba&lt;/em&gt;", pensou. "&lt;em&gt;Não há cigarros, mau presságio&lt;/em&gt;". E era mesmo. Ele não sabia o quanto - eu sei porque conheço o fim desta história.&lt;br /&gt;Desalentado, voltou para casa. Um homem sem cigarros é um homem nervoso. E ele estava com um mau pressentimento e isso é uma coisa que agrava os nervos às pessoas. Quando meteu a chave à porta sentiu a cheiro da comida. Cheirava bem. Entrou e foi à cozinha, queria saber o que havia para o jantar. O tacho com o arroz de coelho ainda estava ao lume e em cima da bancada havia um recado escrito a dizer "&lt;em&gt;Ricardo: não fui comprar cigarros. Sabes que não fumo. Beijinhos, Catarina&lt;/em&gt;".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114830888444922501?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114830888444922501/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114830888444922501&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114830888444922501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114830888444922501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/o-homem-que-comprava-cigarros.html' title='O homem que comprava cigarros'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114804465000111202</id><published>2006-05-19T15:16:00.000+02:00</published><updated>2006-05-19T15:17:30.006+02:00</updated><title type='text'>Que gostava do Godard</title><content type='html'>Diz-se - e isto é sempre difícil de afirmar que sim senhor, que é verdade -, mas diz-se que, várias vezes, em conversa com vizinhos que lhe conseguiam chegar mais perto, que dizia que se sentia "&lt;em&gt;como num filme francês&lt;/em&gt;". A primeira vez que mo contaram, não liguei. E da segunda não percebi muito bem a ideia. À terceira fiz-me curioso, pensei sobre o assunto e perguntei "&lt;em&gt;mas que raio é que ele quer dizer com isso?&lt;/em&gt;" "&lt;em&gt;então, os filmes franceses, aqueles esquisitos com histórias de amor fora do normal... e ele diz que a vida dele é assim&lt;/em&gt;" e eu "&lt;em&gt;ah, pois&lt;/em&gt;". Que a vida dele era esquisita, está certo, confere. Sobre os amores, não lhos conheci, só ouvi falar. Agora, se o filme era francês - coisa que aceito, enfim - ele de certeza que fazia papel de estrangeiro: francês era coisa que ele não falava, uma palavra que fosse. Nem bonjour!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114804465000111202?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114804465000111202/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114804465000111202&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114804465000111202'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114804465000111202'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/que-gostava-do-godard.html' title='Que gostava do Godard'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114796078761064814</id><published>2006-05-18T15:59:00.000+02:00</published><updated>2006-05-18T15:59:47.616+02:00</updated><title type='text'>Apontamentos da vida de uma pessoa como qualquer outra</title><content type='html'>Nos comboios, gostava de ir à janela. Não gostava que lhe proibissem o fumo. E não gostava de trocar conversa com outros passageiros. Mas gostava de olhar, ainda que discretamente, os corpos, os rostos, as silhuetas, os olhos das mulheres que viajavam na sua carruagem. Especialmente aquelas que considerava "belas" ou "bonitas" ou até as apenas "giras" ou "engraçadas". Mas mesmo as outras, aquelas que classificava de "assim-assim", também essas lhe davam gozo observar. Achava que viajar de comboio era uma actividade multifacetada. Isto, embora tivesse consciência que, para algumas pessoas, viajar de comboio equivale a dormir todo o caminho. Dessas pessoas ele não gostava.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114796078761064814?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114796078761064814/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114796078761064814&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114796078761064814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114796078761064814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/apontamentos-da-vida-de-uma-pessoa_18.html' title='Apontamentos da vida de uma pessoa como qualquer outra'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114787662709205768</id><published>2006-05-17T16:36:00.000+02:00</published><updated>2006-05-17T16:37:07.100+02:00</updated><title type='text'>Apontamentos da vida de uma pessoa como qualquer outra</title><content type='html'>Diariamente, ia no táxi e ouvia na rádio: "11 horas, no continente e na Madeira; 10 horas nos Açores". Pensava para si "eu vivia bem era nos Açores. Ao menos não chegava tão atrasado". É factual e rigoroso: nunca chegava a horas. Nunca! E os atrasos raramente eram ligeiros ou desculpáveis. Que eu saiba, nunca encarou a possibilidade de uma mudança para os Açores de uma forma muito séria. Nasceu, cresceu e acabou por morrer em Lisboa. Viajou por alguns sítios, mas mudar-se, mudar-se, nunca se mudou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114787662709205768?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114787662709205768/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114787662709205768&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114787662709205768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114787662709205768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/apontamentos-da-vida-de-uma-pessoa_17.html' title='Apontamentos da vida de uma pessoa como qualquer outra'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114780901064540868</id><published>2006-05-16T21:45:00.000+02:00</published><updated>2006-05-22T16:51:07.833+02:00</updated><title type='text'>As Pessoas</title><content type='html'>&lt;strong&gt;I - Os pensamentos das pessoas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que as pessoas pensam:&lt;br /&gt;os humanos nascem&lt;br /&gt;com sementes de perguntas na cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas vão na rua&lt;br /&gt;olhamos para elas&lt;br /&gt;e vão de passo em passo&lt;br /&gt;em escadas rolantes&lt;br /&gt;em elevadores em autocarros em metros&lt;br /&gt;vão de pensamento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes as pessoas trepam&lt;br /&gt;até ao cume umas das outras&lt;br /&gt;e param de pensar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o pensamento dos humanos&lt;br /&gt;é como uma arma&lt;br /&gt;difícil de arremessar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;olha-se para o espelho&lt;br /&gt;e pensa-se "tu és isto"&lt;br /&gt;mas tu nunca és nada disto&lt;br /&gt;Olha-se para o retrato&lt;br /&gt;e pensa-se "eu sou assim"&lt;br /&gt;e não sou&lt;br /&gt;só estou a pensar que sim&lt;br /&gt;sem que, no entanto,&lt;br /&gt;o pensamento se arremesse&lt;br /&gt;e me toque&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é então que não me transformo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as pessoas permanecem assim&lt;br /&gt;sem que esse "assim"&lt;br /&gt;seja algum dia aquilo que elas pensam.&lt;br /&gt;Depois as pessoas evoluem de assim em assim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensam umas nas outras&lt;br /&gt;e até de umas para as outras&lt;br /&gt;com certezas e embaraços&lt;br /&gt;mas sobretudo com distracção e despropósito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o pensamento provoca intençõees&lt;br /&gt;e é daí que as coisas se fazem&lt;br /&gt;as coisas como o mal&lt;br /&gt;e o bem&lt;br /&gt;ou as outras mais pequenas&lt;br /&gt;e mais fáceis de definir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cabeça das pessoas&lt;br /&gt;existem ideias e perguntas&lt;br /&gt;e tentativas de resposta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é&lt;br /&gt;no pensamento das pessoas&lt;br /&gt;uma demanda obscura&lt;br /&gt;uma corrida duradoura&lt;br /&gt;sempre atrás de ideias correctas&lt;br /&gt;chamadas respostas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das perguntas já se sabe que eram sementes&lt;br /&gt;e que brotam&lt;br /&gt;das ideias sabe-se pouco&lt;br /&gt;e das respostas nada se sabe&lt;br /&gt;embora se pense muito nelas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;há pessoas que têm sabedoria no cérebro&lt;br /&gt;mas isso não faz delas sábias&lt;br /&gt;porque quanto mais sabem, mais pensam.&lt;br /&gt;E quanto mais se pensa&lt;br /&gt;mais perguntas nascem&lt;br /&gt;e uma pessoa sempre a perguntar&lt;br /&gt;nunca responde a nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensar é hesitar perante o momento&lt;br /&gt;é questionar perante a dádiva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensar desregula a apatia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pessoas que pensam no caos&lt;br /&gt;e perdem tempo&lt;br /&gt;a ficar inquietas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e o caos agarra nas pessoas&lt;br /&gt;e come-lhes os pensamentos nas próprias cabeças&lt;br /&gt;mesmo que os pensamentos não prestem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois as pessoas ficam muito sérias&lt;br /&gt;a pensar no que lhes terá acontecido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As causas e as consequências fazem as pessoas pensar muito.&lt;br /&gt;As pessoas sentam-se&lt;br /&gt;e, uma vez introvertendo,&lt;br /&gt;franzem os sobrolhos&lt;br /&gt;e dizem "humm..."&lt;br /&gt;e pensam numa causa e numa consequência qualquer&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114780901064540868?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114780901064540868/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114780901064540868&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114780901064540868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114780901064540868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/as-pessoas.html' title='As Pessoas'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114779451747473745</id><published>2006-05-16T17:47:00.000+02:00</published><updated>2006-05-16T17:48:37.486+02:00</updated><title type='text'>Apontamentos da vida de uma pessoa como qualquer outra</title><content type='html'>A certidão atestava: sete e quarenta e cinco da tarde, a hora da sua morte. Sabe-se que, sobre a mesa de cabeceira, ao lado da cama e do corpo prostrado, existiam balas. Não chegaram a ser usadas. A que foi usada, a tal que lhe perfurou o crânio às sete e quarenta e cinco da tarde - pelas contas do médico legista -, terminou na parede. Nem uma palavra sobre quem a disparou. Pode até ter sido o morto, mas isso é trabalho para os forenses. Da pistola, não ouvi falar. Mas devia haver uma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114779451747473745?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114779451747473745/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114779451747473745&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114779451747473745'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114779451747473745'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/apontamentos-da-vida-de-uma-pessoa.html' title='Apontamentos da vida de uma pessoa como qualquer outra'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114773037139543246</id><published>2006-05-15T23:51:00.000+02:00</published><updated>2006-05-16T00:17:18.430+02:00</updated><title type='text'>A fúria da palavra</title><content type='html'>Um texto. As palavras e o trabalho de as moldar. Seguir a imagem, o som ou o cheiro na ilusão de decifrarmos uma pessoa.&lt;br /&gt;Horas sobre as folhas em branco e em frente ao ecrã.&lt;br /&gt;Vícios que dão balanço e superstições idiotas que bloqueiam.&lt;br /&gt;Um ponto. Ou dois.&lt;br /&gt;Começar e apagar. Recomeçar e riscar a folha até marcar o verso, às vezes até rasgar.&lt;br /&gt;O dia em que finalmente acordo com as palavras &lt;em&gt;não passa de hoje&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Esmiúço, duvido, releio antes de adormecer e logo ao acordar.&lt;br /&gt;E depois da fúria sei que volta tudo ao nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114773037139543246?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114773037139543246/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114773037139543246&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114773037139543246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114773037139543246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/fria-da-palavra.html' title='A fúria da palavra'/><author><name>JBV</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28154352.post-114772827497114448</id><published>2006-05-15T23:23:00.000+02:00</published><updated>2006-05-15T23:24:34.973+02:00</updated><title type='text'>A fuga possível</title><content type='html'>&lt;em&gt;(Manifesto de Outono)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EXTERIOR. DIA. CHUVA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um adolescente, de mochila às costas, encharcado, corre pelo passeio do lado do rio da avenida Infante D. Henrique, em Lisboa. A corrida é frenética, veloz, decidida, obcecada. Ao fim de um certo tempo, bate à janela de um carro parado num semáforo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOM: Passos do adolescente, em corrida, burburinho da cidade e som de chuva, intercalados com batida cardíaca do protagonista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTERIOR DO CARRO. DIA. CHUVA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através da janela do carro, do lado do pendura, vê-se a cara do adolescente, que, num esgar de aflição, abre a boca ensaiando um inaudível  grito de pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28154352-114772827497114448?l=restosesobras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://restosesobras.blogspot.com/feeds/114772827497114448/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28154352&amp;postID=114772827497114448&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114772827497114448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28154352/posts/default/114772827497114448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://restosesobras.blogspot.com/2006/05/fuga-possvel.html' title='A fuga possível'/><author><name>Diego Armés</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14047369671483723379</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://2.bp.blogspot.com/-94E1guZg4tY/Td_c76eBOWI/AAAAAAAAAII/eoq4pfYMmtk/s220/deuseb.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry></feed>
